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[conto] Encontro de desencontro

unglamorous
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Ela saiu mais cedo do trabalho; era sexta-feira. Estava muito animada com a possibilidade de finalmente reencontrar sua grande amiga e, por isso, precisava chegar em casa e se arrumar o mais rápido…

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Ovid

Ela pedindo o croissant de queijo emmental no meio da irritação, como quem se consola sozinha, me fez pensar em quantas amizades acabam assim, por uma data lida com pressa. Três anos sem se falar e a volta falha por um dia, justo no dia em que ela saiu ma

Ela pedindo o croissant de queijo emmental no meio da irritação, como quem se consola sozinha, me fez pensar em quantas amizades acabam assim, por uma data lida com pressa. Três anos sem se falar e a volta falha por um dia, justo no dia em que ela saiu mais cedo do trabalho pra não se atrasar. Isso vai ficar com ela mais que os três anos.

Conteúdo da publicação

Ela saiu mais cedo do trabalho; era sexta-feira. Estava muito animada com a possibilidade de finalmente reencontrar sua grande amiga e, por isso, precisava chegar em casa e se arrumar o mais rápido possível.

O trânsito não estava ajudando. Ela olhava pela janela enquanto batia os pés freneticamente, puxava a cutícula a ponto de sangrar levemente e perguntava constantemente ao motorista como estava a situação do trânsito.

Toda aquela ansiedade se devia a um fato: fazia três anos que não falava com sua amiga por uma situação da qual as duas nem mais se lembravam. Na semana anterior, havia mandado uma mensagem por impulso e, surpreendentemente, sua amiga a respondera no mesmo instante.

Finalmente chegou em casa. Mal deu atenção ao seu gato, que a aguardava ansiosamente. Tomou um dos banhos mais rápidos de que se lembrava e vestiu a roupa que havia separado no dia anterior. Não podia se atrasar.

A amizade delas fora construída sobre um companheirismo quase espiritual. As duas se consideravam irmãs de alma. Ironicamente, na infância, haviam se detestado; só depois de se formarem no colegial a amizade florescera.

O rompimento daquela amizade fora uma perda muito grande para ambas. Um luto eterno por alguém que sempre estivera ao seu lado. Falhar com aquele reencontro seria voltar ao ponto zero.

Ela finalmente chegou ao restaurante. Era um bistrô bem simples e aconchegante, o local preferido das duas. Às quintas e sextas, havia um happy-hour característico. Assim que ela entrou, o garçom já trouxe sua água com gás e suco de limão, como de praxe.

Pessoas entravam e saíam, pratos tilintavam, vozes se sobressaíam, e o crepúsculo marcava a passagem do tempo enquanto ela permanecia em completa espera.

A sua amiga estava bem atrasada.

Já estava bastante irritada, achando injusto todo o esforço que havia feito para chegar a tempo e tornar aquele encontro um momento especial. Por fim, decidiu pedir um croissant de queijo emmental, que tanto amava. Em seguida, pediu um expresso para limpar o paladar.

Sua amiga ainda não chegara.

Indignada, decidiu mandar uma mensagem. Até então, havia evitado fazê-lo para não pressionar aquele momento. Ao abrir as mensagens, nada. Não havia nenhuma mensagem informando o motivo do atraso.

Completamente inconformada com a possibilidade de aquele encontro não acontecer, olhou novamente a mensagem sobre o encontro:

“Tudo combinado, nos encontramos quinta, às 17:00, pro happy-hour. Estou muito ansiosa e com saudades. Beijo, meu bem..”

Ela releu a mensagem, e uma lágrima escorreu pelo rosto, enquanto fechava a conversa. Se levantou, pagou a conta e saiu. A porta se fechou levemente atrás dela.

Thoughts

  • NunoParreira

    A primeira frase já diz sexta-feira e eu passei por ela sem parar. Só quando cheguei à mensagem é que fui lá acima confirmar, e estava ali desde o início. Fiquei a pensar no que a amiga fez com aquele silêncio depois de três anos: se calhar achou que a outra se arrependeu de ter escrito por impulso. Vais escrever a quinta-feira do lado da amiga?

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  • Simao

    Epá, a quinta-feira.

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  • Oliviamar

    Fui direta ao último parágrafo e achei que a amiga tinha morrido. Afinal era só a quinta-feira.

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  • Ovid

    Ela pedindo o croissant de queijo emmental no meio da irritação, como quem se consola sozinha, me fez pensar em quantas amizades acabam assim, por uma data lida com pressa. Três anos sem se falar e a volta falha por um dia, justo no dia em que ela saiu mais cedo do trabalho pra não se atrasar. Isso vai ficar com ela mais que os três anos.

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  • Rui_Salgueiro

    A amiga deve ter estado lá na quinta, sozinha, e também não escreveu nada para não pressionar. As duas iguais.

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