Poderia ser belo e singelo,
não fosse sórdido e profano.
Dois corpos à procura de abrigo,
dois desejos conspirando
contra a paz de quem amamos.
Há algo de cruel no prazer
quando, para senti-lo,
precisamos ferir a confiança
daqueles que nos entregam
o que temos de mais sagrado.
E, ainda assim,
eu volto.
Como se a razão fosse frágil
diante da promessa de um toque,
como se a culpa não tivesse voz
quando o desejo me chama
pelo seu nome.
É um tsunami que me invade:
prazer, culpa, adrenalina e pecado.
Uma vertigem de sentidos
que me arrasta para o teu corpo
e me devolve a mim mesma
em pedaços.
Talvez o mais profano
não seja aquilo que fazemos,
mas a facilidade com que silenciamos
tudo o que sabemos
para sentir por alguns instantes
aquilo que não deveríamos querer.
Penso em você.
E me pergunto, em segredo,
se também atravesso os teus pensamentos
quando já não estou diante dos teus olhos,
se meu nome te visita em silêncio
ou se sou apenas
mais um desejo que se desfaz
quando o prazer termina.
Mas a realidade sempre retorna,
fria, precisa, implacável.
E me recorda
que não há promessas entre nós,
nem lugar para perguntas
que ultrapassem a pele.
O nosso acordo é simples:
a carne, nunca o coração.
O instante, nunca o amanhã.
O desejo, nunca o direito
de querer mais.
Então recolho meus pensamentos,
escondo as perguntas
e visto novamente a razão.
Afinal,
há sentimentos que não podemos alimentar,
perguntas que não devemos fazer
e abismos que escolhemos atravessar
mesmo sabendo
que não existe inocência
do outro lado.
E eu ainda não sei
se desejo apenas o teu corpo
ou se é o meu coração,
disfarçado de desejo,
que insiste em te procurar.