Porque ela nunca me pareceu apenas uma data.
Sempre me pareceu uma lembrança.
A de que Deus tem o hábito de fazer a vida nascer exatamente onde os nossos olhos juravam que tudo havia terminado.
A Páscoa não começa no domingo.
Ela começa muito antes.
Começa na espera.
Na dor que parece não fazer sentido.
Na pedra colocada diante do túmulo.
Porque toda ressurreição, antes de ser milagre, foi ausência.
Foi um coração tentando continuar acreditando quando tudo o que podia ser visto era o fim.
Talvez seja por isso que a Páscoa me comova tanto.
Ela nunca prometeu que não haveria cruz.
Ela apenas prometeu que a cruz não teria a última palavra.
Eu dividiria essa esperança.
Não a esperança ingênua de que a vida será fácil.
Mas a esperança madura de quem já descobriu que Deus também trabalha debaixo da terra.
Enquanto nós chamamos de espera...
Ele chama de preparação.
Enquanto nós chamamos de fim...
Ele já enxerga o começo.
Eu dividiria a mesa da Páscoa.
O pão repartido.
As orações feitas de mãos dadas.
As crianças correndo pela casa.
Os risos.
As cadeiras ocupadas.
E também aquelas que permanecem vazias.
Porque toda família conhece o peso de uma ausência.
E, ainda assim, escolhe celebrar.
Existe uma coragem muito bonita nisso.
Continuar agradecendo mesmo quando ainda existe saudade.
Eu dividiria o chocolate.
Não pelo sabor.
Mas porque ele me lembra que Deus gosta de esconder doçura até nas lembranças mais profundas.
Como se dissesse, delicadamente, que a vida nunca é feita apenas de sexta-feira.
Sempre existe um domingo caminhando em nossa direção.
Mesmo quando ainda não conseguimos vê-lo.
E talvez seja essa a maior beleza da Páscoa.
Ela não nos ensina apenas sobre Jesus.
Ela nos ensina sobre nós.
Sobre todas as vezes em que pensamos que alguma parte da nossa história havia morrido para sempre.
Um sonho.
Um relacionamento.
Uma esperança.
Uma versão de quem éramos.
Até descobrirmos, muito tempo depois, que Deus nunca confundiu sepulcro com ponto final.
Eu dividiria a Páscoa porque ela me lembra que a fé não é acreditar que nada morrerá.
É acreditar que Deus continua tendo poder para fazer viver outra vez.
Mesmo aquilo que já não esperávamos.
Mesmo aquilo que já tínhamos aprendido a lamentar.
No fim, eu dividiria a Páscoa porque ela guarda a maior notícia que já atravessou o tempo.
A de que o amor é mais forte do que a morte.
A de que a esperança sobrevive ao silêncio.
A de que a pedra pode até fechar um túmulo...
...mas nunca será pesada o bastante para impedir Deus de abrir um novo caminho.
E talvez seja por isso que eu queira dividir essa data com quem amo.
Porque existem celebrações que alimentam o corpo.
Mas a Páscoa alimenta aquilo que, às vezes, passa anos esperando para renascer.
Ela nos lembra, todos os anos, de uma verdade que o coração insiste em esquecer:
quando Deus está escrevendo a história...
o fim nunca chega na sexta-feira.