O carro militar deixou o acampamento pouco depois das dez da noite.
A estrada estava iluminada pelos faróis.
Mesmo àquela hora, havia pessoas por todos os lados.
Barracas.
Carros estacionados.
Famílias.
Curiosos.
Religiosos.
Pessoas que rezavam.
Pessoas que gritavam.
Pessoas que simplesmente queriam ver Aurora.
Alguns tinham vindo de outras cidades.
Outros estavam ali havia dias.
Havia cartazes improvisados.
Imagens religiosas.
Fotografias de Aurora.
Teorias escritas em cartolinas.
Algumas pessoas tentavam chegar mais perto das barreiras.
Outras haviam tentado entrar na área isolada.
No rádio militar, vozes se alternavam.
— Atenção ao setor norte.
— Pessoa não autorizada tentando ultrapassar o perímetro.
— Equipe de contenção deslocando.
— Mantenham o protocolo de segurança.
— Ninguém entra na área sem autorização.
A psicóloga olhava pela janela.
Uma mulher estava ajoelhada na margem da estrada.
Mais adiante, um grupo inteiro rezava.
Havia pessoas com câmeras.
Havia pessoas acampadas simplesmente esperando.
Havia pessoas que pareciam não saber exatamente o que estavam esperando.
O carro continuou.
Depois de alguns minutos, chegaram a um posto destinado às pessoas autorizadas.
O veículo parou.
Ela olhou pela janela.
O marido estava esperando.
Ao lado dele estava sua filha.
A menina usava um casaco grosso.
Por alguns segundos, a psicóloga simplesmente ficou dentro do carro.
O marido olhou para ela.
A filha também.
Ela abriu a porta.
Desceu.
Não disse nada.
Caminhou até eles.
E começou a chorar.
A filha correu para os braços dela.
O marido a abraçou logo depois.
Os três ficaram assim por alguns segundos.
Sem falar.
— Foram tempos difíceis — disse o marido.
Ela respirou fundo.
— Ainda estão sendo.
— Eu sei.
Ele olhou para ela.
— E ainda não entendemos nada.
Ela balançou a cabeça.
— Nada.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Às vezes parece que é o fim do mundo.
Ela olhou para a estrada.
— Mas não aconteceu.
— Não.
— O mundo continua.
— Continua.
Eles entraram no carro.
A filha foi para o banco de trás.
O marido entregou uma garrafa térmica para a esposa.
— Fiz sopa.
Ela segurou a garrafa.
Sentiu o calor atravessar as mãos.
— Obrigada.
— Está frio.
Ela abriu a garrafa.
O vapor subiu.
Por alguns segundos, ficou em silêncio.
Então olhou para a filha no banco de trás.
Ela estava coberta por um cobertor.
A psicóloga pensou em Aurora.
Aurora estava naquela floresta.
Sem cobertor.
Sem casaco.
Sem cama.
Sem casa.
E, ainda assim, os exames diziam que ela estava perfeitamente saudável.
Não sentia frio.
Não estava doente.
Não parecia cansada.
Nada.
O rádio continuava ligado.
Uma voz de jornalista falava sobre Aurora.
— Especialistas continuam sem explicar a natureza da jovem. Algumas teorias sugerem uma origem extraterrestre—
O marido aumentou um pouco o volume.
Outra voz entrou.
— Grupos religiosos já afirmam que Aurora seria uma entidade demoníaca, enquanto outros acreditam que ela representa uma espécie de manifestação divina—
Outra reportagem.
— Dados obtidos pelos equipamentos militares indicam níveis de radiação extraordinários. Alguns especialistas chegaram a comparar a assinatura detectada à de uma estrela de nêutrons—
Ela apertou o botão e desligou o rádio.
Silêncio.
A filha olhou para ela pelo retrovisor.
— Mãe?
— O quê?
— Você está bem?
Ela olhou para a filha.
Sorriu.
— Estou.
O carro começou a andar.
Do lado de fora, as pessoas continuavam esperando Aurora.
A psicóloga olhou pela janela uma última vez.
Ela sabia que tudo aquilo precisava ter alguma explicação.
Talvez tudo tivesse.
Radiação.
Biologia.
Energia.
Matéria.
Gravidade.
Havia palavras para todas aquelas coisas.
O estranho podia ser explicado.
O problema era outra coisa.
Aurora não parecia simplesmente estranha.
Ela parecia fora da natureza.
Como se alguma coisa tivesse colocado, por engano, uma impossibilidade dentro do mundo.
Uma garota albina.
Uma adolescente normal.
Com o corpo de uma pessoa.
Com a aparência de uma pessoa.
Mas com algo dentro dela que fazia o universo parecer estar cometendo um erro.
Ela fechou os olhos.
No banco de trás, sua filha dormia.
O marido dirigia.
A sopa ainda estava quente em suas mãos.
E, pela primeira vez em semanas, ela estava indo para casa.
Aurora continuava na floresta.
Flutuando.
Sozinha.
E o mundo inteiro continuava tentando descobrir por quê.
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