Eu sou orgulhosamente nascida e criada no interior de São Paulo. E é justamente por isso que eu preciso dizer vários fatos:
A política deveria ser feita de discussão democrática, de projetos, de propostas, de visões diferentes sobre o país e sobre o futuro. Assim era em um passado próximo, até o ódio e o véu da ignorância serem lançados em 2019.
Dai em diante a política deixou de discutir política.
Virou uma guerra de nomes, virou um monólogo entre eleitores de direita e esquerda. Até parece nós contra eles e eles contra nós.
E, no meio desse barulho todo, a maioria deixou de perguntar o fator mais importante: Qual é o projeto?
O bolsonarismo não consegue fazer uma campanha política de verdade. Fala-se de Lula o tempo inteiro, mas nada se explica sobre aquilo que realmente deveria importar: O que será feito com o emprego, com a saúde, com a educação, com a ciência, com a cultura, com os direitos trabalhistas, com a democracia, com a soberania brasileira?
É muito mais fácil produzir um inimigo do que apresentar um projeto digno.
E é essa gritaria sem sentido que está deixando tanta gente com medo da esquerda.
Mas pare por alguns minutos e se pergunte: De qual esquerda você tem medo?
Porque a esquerda brasileira de hoje está muito longe da caricatura que construíram dela.
Não fechamos igrejas, Não estamos tentando acabar com a religião, Não estamos destruindo a família, Não estamos querendo transformar o trabalhador em revolucionário de cartaz vermelho.
Aliás, eu gostaria que a esquerda brasileira fosse muito mais radical em alguns contextos. Mas, não é.
Eu gostaria, por exemplo, que tivéssemos avançado muito mais na reforma agrária. Gostaria de uma esquerda mais parruda na defesa da terra, do trabalhador, da natureza e da distribuição de riqueza.
Eu gostaria de um anarquismo.
Mas essa não é a realidade.
A esquerda brasileira de hoje é capitalista e muito capitalista, a prova está em Bancos lucrando em nível Record, Empresas continuam funcionando em abundância, O mercado continua existindo e vendendo até se empanturrar.
Então, concorde que a esquerda brasileira de hoje não é a ameaça que venderam para você.
Se pergunte se você não está refém de um discurso de ódio gratuito? Se não está repetindo uma opinião porque um influencer disse?
Se não está votando em alguém porque aprendeu que “ser de direita” é simplesmente odiar Lula?
Política não pode ser modinha e não pode ser ditada por influencer de internet.
E muito menos pode ser torcida organizada.
Seu voto é seu!
E é justamente por isso que eu quero falar sobre a sua irresponsabilidade no voto em flávio bolsonaro. Com letra minúscula mesmo, porque letra maiúscula são para grandes trabalhadores como você.
Pergunte-se: qual é o projeto de flávio para o trabalhador brasileiro?
O que ele fez, concretamente, para melhorar a vida da classe trabalhadora? Qual é a proposta dele para quem acorda cedo, pega ônibus, trabalha o dia inteiro, paga aluguel, compra comida, cria filho e ainda precisa torcer para não ficar doente?
Porque trabalhador e patrão não negociam em condições iguais.
Você sabe disso.
Você sabe porque já viu a cara feia do patrão quando precisou sair meia hora mais cedo para participar da reunião escolar do seu filho.
Você sabe porque já teve medo de apresentar um atestado médico.
Você sabe porque muitas vezes engole desaforo para não perder o emprego.
E alguém realmente acredita que sem leis trabalhistas fortes, essa relação vai se resolver apenas na conversa? Porque flavio propõe conversa. E com flexibilidade de leis trabalhistas não tem conversa é o trabalhador que perde.
Quando leis são questionadas, quem tem mais poder manda e quem tem menos poder obedece.
É por isso que direitos trabalhistas não são privilégio. Foram conquistados com luta da esquerda.
Também não podemos esquecer que política pública salvam vidas.
A pandemia mostrou isso de uma maneira brutal.
Enquanto o mundo corria atrás de vacinas, o Brasil viveu uma condução desastrosa da pandemia, com atraso e negligência na aquisição de vacinas e uma postura presidencial que minimizou a gravidade da doença.
Muita gente que poderia estar aqui não mais está.
Lembrar dessa realidade não é ideologia.
São vidas.
É a nossa vida.
