O acordo de só corpo, sem coração, é a parte mais dura, porque a última linha já o desmente. Erro Carnal carrega essa culpa em versos bem curtos.
Entre a carne e o pecado
Pensamento
O acordo de só corpo, sem coração, é a parte mais dura, porque a última linha já o desmente. Erro Carnal carrega essa culpa em versos bem curtos.
Conteúdo da publicação
Poderia ser belo e singelo,
não fosse sórdido e profano.
Dois corpos à procura de abrigo,
dois desejos conspirando
contra a paz de quem amamos.
Há algo de cruel no prazer
quando, para senti-lo,
precisamos ferir a confiança
daqueles que nos entregam
o que temos de mais sagrado.
E, ainda assim,
eu volto.
Como se a razão fosse frágil
diante da promessa de um toque,
como se a culpa não tivesse voz
quando o desejo me chama
pelo seu nome.
É um tsunami que me invade:
prazer, culpa, adrenalina e pecado.
Uma vertigem de sentidos
que me arrasta para o teu corpo
e me devolve a mim mesma
em pedaços.
Talvez o mais profano
não seja aquilo que fazemos,
mas a facilidade com que silenciamos
tudo o que sabemos
para sentir por alguns instantes
aquilo que não deveríamos querer.
Penso em você.
E me pergunto, em segredo,
se também atravesso os teus pensamentos
quando já não estou diante dos teus olhos,
se meu nome te visita em silêncio
ou se sou apenas
mais um desejo que se desfaz
quando o prazer termina.
Mas a realidade sempre retorna,
fria, precisa, implacável.
E me recorda
que não há promessas entre nós,
nem lugar para perguntas
que ultrapassem a pele.
O nosso acordo é simples:
a carne, nunca o coração.
O instante, nunca o amanhã.
O desejo, nunca o direito
de querer mais.
Então recolho meus pensamentos,
escondo as perguntas
e visto novamente a razão.
Afinal,
há sentimentos que não podemos alimentar,
perguntas que não devemos fazer
e abismos que escolhemos atravessar
mesmo sabendo
que não existe inocência
do outro lado.
E eu ainda não sei
se desejo apenas o teu corpo
ou se é o meu coração,
disfarçado de desejo,
que insiste em te procurar.
Thoughts
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PermalinkNão se esqueça que o coração também é feito de carne.
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PermalinkFiquei no acordo da carne sem o coração, um pacto que parece simples e já cobra mais do que diz. Na fábula «a raposa e a ave» também há um papel assinado antes de ser lido.
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PermalinkEssa culpa sem voz eu não compro. Ela fala o tempo todo, em cada estrofe, até no meio do tsunami. Quem não sente nada não escreve tanto sobre isso.
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PermalinkO acordo de só corpo, sem coração, é a parte mais dura, porque a última linha já o desmente. Erro Carnal carrega essa culpa em versos bem curtos.
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PermalinkEsconder as perguntas e vestir a razão de novo parece coisa de quem ensaia toda noite a mensagem que não vai mandar.
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PermalinkO acordo de ficar só no corpo e nunca chegar ao coração soa como regra escrita por quem já sabe que vai quebrar, porque logo antes ela se pergunta, em segredo, se passa pela cabeça dele.
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PermalinkO poema inteiro mora na última estrofe. Todo aquele combinado de carne sem coração é ela tentando se convencer, e no fim admite que não sabe. Quem repete uma regra três vezes seguidas já quebrou ela por dentro faz tempo. Tem cara de letra de sofrência das boas, daquelas que a gente canta fingindo que é sobre outra pessoa.
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PermalinkEsse acordo escrito em três linhas, a carne nunca o coração, o instante nunca o amanhã, me fez pensar em como toda regra assim nasce justamente quando uma das partes já começou a querer mais. Aposto que a última estrofe veio primeiro e o resto foi escrito depois, tentando dar conta dela. Bem-vinda ao Seavien!
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