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A faca cega.

Dorand2026
Pensamento

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distraida

Fiquei pensando nos pássaros do começo, as gerações de ninhos que a árvore abrigava. Eles somem do resto da história, e pra mim são eles que vão morar nas feridas cheias de fungo que o pardal deixou.

Fiquei pensando nos pássaros do começo, as gerações de ninhos que a árvore abrigava. Eles somem do resto da história, e pra mim são eles que vão morar nas feridas cheias de fungo que o pardal deixou.

Conteúdo da publicação

No quintal de uma velha casa, havia uma árvore que abrigava gerações de pássaros. Seus galhos sustentavam ninhos, suas folhas protegiam os pequenos da chuva e seu tronco guardava, em cada anel, a memória dos anos.

Certo dia, um pardal decidiu construir seu ninho no galho mais alto. Para facilitar o trabalho, encontrou uma faca esquecida junto ao muro. A lâmina estava cega, tomada pelo tempo, mas o pardal, apressado, julgou que ainda serviria.

Começou a serrar o galho com movimentos desajeitados. A faca não cortava. Em vez de interromper a tarefa, afiar a lâmina ou procurar outra ferramenta, o pardal insistiu, pressionando-a contra a madeira com toda a força de suas pequenas asas.

O galho resistiu.

A faca, porém, escorregava a cada tentativa e, em vez de separar a madeira, perfurava repetidamente o tronco da árvore.

— Que árvore teimosa! — reclamou o pardal. — Nem sequer me permite cortar um simples galho!

Um velho bem-te-vi, que observava tudo de uma cerca próxima, aproximou-se.

— Por que não afias a faca?

— Não tenho tempo para isso — respondeu o pardal. — Preciso terminar meu ninho antes do anoitecer.

— Então procura outra ferramenta.

— Esta está ao meu alcance. Seria um desperdício abandoná-la.

O bem-te-vi olhou para os pequenos buracos espalhados pelo tronco.

— E não te parece desperdício ferir aquilo que pretendes usar como abrigo?

O pardal não respondeu. Continuou trabalhando até que a noite chegou, sem que o galho se desprendesse. Cansado, abandonou a faca entre as raízes e voou para dormir em outro lugar.

Na manhã seguinte, uma chuva forte encontrou a árvore com o tronco perfurado. A água infiltrou-se nas feridas abertas, e os fungos, favorecidos pela umidade, começaram a se instalar na madeira lesionada. A árvore ainda viveria por muitos anos, mas aquelas feridas exigiriam dela recursos que poderiam ter sido destinados ao crescimento.

O pardal voltou na primavera seguinte e encontrou a árvore de pé, embora mais debilitada. Envergonhado, percebeu que sua negligência não havia produzido aquilo que desejava, mas deixado danos que outros teriam de suportar.

A faca continuava cega junto ao muro.

Semente reflexiva: A incapacidade de uma ferramenta não justifica a negligência de quem a utiliza; insistir sem discernimento pode ferir aquilo que pretendíamos apenas transformar.

Thoughts

  • distraida

    Fiquei pensando nos pássaros do começo, as gerações de ninhos que a árvore abrigava. Eles somem do resto da história, e pra mim são eles que vão morar nas feridas cheias de fungo que o pardal deixou.

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  • LuziaAndrade

    Tesoura sem fio puxa o tecido em vez de cortar, e quem insiste estraga o pano e ainda põe a culpa no pano. Eu já fiz isso quando era nova, igualzinho o pardal xingando a árvore de teimosa. Afiar leva dez minutos e refazer leva a tarde inteira.

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