É a vida dos nossos filhos.
É a aposentadoria dos nossos pais.
É o remédio de quem não pode pagar.
É a universidade pública que produz ciência.
É a pesquisa brasileira.
É a Farmácia Popular.
É o SUS.
É o direito de trabalhar e voltar para casa com dignidade.
É a nossa democracia. É a nossa soberania.
E é também a nossa cultura.
Porque enquanto alguns políticos brasileiros parecem mais interessados em idolatrar os Estados Unidos, Trump e tudo aquilo que vem de fora, eu continuo olhando para o Brasil.
Para a nossa música.
Para a nossa literatura.
Para as nossas festas populares.
Para a nossa arte.
Para a nossa comida.
Para a nossa gente.
Para o nosso jeito de inventar beleza e ter esperança.
Eu não quero um Brasil de joelhos diante de ninguém. Muito menos dos Estados Unidos.
Nem diante de bilionários, nem diante de político algum.
E há outra coisa que me preocupa profundamente: A forma como a direita extremista brasileira trata a própria democracia e a história do país.
A direita e a família bolsonaro relativiza a ditadura militar, homenageia torturadores, tratam a defesa das instituições democráticas como se fossem uma pauta de esquerda. E Não é.
Democracia não é de esquerda. Democracia é nossa. Democracia é a sua liberdade, a liberdade dos seus filhos.
Eu insisto muito para que você pense antes de votar.
Porque existe uma diferença enorme entre votar em alguém porque você concorda com suas propostas e votar em alguém porque aprendeu a odiar o adversário.
Uma coisa é consciência política, a outra é manipulação.
Eu sou do interior de São Paulo DDD 019 e sempre tive muito orgulho disso.
Tenho orgulho das nossas cidades, das nossas histórias, da vida simples, das festas, das raízes, da capacidade dos interioranos de trabalhar e construir a vida.
Mas, existe uma coisa que eu não aceito: Que ser do interior signifique necessariamente pensar como a maioria.
Eu não fico embaixo da asa de ninguém.
Eu estudo, eu leio, eu questiono, eu valorizo a arte e a cultura local, valorizo a ciência, valorizo a democracia.
Eu escuto pessoas diferentes de mim.
E tenho orgulho de continuar fazendo isso mesmo quando me sinto minoria.
Porque ser minoria nunca me assustou.
O que me assustaria seria abrir mão da minha consciência apenas para me sentir pertencente.
Por isso, eu continuo tendo orgulho de ser do interior de São Paulo.
Porém, confesso que me entristece ver o interior entregando tantos votos à extrema direita sem perguntar o que receberá de volta.
Porque nós, do interior, também somos trabalhadores, também somos mulheres, aposentados, pequenos comerciantes, agricultores, professores, somos jovens procurando empregos, somos mães tentando criar nossos filhos.
Também somos gente que depende do SUS, da escola pública, da universidade, das políticas sociais e das leis trabalhistas.
Então eu faço um convite ao pessoal do interior:
Não é um convite para você gostar de mim, tão pouco para você virar comunista.
Não é um convite para abandonar sua fé e nem para odiar a direita.
É um convite para você pensar em você e nos seus.
Leia, compare, pergunte pelos projetos.
Olhe para a história.
E, principalmente, não entregue seu voto por medo ou por moda.
Se, depois de tudo isso, você continuar querendo votar na direita, esse direito é seu.
Mas, sua escolha terá graves consequências.
Eu vou votar Lula 13.
Não porque o acho perfeito. Nenhum político é.
Eu voto em Lula porque a proposta de defesa da democracia brasileira é dele, porque Lula preserva o que já conquistamos e é ele que olha e faz pelo povo, especialmente os mais necessitados.
E se você chegou até aqui e continua pensando em votar em flávio, por favor, pense mais uma vez.
E depois de pensar, dê voz também ao seu coração e assim concluirá que o melhor para o Brasil é apertar 13, faça isso.
Mesmo que você se sinta minoria.
Porque votar também é ter coragem de não pertencer à maioria quando a sua consciência pede outro caminho. Vote pelo lado certo da história e fique em paz.
Eu sou do interior de São Paulo e tenho orgulho disso. Tenho mais orgulho ainda de não me apequenar para caber em condutas retrógradas.
"Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar..."
Ana Paula Bueno