Depois do café, os três saíram de casa.
O marido dirigiu.
A filha foi no banco de trás, com a mochila ao lado e uma expressão de quem ainda não estava convencida de que deveria ir à escola.
A psicóloga sentou-se ao lado do marido.
Por alguns minutos, conversaram sobre coisas pequenas.
O trânsito.
O trabalho.
O cachorro.
As sementes dos pássaros.
Então o marido perguntou:
— Você vai mesmo buscá-la hoje?
— Vou.
Ele sorriu.
— Ela vai gostar.
— Eu sei.
— Você anda trabalhando demais.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
Ele não precisava explicar.
Desde que Aurora aparecera, quase todos os dias dela haviam sido consumidos pelo acampamento, pelos exames, pelas reuniões e pelas tentativas de compreender uma garota que simplesmente flutuava.
A filha tinha percebido.
O marido também.
— Faz tempo que você não busca ela — disse ele.
— Eu sei.
— Ela sente falta.
— Eu sei.
Ele olhou rapidamente para ela.
— Então hoje é um bom dia para começar de novo.
Ela sorriu.
— É.
O carro chegou ao colégio.
A menina abriu a porta traseira.
— Tchau, mãe.
— Tchau.
— Você vai mesmo me buscar?
— Vou.
— No horário?
— No horário.
A menina fechou a porta.
O marido abaixou o vidro.
— Bom dia, filha.
— Tchau, pai.
Ela entrou pelo portão.
Os dois ficaram observando por alguns segundos.
Quando o marido arrancou, disse:
— Acho que você está feliz.
— Estou.
— Ela também.
A psicóloga olhou pela janela.
Talvez fosse apenas uma manhã comum.
Talvez, depois de tantas semanas, ela finalmente estivesse conseguindo voltar a uma rotina.
O marido mudou de assunto.
— Você lembra daquela viagem no ano passado?
Ela riu.
— Não começa.
— Eu só ia lembrar.
— Você esqueceu nossa filha num posto de gasolina.
— Nós esquecemos.
— Você esqueceu.
— Nós dois esquecemos.
Ela começou a rir.
— Ela ficou furiosa.
— Ela tinha razão.
— Tinha.
— Pelo menos os militares não precisaram procurar nossa filha.
Ela olhou para ele.
— Não faça piada com isso.
— Foi só uma piada.
Ela voltou a rir.
Era uma lembrança absurda, mas doméstica. Daquelas que uma família conta durante anos.
No ano anterior, haviam parado num posto de gasolina durante a viagem.
Entraram na loja.
Conversaram.
Compraram algumas coisas.
Voltaram para o carro.
Só perceberam alguns quilômetros depois.
A filha estava furiosa.
Felizmente, um funcionário do posto havia chamado a polícia, e tudo terminara bem.
Naquela época, aquilo parecera uma catástrofe.
Agora parecia quase engraçado.
O carro passou pelo ponto onde a menina seria buscada no fim do dia.
A psicóloga olhou para o relógio.
Ainda era cedo.
O marido diminuiu a velocidade.
— É aqui que você vai ficar?
— É.
Ela olhou para ele.
— Obrigada.
— Hoje você busca ela.
— Hoje eu busco.
Eles se despediram com um beijo rápido.
Ela abriu a porta.
— Até mais tarde.
— Até.
O carro foi embora.
Ela ficou sozinha.
Alguns minutos depois, um veículo militar parou diante dela.
Um soldado abriu a porta traseira.
Ela entrou.
O carro partiu.
Dessa vez, não houve conversa.
A estrada até o complexo era longa.
A psicóloga olhava pela janela.
O silêncio dentro do veículo parecia maior do que deveria.
Quando se aproximaram da região isolada, começaram a aparecer pessoas.
Primeiro algumas.
Depois dezenas.
Depois centenas.
Havia carros estacionados nas margens da estrada.
Barracas.
Faixas.
Cartazes.
Pessoas acampadas.
Algumas seguravam câmeras.
Outras seguravam imagens religiosas.
Outras apenas observavam.
O rádio do veículo estava ligado.
