A rua canta seu barulho. A madrugada mostra o que não pode ser ouvido no dia, a voz que se faz silenciada durante a caminhada.
Eu tenho medo do amanhã. Cada vez que paro, me deparo com as notícias de um mundo cada vez mais cheio de ódio. Os monstros que se disfarçam em seus ternos sempre estiveram no poder, com a sua liberdade, sem medo, sem culpa. Ganhando forças daqueles que sobrevivem nesse banho de sangue, lutam e foram autores desde o início da história.
Eu tenho medo, meu cobertor quase não me cabe, não consigo dar refúgio aos meus. Eu tenho asco. Asco por essa vida ser tão injusta. Queria ser livre. Livre do medo, da ratoeira que é mantida com os restos, restos de comida envenenada que alucina com a liberdade sempre certa, livre da fome, da sede, da busca de um pouco de dignidade como era de ser, de discursos tão ensaiados que já terminei livros sem nunca precisar ler. Ser livre de verdade, dessa falsa liberdade, das correntes invisíveis que nessa ratoeira há de ter.
A voz da rua se mistura com a minha. Ela nunca conseguiu ser silenciada. Eu escuto o medo e a raiva em cada passo que dou. Nunca fui livre, a liberdade é conquistada a cada dia em que não escolho meu cobertor.
Texto autoral