Não faço isso com meus outros poemas, mas como esse é profundamente abstrato e simbólico, sinto que devo alguma forma de explicação para os leitores não acharem que estou delirando.
O poema fala sobre, assim como implica no título, o Erotismo. Na primeira estrofe, uma imagem nebulosa, distante é descrita, ela mostra essa figura que cantarola uma melodia que corta o ar e dedilha sobre as aves; é basicamente essa pessoa cantando algo belo, um poema ou algo do tipo.
"Não sou tua, sou dos céus."
Mostra o distanciamento do eu lírico quanto a essa "cantada", o que é apenas mais evidenciado na segunda estrofe, que ilustra exatamente isso; o eu lírico jogando essas palavras falsas para longe.
"Eu não amo tudo sobre ti,
não és meu cavaleiro,
esse amor perene ficará em seu cadáver como vermes em leito."
É praticamente um xingamento, uma renuncia a todos os sentimentos que esse cavaleiro sente pela figura feminina do texto. Além disso gostaria de pontuar essa dualidade presente nas duas figuras (algo que ficará mais claro ao longo do poema). A figura amada/feminina é ligada com o céu, enquanto o cavaleiro é ligado com coisas mais físicas, da terra; Rédeas da sela de um cavalo, seu corpo sendo consumido por vermes. O que quero dizer com isso é óbvio, eles são céu e terra, não podem se ligar.
A quarta estrofe é minha favorita, porque é a partir dela que o poema se torna mais simbólico e abstrato.
"Uma ferida, o ardor no vento, o deságue no mar;"
Isso é uma representação onírica (pelo menos na minha visão, você pode ter uma interpretação completamente diferente) de um sonho, um devaneio, delírio; O eu lírico está flutuando entre esses conceitos que se ligam com o "Érotico" citado no título, agora como você liga isso com os símbolos apresentados, vai de você, creio que explicar tudo acabaria com a graça :)
"No reflexo da névoa, vejo a ti em mim."
O que o eu lírico sente, e percebe, é que nessa forma distorcida de seus sentimentos, ela se vê nele; a ironia, a hipocrisia da nossa própria racionalidade. Ela estava tão certa de estabelecer limites e renegar o amor do cavaleiro por ela, que enterrou fundo seus sentimentos.
"Soçobro em meus murmúrios,
me deleito em seus refúgios,
eu não quero mais um lugar nesse mundo."
O eu lírico tem uma quebra, seus sentimentos eram uma ilusão, uma fraude, um teatrinho para esse cavaleiro, e a realização de algo tenha possivelmente acontecido com ele a faz perder seu equilíbrio nesse mundo.
"Profano o sagrado,
Profuso o teatro,
amor para mim é abstrato."
Também deixo essa estrofe a mercê de vocês.
O amor não tem forma certa, interprete-o.