— ...as autoridades continuam sem explicar o fenômeno envolvendo Aurora, a jovem de aparência normal que permanece flutuando aproximadamente cinquenta centímetros acima do solo...
A psicóloga olhou pela janela.
Uma faixa dizia:
O FIM DO MUNDO COMEÇOU.
Mais adiante:
AURORA É A SALVAÇÃO.
Outra:
NÃO É HUMANA.
E outra:
A CRIANÇA DO CÉU.
O rádio continuava.
— ...pesquisadores confirmam que a jovem permanece sem apresentar sinais aparentes de deterioração física. Segundo informações divulgadas nesta manhã, Aurora continua respirando, alimentando-se normalmente e demonstrando comportamento aparentemente humano...
A psicóloga abaixou o volume.
O veículo passou por uma área onde grupos haviam montado barracas.
Havia pessoas ligadas à ufologia.
Espíritas.
Religiosos.
Pessoas afirmando ter recebido mensagens durante sonhos.
Homens com equipamentos improvisados apontados para o céu.
Uma faixa enorme dizia:
AURORA VEIO DE OUTRO PLANETA.
Logo depois:
AURORA NÃO É DESTE MUNDO.
Mais adiante havia um grupo dizendo que tudo aquilo era uma conspiração mundial.
Ela viu até pessoas discutindo sobre a curvatura da Terra.
Parou de prestar atenção.
O que começou como uma aparição inexplicável já havia se transformado em tudo aquilo.
Religião.
Teoria.
Comércio.
Espetáculo.
A psicóloga viu uma barraca vendendo camisetas com o rosto de Aurora.
Depois outra vendendo pequenas estátuas.
Uma delas mostrava Aurora vestida de branco, com as mãos junto ao corpo, flutuando sobre uma pequena base.
Parecia uma santa.
Em outra barraca havia medalhinhas.
Pulseiras.
Chaveiros.
Imagens.
Alguém vendia um pequeno ímã de geladeira feito em impressora 3D.
Era Aurora.
Vestida de branco.
Flutuando.
A pequena figura tinha sido feita para parecer exatamente como ela aparecia na floresta.
A psicóloga ficou olhando.
Aquilo a incomodou mais do que deveria.
Não porque fosse ofensivo.
Era apenas rápido demais.
Aurora estava ali havia poucas semanas.
E já existia uma indústria ao redor dela.
Um comerciante gritava:
— Últimas unidades! A imagem original de Aurora!
Outro vendia comida para as pessoas acampadas.
Havia vendedores de café, água, cobertores e capas de chuva.
A presença da garota já havia criado uma pequena cidade ao redor do acampamento.
O rádio voltou a aumentar sozinho quando o motorista mexeu no painel.
— ...alguns grupos religiosos passaram a chamar Aurora de Nossa Senhora da Aparição. Outros afirmam que sua presença representa uma ameaça espiritual. Especialistas continuam divididos quanto à origem do fenômeno...
A psicóloga desligou o rádio.
Ficou olhando para fora.
No meio da multidão, viu uma criança segurando uma pequena estátua de Aurora.
A criança olhava para a floresta.
Como se esperasse que a garota fizesse alguma coisa.
Mas Aurora não fazia nada.
Ela apenas flutuava.
Como vinha fazendo todos os dias.
Sem levantar a mão.
Sem falar.
Sem ameaçar ninguém.
Sem pedir nada.
A psicóloga pensou na filha.
Na mochila.
Na promessa de buscá-la.
Na pequena reclamação daquela manhã.
Por um instante, teve vontade de voltar para casa.
O veículo passou pelo último bloqueio.
Os soldados abriram o portão.
A multidão ficou para trás.
À frente estava o complexo militar.
Barracas.
Geradores.
Antenas.
Equipamentos.
Holofotes.
Tendas médicas.
Laboratórios improvisados.
E, no centro de tudo, além das estruturas e das pessoas, estava Aurora.
Ainda flutuando.
Ainda parada.
Como se o mundo inteiro tivesse chegado até ela.
E ela não tivesse pedido que ninguém viesse.
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