Comecei lendo e não consegui parar.
Espaço Insone - prólogo
I.
In groups
Pensamento
Comecei lendo e não consegui parar.
Conteúdo da publicação
Antologia de Órion
I
Estava chovendo há dias, a ponto de toda a cidade parar. Pessoas estavam trabalhando de casa. Escolas dispensaram suas atividades, e o silêncio era apenas dominado pelo barulho da chuva tilintando nas janelas de vidro que compõem esse emaranhado de concreto.
Minha sala estava em meia-luz amarelada. O incenso de cedro que preenchia o ambiente era consumido lentamente por uma fagulha de brasa. O gato ronronava num canto do sofá, canto esse que havia reivindicado para si.
Peguei-me parado no meio da sala, olhando para as gotículas da chuva escorrendo pela vidraça. Ao perceber que estava em outro mundo, voltei ao presente e suspirei profundamente.
Senti uma vontade enorme de colocar uma música.
Ao percorrer os diversos títulos da minha coleção de vinil, deparei-me com um que estava cantarolando em minha mente havia dias: Honky Château, de Elton John. Perfeito para o clima em que me encontrava.
Coloquei o vinil na minha vitrola vintage, que estava bastante empoeirada, e me deitei no meio da sala, sobre meu tapete novo e felpudo. Fiquei olhando para o teto enquanto as músicas passavam.
Então, aquela música que se repetia em minha mente tocou.
“I miss the earth so much…”
Os sons, que preenchiam o silêncio e sintonizavam com a música, começaram a se tornar abafados. O teto pareceu se distanciar, enquanto o tapete no qual eu estava deitado começou a me abraçar.
Então, tudo ficou escuro e silencioso.
II.
Minhas pupilas se ajustaram ao contemplar aquele globo azul. Ajustaram-se ainda mais para contemplar a vastidão do vazio frio e escuro que sustenta aquela massa suspensa no nada. A minha realidade recaiu como um meteorito no meio do oceano.
Ao caminhar sozinho pela aridez cinza que refletia e ofuscava, eu precisava daquele refúgio onde o Sol nunca alcançava. O barulho do vácuo e o quebrar das ondas eram as únicas coisas que preenchiam minha solitude. Continuei seguindo em direção de casa.
Eu estava feliz.
Ao vislumbrar meu lar, tirei os chinelos e corri, dando vários saltos longos que antes eram impossíveis. Voltar para onde sempre pertenci pareceu correto e reconfortante.
Mais afastada estava minha canga sob as estrelas. Fui em direção a ela, passando por meu recinto. Ela estava intacta e impecavelmente limpa, sem um grão de areia, como sempre. Deitei-me com a barriga para cima, cruzei os pés e apoiei a cabeça sobre os braços. Olhei para o infinito e lá estava: Órion, reluzindo e tomando o protagonismo para si. As outras estrelas não importavam. Apenas Órion indicava o caminho.
Olhei para o lado e lá estavam eles, sorrindo enquanto abriam os vinhos. Cada um segurava uma garrafa de vinho barato em suas mãos. Ela estendeu uma para mim e me entregou.
Voltamo-nos a contemplar o cosmo, cada um em seu mundo. O som do mar quebrando adiante e o cheiro de sal nos envolviam, enquanto uma brisa trazia pequenos grãos de areia para a canga. Tomei um gole do vinho direto do gargalo, olhei para eles e sorri. Senti-me tão cansado e confortável que peguei no sono.
Ali, no local que o Sol nunca alcançava, apenas as luzes das estrelas nos guiavam, e Órion reluzia.
III.
“It’s lonely out in space.”
Eu escutei a frase reverberar pelo meu subconsciente, chegando a vibrar minha cabeça e fazer meus ouvidos zumbirem.
Quando acordei, senti-me um pouco zonzo. Ansioso, até. Eu estava sozinho, no final das contas. A canga impecavelmente limpa, como de praxe. Sentei-me e ajeitei meus cabelos ondulados. A maresia deixava a textura perfeita.
Na volta para casa, deparei-me, ao longe, com um objeto a cintilar. Ele estava no limiar entre a luz e as sombras. Passei direto pelo meu lar e, mais uma vez, não entrei. Fui em direção ao objeto, dando saltos cada vez maiores, chegando a praticamente flutuar.
Vi que era uma espécie de espaçonave, um foguete. Porém, minúsculo, perfeito para um tripulante.
Sob sua base, encontrava-se uma pegada e, ao lado dela, uma bandeira hasteada. A bandeira me chamou a atenção, pois era repleta de estrelas. E, no centro, uma constelação.
Órion.
Imaginei que fosse um sinal. Um chamado para uma jornada. Quem quer que fosse a pessoa que deixou aquela pegada poderia voltar a qualquer instante. Não pensei duas vezes. Adentrei a espaçonave.
Era bem apertada. Havia apenas um botão e um grande para-brisa com um ângulo de 270°. Dava para vislumbrar todo o cosmos. Guardei a bandeira que, estranhamente, estava segurando e apertei o botão.
A nave começou a sair do local e, em poucos segundos, já orbitava o grande globo azul.
Olhei para trás e vi minha casa se distanciando. Eles ainda estavam deitados na canga.
Engoli em seco.
Olhei para frente.
E a espaçonave foi em direção ao infinito.
O destino, eu não sabia.
“I’m a rocket man…”
continua…
nota
Conto ainda em desenvolvimento, quis publicar o início para saber o que acharam. Espero que gostem. Ficaria grato se me dessem algum feed back.
Obrigado.
Thoughts
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PermalinkTu deixou os dois da canga sem nome e sem rosto, só o vinho barato e o sorriso. Eles existem fora do conto?
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PermalinkSenti uma coisa parecida com saudade de casa enquanto ele ainda está em casa, deitado no tapete. Quando olha para trás e eles continuam na canga, isso ficou-me como um adeus que ninguém viu.
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PermalinkComecei lendo e não consegui parar.
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PermalinkO gato que reivindicou o canto do sofá me ganhou antes do foguete. Fiquei ouvindo a chuva junto com ele.
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