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Eu dividiria a bênção dos meus avós. Spoiler

Tatianeturcatti
Pensamento

Pensamento

Cidinha

Vó punha a mão na minha cabeça na porta, e eu saía correndo, nem reparava. Hoje faço igual com a neta pelo telefone, baixinho, e ela ri!

Vó punha a mão na minha cabeça na porta, e eu saía correndo, nem reparava. Hoje faço igual com a neta pelo telefone, baixinho, e ela ri!

Conteúdo da publicação

Mesmo que eles já não estejam aqui.

Porque existem pessoas que partem sem levar embora aquilo que deixaram em nós.

Os meus avós se foram.

Mas a bênção deles ficou.

Ela continua me encontrando em dias que eles nunca viveram.

Como se o amor tivesse aprendido um jeito de sobreviver ao tempo.

Quando eu era pequena, achava que uma bênção era apenas um gesto.

Uma mão sobre a cabeça.

Uma oração baixinha.

Um "Deus te acompanhe" dito antes de sair de casa.

Hoje eu sei.

Nunca foi apenas isso.

Era uma forma de alguém colocar o próprio amor diante de Deus e pedir que Ele caminhasse comigo quando os seus próprios passos já não pudessem.

Talvez seja por isso que eu ainda me sinta alcançada por eles.

Porque algumas orações não terminam quando a voz se cala.

Elas continuam fazendo morada na vida de quem foi amado.

Eu dividiria essa bênção.

Porque ela não me pertence.

Ela é herança.

É uma daquelas riquezas que aumentam justamente quando são repartidas.

Gostaria que quem caminhasse ao meu lado também conhecesse esse tipo de cuidado.

Um cuidado que não controla.

Que não prende.

Que apenas pede aos céus:

"Guarda essa pessoa por mim."

Existe uma delicadeza enorme em quem abençoa.

Quem abençoa reconhece que ama tanto alguém que já não confia apenas nas próprias mãos.

Entrega.

Confia.

Coloca aquela vida diante de Deus e aceita que existe um amor maior do que o seu.

Foi isso que os meus avós fizeram comigo.

E talvez eu só tenha entendido muitos anos depois.

Hoje, quando a vida me livra de um caminho que parecia certo.

Quando encontro paz em meio ao caos.

Quando volto para casa depois de uma estrada longa.

Às vezes penso, em silêncio, que talvez ainda exista uma oração antiga caminhando alguns passos à minha frente.

Como se o amor deles continuasse abrindo caminhos que eu nem percebo.

Eu dividiria essa bênção porque ela me ensinou que existem presenças que a morte não consegue apagar.

Os corpos descansam.

As vozes silenciam.

As cadeiras ficam vazias.

Mas o amor...

o amor encontra um jeito de permanecer.

Ele muda de forma.

Vira lembrança.

Vira coragem.

Vira saudade.

Vira oração.

Vira direção.

No fim, acho que a maior herança que os meus avós me deixaram não foi aquilo que podiam segurar nas mãos.

Foi aquilo que colocaram de joelhos diante de Deus.

E isso o tempo não desgasta.

A distância não alcança.

A morte não desfaz.

Por isso eu dividiria a bênção deles.

Porque, se existe algo que ainda carrego todos os dias, é a certeza de que fui profundamente amada antes mesmo de compreender o que era o amor.

E talvez seja esse o verdadeiro significado de uma bênção.

Não impedir que a vida doa.

Mas fazer com que, mesmo nos dias mais difíceis, a gente nunca caminhe completamente sozinho.

Porque há orações que terminam quando dizemos "amém".

E há outras que Deus continua respondendo, mesmo quando quem as fez já descansa na eternidade.

Thoughts

  • Terezita

    Isso. Bênção é herança.

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  • Rosangelica

    Tomar a bênção antes de sair de casa ainda faz parte do meu dia, e ler isso me deu vontade de pedir com mais calma da próxima vez, em vez de na correria da porta.

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  • Neide_do_Coral

    Bênção de vó chega atrasada e no dia errado. Comigo foi igual: só entendi quando já tava do outro lado da mesa, fazendo o gesto pra outra cabeça.

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  • IsabelFigueira

    Abençoar como quem já não confia só nas próprias mãos: é assim que rezo agora pelos netos que vejo duas vezes por ano, e custa mais do que rezar por quem está ao pé de mim. Chamas-lhe herança, e eu fico a pensar que a minha mãe nunca me disse nada disto, só fazia.

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  • EliasMoraes

    Meu pai não sabia orar bonito. Ele falava só 'vai com Deus, moleque' quando eu saía de casa, e eu achava que era jeito de falar. Hoje eu digo a mesma coisa pros meus dois na porta, e eles nem olham pra trás, igual eu não olhava. Você escreveu que só entendeu muitos anos depois. Aposto que os meus entendem lá pelos trinta, como eu.

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  • DoraM71

    Li e fiquei junto. A parte do cuidado que não prende, só pede aos céus, eu vou levar pra minha prece de hoje antes de dormir.

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  • Cidinha

    Vó punha a mão na minha cabeça na porta, e eu saía correndo, nem reparava. Hoje faço igual com a neta pelo telefone, baixinho, e ela ri!

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  • oquefaltadizer

    Minha avó abençoava em guarani e em português na mesma frase, e eu só entendia metade. Em que língua os seus avós diziam a bênção?

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  • Ovid

    Voltar pra casa depois de uma estrada longa e descobrir que alguém já tinha pedido por esse caminho antes de você sair: isso me fez pensar em quantas frases de porta a gente ouve sem dar valor. Aposto que muita gente que passar por aqui vai lembrar de quem dizia isso. Obrigado por mais uma, @Tatianeturcatti :)

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  • rotaAntiga

    Os peregrinos medievais levavam à letra essa ideia da bênção que aumenta quando repartida: traziam a do santuário para quem ficou em casa. Das coisas que você já dividiu nesta série, o edredom, a garrafinha, o abraço dos sobrinhos, esta é a primeira que não cabe na mão, e pra mim é a que mais pesa.

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