No quintal de uma velha casa, havia uma árvore que abrigava gerações de pássaros. Seus galhos sustentavam ninhos, suas folhas protegiam os pequenos da chuva e seu tronco guardava, em cada anel, a memória dos anos.
Certo dia, um pardal decidiu construir seu ninho no galho mais alto. Para facilitar o trabalho, encontrou uma faca esquecida junto ao muro. A lâmina estava cega, tomada pelo tempo, mas o pardal, apressado, julgou que ainda serviria.
Começou a serrar o galho com movimentos desajeitados. A faca não cortava. Em vez de interromper a tarefa, afiar a lâmina ou procurar outra ferramenta, o pardal insistiu, pressionando-a contra a madeira com toda a força de suas pequenas asas.
O galho resistiu.
A faca, porém, escorregava a cada tentativa e, em vez de separar a madeira, perfurava repetidamente o tronco da árvore.
— Que árvore teimosa! — reclamou o pardal. — Nem sequer me permite cortar um simples galho!
Um velho bem-te-vi, que observava tudo de uma cerca próxima, aproximou-se.
— Por que não afias a faca?
— Não tenho tempo para isso — respondeu o pardal. — Preciso terminar meu ninho antes do anoitecer.
— Então procura outra ferramenta.
— Esta está ao meu alcance. Seria um desperdício abandoná-la.
O bem-te-vi olhou para os pequenos buracos espalhados pelo tronco.
— E não te parece desperdício ferir aquilo que pretendes usar como abrigo?
O pardal não respondeu. Continuou trabalhando até que a noite chegou, sem que o galho se desprendesse. Cansado, abandonou a faca entre as raízes e voou para dormir em outro lugar.
Na manhã seguinte, uma chuva forte encontrou a árvore com o tronco perfurado. A água infiltrou-se nas feridas abertas, e os fungos, favorecidos pela umidade, começaram a se instalar na madeira lesionada. A árvore ainda viveria por muitos anos, mas aquelas feridas exigiriam dela recursos que poderiam ter sido destinados ao crescimento.
O pardal voltou na primavera seguinte e encontrou a árvore de pé, embora mais debilitada. Envergonhado, percebeu que sua negligência não havia produzido aquilo que desejava, mas deixado danos que outros teriam de suportar.
A faca continuava cega junto ao muro.
Semente reflexiva: A incapacidade de uma ferramenta não justifica a negligência de quem a utiliza; insistir sem discernimento pode ferir aquilo que pretendíamos apenas transformar.