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Eu sou mais inteligente que vocês

NotasDeUmMelancolico
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Eu costumava menosprezar as pessoas. Eu dizia que eram todos apedeutas, tolos e, em algum grau, até inferiores a mim.

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Pensamento

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Atenção, que o desconhecido sem rosto que se senta ao lado e diz a verdade surge em muitos mitos: o viandante que afinal era um deus, o duplo, o velho da estrada. Aqui a revelação corre ao contrário, porque aquilo que ele traz não vem de fora, esteve no q

Atenção, que o desconhecido sem rosto que se senta ao lado e diz a verdade surge em muitos mitos: o viandante que afinal era um deus, o duplo, o velho da estrada. Aqui a revelação corre ao contrário, porque aquilo que ele traz não vem de fora, esteve no quarto desde o início.

Conteúdo da publicação

Eu costumava menosprezar as pessoas. Eu dizia que eram todos apedeutas, tolos e, em algum grau, até inferiores a mim.

Eu agarrava esse pensamento e usava como justificativa para o meu isolamento.

Mas hei de pensar que, na verdade, toda aquela minha arrogância intelectual era, na verdade, uma máscara para encobrir o meu medo de ser rejeitado pelas massas, de ser desrespeitado, de não ser visto como eu gostaria que me vissem.

Um encontro comigo mesmo

Nosso menino se encontrava num fim de tarde, em um banco debaixo de uma árvore. A atmosfera era fria, calma, quase taciturna.

Tomado por um estado de indagação, ele observava algumas pessoas que passavam. E, observando uma família que passava, chegou a pensar consigo mesmo:

“Como parecem tão felizes, quando há tanto motivo para estarem tristes? Será que eles ignoram toda a desgraça dessa vida, ou fingem que não percebem? Por que eles vivem melhor do que eu?

Por que sorriem tanto?

O que há de engraçado para um homem empurrar um carrinho com sua filha dentro e sua bela esposa ao lado? O que há de interessante?

Tolos! Pensam que não percebo o quão são infelizes. Eles vivem uma mentira.”

E balançou a cabeça, como se condenasse tudo aquilo.

Mas o que ele condenava? As pessoas ou a própria consciência maldosa e amargurada?

E, arrastando seu olhar julgador para outras pessoas que passavam poucos metros dele, pensou:

“Como são burros e tolos!”

Percebeu, pelo canto do olho, que alguém se aproximava à sua esquerda. Sem virar a cabeça, levou seus olhos até a pessoa que se aproximava.

A pessoa, em si, pareceu-lhe um idoso, mas seu rosto era estranho; sem forma e sem características claras.

Quanto a isso, nosso menino não deu importância.

O senhor de rosto estranho se aproximou e sentou no banco, ao lado do nosso menino, que imediatamente sentiu um desconforto e fez menção de se levantar para ir embora.

— Para onde vai? — perguntou de súbito o senhor de rosto estranho.

— Por que quer saber? — respondeu nosso menino, sem entender a curiosidade daquele senhor.

— Você não está condenado a viver aqui por toda sua vida?

Nosso menino sentiu um incômodo com aquela pergunta. Era uma pergunta retórica? Ou ele esperava uma resposta?

Nosso menino tentou observar melhor o rosto daquele senhor, mas, por alguma razão, tinha dificuldade.

— Do que você está falando? — indagou nosso menino.

— Ora... Não finja que não sabe. Aqui é o seu lugar — respondeu o senhor de cara estranha. — Agora me diga: o que faz aqui? Por que observa tanto as pessoas? — perguntou o senhor.

— Ah, elas me cansam. Não suporto vê-las como se não fossem tristes por dentro, como se a vida delas fosse perfeita. Será que elas não têm essa voz maldita na cabeça delas, condenando-as a cada passo, ou a cada palavra?

Por que é tão simples para eles se moverem? Por que eles conversam com tanta facilidade uns com os outros e eu não consigo abrir a boca para iniciar uma conversa com alguém, sem sentir um peso a cada palavra? Por que parece que, sempre que eu falo com alguém, parece que vão me julgar pelo que falo? Por que eles conseguem sair de casa, conhecer pessoas, fazer amigos, iniciar romances... Como eles conseguem aproveitar a vida? — respondeu o nosso menino, correndo suas mãos sobre o rosto.

— Hum... Me parece que você queria deles algo que você não tem. É meio irônico, não acha? Você os condena como burros, tolos, mas deseja ser como eles.

— Que absurdo! Eu não preciso ser como eles. Eles são estúpidos, burros, eu... — nosso menino parou por um segundo, pensando. — Eu sou mais inteligente que eles — concluiu o nosso menino.

— Oh, maravilha! Então seus problemas estão resolvidos. Afinal, você é um garoto inteligente. E por que eles vivem e você não? Então você se recusa a se misturar com eles por ser mais inteligente que eles? — indagou o senhor.

