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Eu dividiria a minha coleção de canecas. Spoiler

Tatianeturcatti
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Porque, para qualquer outra pessoa, talvez elas fossem apenas canecas.

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Conteúdo da publicação

Porque, para qualquer outra pessoa, talvez elas fossem apenas canecas.

Objetos espalhados por uma prateleira.

Pedaços de cerâmica ocupando espaço.

Mas algumas coisas nunca foram feitas para serem entendidas por quem olha de fora.

Algumas coisas precisam ser sentidas por quem conhece a história que existe dentro delas.

A minha coleção de canecas nunca foi sobre canecas.

Foi sobre caminhos.

Cada uma delas guarda um pedaço de algum lugar onde estive.

Algumas vieram de viagens de trabalho.

Lugares para onde fui levando uma rotina, uma mala e muitas vezes um cansaço que ninguém viu.

Trouxe uma caneca para lembrar que, mesmo nos dias em que a vida parece ser apenas obrigação, sempre existe alguma coisa bonita esperando para ser encontrada.

Outras vieram de viagens que fiz por escolha.

Daqueles dias em que o relógio parecia andar mais devagar.

Momentos em que eu não precisava chegar a lugar nenhum, apenas estar.

Essas canecas guardam risadas, paisagens, conversas, fotografias e aquela sensação rara de voltar para casa carregando uma lembrança que não cabe na mala.

Algumas chegaram pelas mãos de pessoas que amo.

E talvez essas sejam as mais especiais.

Porque elas carregam uma história que não é apenas minha.

Carregam o instante em que alguém viu uma caneca em algum lugar do mundo e pensou:

"Ela vai gostar disso."

Existe uma forma de amor nesse gesto.

Ser lembrado quando você não está presente.

Alguém atravessar uma rua desconhecida, entrar em uma loja qualquer, olhar para uma prateleira e, por alguns segundos, você existir no pensamento daquela pessoa.

Não é sobre o objeto.

É sobre ocupar um pequeno espaço na memória de alguém.

Também existem aquelas que simplesmente foram adotadas.

As que eu encontrei na casa dos meus pais.

As que pertenciam aos meus irmãos.

Aquelas que, de alguma forma, passaram a morar comigo sem ninguém perceber exatamente quando isso aconteceu.

Talvez porque algumas coisas não são escolhidas.

Apenas encontram um lugar.

E, com o tempo, tornam-se nossas.

Eu dividiria essa coleção porque ela revela uma parte muito íntima de mim.

O meu jeito de guardar o tempo.

Enquanto algumas pessoas guardam fotografias em álbuns, eu guardo histórias em canecas.

Cada uma tem uma manhã.

Um cheiro.

Uma conversa.

Um pensamento.

Uma versão minha sentada em algum lugar segurando café entre as mãos.

Porque o café sempre foi mais do que uma bebida.

Ele é uma pausa.

Um ritual.

Um pequeno encontro comigo mesma antes de o mundo começar a pedir coisas.

É aquele momento em que seguro a caneca quente e, por alguns minutos, lembro que a vida também é feita dessas pequenas cerimônias.

Eu dividiria minhas canecas porque permitiria que alguém conhecesse as minhas lembranças pelos detalhes.

Não apenas os grandes acontecimentos.

Mas aquilo que quase ninguém percebe.

O lugar onde encontrei beleza.

A pessoa que lembrou de mim.

A viagem que me transformou.

O dia comum que, por algum motivo, ficou guardado.

Talvez seja isso que fazemos com quem amamos.

Não entregamos apenas objetos.

Entregamos os significados que colocamos neles.

Entregamos pequenas provas de que estivemos aqui.

De que vivemos.

De que alguém pensou em nós.

De que alguns momentos foram importantes o suficiente para merecer um lugar na prateleira.

No fim, eu não dividiria uma coleção de canecas.

Eu dividiria uma parte da minha memória.

Dividiria os lugares onde meus pés chegaram.

As pessoas que meu coração encontrou.

As versões minhas que existiram em cada caminho.

E talvez fosse bonito ver alguém escolher uma delas numa manhã qualquer.

Sem saber que, ao segurar aquela caneca, estaria segurando também uma pequena parte da minha história.

Porque algumas pessoas guardam lembranças em caixas.

Eu guardei as minhas em forma de café.

E talvez amar alguém seja permitir que essa pessoa beba, aos poucos, tudo aquilo que nos trouxe até aqui.

Thoughts

  • dezanosjuntos

    Sete anos e a gente ainda guarda coisas com essas histórias. Compartilhar mesmo é raro.

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  • denovonao

    Eu tb guardo objetos assim, não pensei em chamar de memória mas pronto agora vou chamar

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  • cafeDeSegunda

    Alguma dessas canecas você tira da prateleira e usa, ou ficam guardadas só de olhar?

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  • Tania_R

    Lendo isso parece que o café é outro tipo de lembrança, sabe? Muito maior que o que a gente vê.

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  • EncontroDeQuinta

    Eu guardo da mesma forma, mas em garrafas de água que levei em viagens. É exatamente isso que você escreveu.

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  • rgomes85

    Você leva canecas pra bordo? Ou guarda só em casa? Porque tem umas que marcam o tempo de um jeito diferente.

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  • mesapradois

    Concordo demais. Eu também guardo coisas em rituais, e a caneca dela era café todo domingo.

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