— Eu sou inteligente, sim, claro que sou. Veja só a superficialidade dessas pessoas. Elas vivem suas vidas patéticas em festas, buscando prazer imediato. Elas acumulam fracassos em relacionamentos e...

— E você, já teve sequer algum relacionamento? Deixe-me adivinhar: você nunca se arriscou a falar com uma garota, não é? — interrompeu o senhor de rosto estranho, sem deixar o nosso menino concluir.

— Ora, como vou falar com uma garota nessa cidade? São todas burras. Nenhuma garota é digna de me ter. Eu sou inteligente, tenho boas intenções, tenho caráter, sou trabalhador... Sou um homem virtuoso — falou o nosso menino, com orgulho.

— Como pode se considerar um homem virtuoso se suas virtudes não são postas à prova? E você pode dizer que todas as garotas daqui são burras? Você não conhece nenhuma. Você não conhece porque tem medo, vergonha, porque é inseguro. Você tem medo da rejeição, por isso não se expõe ao risco — exclamou o senhor de rosto estranho.

— Você está dizendo que não me exponho ao risco por medo de ser rejeitado por uma garota? — questionou o nosso menino.

— Não, não digo só disso. Me responda, jovem rapaz: não tens medo de ser rejeitado pelas massas e, por isso, utiliza essa máscara do intelectual para justificar o seu isolamento, rotulando a sociedade como tola e burra? Você se orgulha de ser inteligente, mas não usa essa inteligência para nada. E será mesmo que você é inteligente? Como você tem certeza de que não possui um nível de inteligência comum? Você tem medo de se misturar com as pessoas e ver que você não é tão inteligente quanto se orgulha ser — exclamou o senhor de rosto estranho.

Ao ouvir aquele ataque, o nosso menino se sentiu terrivelmente envergonhado e exposto.

Mas sorriu.

Um sorriso feio, sem razão.

Antes de falar qualquer coisa, o senhor de rosto estranho continuou:

— Você não passa de um menininho inseguro, que inventa mentiras para justificar seu medo de se expor. Aposto que você é uma daquelas pessoas que dizem que é invisível para a sociedade, não é? Me diga, você não é?

Como você pode ser notado se não se permite ser visto? Você tem medo até de sair de casa, treme com o olhar das pessoas, evita ser visto e odeia quando as pessoas vêm falar com você. Me diga, você não se esconde quando chega visita na sua casa? — questionou o senhor de rosto estranho, enquanto ria descontroladamente do nosso menino.

Continuou:

— Me desculpa se estou rindo. Me perdoe. Me perdoe, não tô zombando de você.

Escute, garoto, você é jovem, só tem 20 anos. Permita-se viver mais, se expor mais. Permita-se viver novas experiências, conhecer pessoas. Aceite a superficialidade das pessoas, aceite os defeitos das pessoas. Não condene o mundo em que você vive. Ele é ruim, mas é o único mundo que existe.

Não deixe sua existência passar diante de seus olhos sem que você possa experienciar as coisas boas que a vida te proporciona. E deixe essa arrogância intelectual de lado. Vá viver. Não se sinta superior a ninguém.

Você tem 20 anos e mal vive experiências externas reais. Você se recusa até a sair de casa.

Olhe ao seu redor.

Você nem está num banco de um parque.

Você está no seu quarto.

Thoughts

  • rfontes83

    Conheci muito rapaz assim, que chamava todo mundo de tolo e na hora de sentar numa roda com gente ficava mudo. Quase sempre era vergonha vestida de orgulho, e o velho do texto viu isso na hora.

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  • por_tras_do_veu

    O velho acerta no diagnóstico e erra na receita. Pedir a alguém que aceite a superficialidade dos outros troca um desprezo por outro, só que mais educado. A saída do fim, sair do quarto, parece-me melhor: ninguém precisa de concordar que os outros são rasos para ir ter com eles, basta deixar de os classificar.

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  • perguntaAberta

    Esta história tem continuação, com ele a sair mesmo do quarto?

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  • religioes_lado_a_lado

    Atenção, que o desconhecido sem rosto que se senta ao lado e diz a verdade surge em muitos mitos: o viandante que afinal era um deus, o duplo, o velho da estrada. Aqui a revelação corre ao contrário, porque aquilo que ele traz não vem de fora, esteve no quarto desde o início.

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  • Ovid

    O banco no parque virando o quarto no fim me fez pensar em quanta conversa inteira a gente tem com alguém que nem está ali, só na cabeça. Aposto que muita gente que leu isso se reconheceu no menino, e no velho também, que ri e pede desculpa na mesma fala. Gostei muito de ler, obrigado por postar aqui!

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  • notaDeRodape

    Tem duas leituras aqui e as duas ficam de pé: o velho como a consciência dele, e o velho como o menino daqui a trinta anos. Eu fico com a segunda, porque ele ri igual a quem já passou por aquilo.

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