Li essa em voz alta pra minha avo e na parte do banho sem mascara ela mandou eu parar e ficou calada um tempao. tu ja sabia que ia matar os trezentos quando escreveu a parte do campo de trigo?
Eloquência da Fome - Parte 6
Era a última sequência de perguntas com Mãe Ceres.
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Li essa em voz alta pra minha avo e na parte do banho sem mascara ela mandou eu parar e ficou calada um tempao. tu ja sabia que ia matar os trezentos quando escreveu a parte do campo de trigo?
Conteúdo da publicação
Era a última sequência de perguntas com Mãe Ceres.
Ela tinha uma paciência e uma dureza de mármore, mas também um humor de pena leve, que fazia cócegas.
Render insistiu.
— Mãe, sobre o campo de trigo com mais de trezentos refugiados... Foi um milagre aquilo? Um truque? Ou acaso? O homem arcadiano morreu na sua frente com uma arma de fogo apontada para a sua cabeça. A senhora segurava uma criança refugiada nos braços. Apenas estendeu a mão para protegê-la, mas o arcadiano caiu morto diante das câmeras, em meio ao campo de trigo.
Render respirou.
— Com esse gesto, a senhora desencadeou uma crise existencial e religiosa em Omni Opus. Todos os sacerdotes e o Conselho Vermelho foram brutalmente assassinados pela própria população, que colocou a senhora no lugar deles e a canonizou como Nossa Senhora da Fome. Seu véu, suas vestes e as máscaras sujas dos refugiados foram levados para Omni Opus e decorados com ouro, ornamentos e pedras preciosas. Tudo aquilo que a senhora não ostenta.
Ele fez uma pausa.
— Como lida com isso? Ser canonizada justamente onde era odiada como uma inimiga da fé e, hoje, ser adorada? Como lida com isso? E o que aconteceu com os trezentos refugiados?
Aquilo era uma pergunta pesada.
Mãe Ceres temia o peso dela. Temia também a repercussão que aquilo poderia provocar nos acordos com Omni Opus.
Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Render, meu filho... O que aconteceu foi que o arcadiano sofreu um infarto fulminante.
Ela olhou para ele.
— A arma estava carregada. Eu ergui a mão para proteger a pobre criança refugiada enquanto comia seu alimento... um pedaço de pão.
Ceres fez uma pequena pausa.
— Coloquei a criança no chão do campo de trigo e fui socorrer o atirador. Era um pobre homem atormentado pelo ódio entre nossas nações. Eu não queria que ele morresse. Fosse eu morrer, mas não ele. Era um homem jovem que acreditava estar fazendo o justo a partir de uma lente ideológica distorcida.
Mãe Ceres permaneceu centrada.
— Não operei nenhum milagre. Enviei os relatórios a todas as nações. Fatos científicos. Ele sofreu um infarto fulminante. O acaso fez aquilo.
Ela respirou.
— Eu não controlo o que as pessoas querem ver.
A câmera permaneceu nela.
— Aquilo foi transmitido ao vivo pela televisão. Era uma armadilha para que eu executasse todos diante das câmeras. Em vez de chumbo, ofereci comida, médicos, roupas e acolhimento.
Ela olhou diretamente para a câmera.
— O mundo inteiro viu que não executamos ninguém, mesmo que isso faça parte de nossas leis. Damos cura às cicatrizes de pessoas que querem uma chance que a liberdade tirou delas.
Um silêncio.
— Eu sou humana. Não consigo controlar narrativas. Eu não parei aquele homem com forças sobrenaturais. E sempre negarei isso.
Ceres baixou os olhos por um instante.
— Foi o acaso.
Mais um silêncio.
— Mas também não posso provar que não foi um milagre.
Render levantou ligeiramente as sobrancelhas.
Ceres continuou:
— Para mim, foi acaso. Para um cientista, foi o funcionamento de um corpo humano. Para Omni Opus... talvez tenha sido uma resposta.
Ela voltou os olhos para a câmera.
— E se foi um milagre, não fui eu quem o fez.
A frase permaneceu suspensa no estúdio.
— Eu acredito em algo superior. Mas isso não sou eu.
Ela respirou lentamente.
— Sempre disse isso desde o início. Desde o evento até hoje. Mas não posso controlar o vazio das pessoas. E muito menos a fé delas.
Render não interrompeu.
— Minha luta é contra a fome, que é mais concreta. Na mecânica universal, não há necessidade de algo superior. Mas, para o ser humano, talvez haja. Ele necessita de luz. De esperança. Mesmo que isso não corresponda à realidade.
Ceres se recostou.
— Respeito Omni Opus desde quando eles me odiavam. E continuo respeitando, mesmo depois de terem destruído Ceres I.
Um pequeno sorriso surgiu.
— Não levo rancor.
Ela fez uma pausa.
— Levo fome comigo.
O silêncio voltou.
Render aproveitou a deixa.
— E os acordos econômicos?
Ceres respondeu imediatamente.
— O comércio é o caminho para uma paz acidental. A paz é um acidente. Não precisamos nos odiar. Precisamos uns dos outros. E, sem os outros, Ceres não existe.
Ela olhou para Render.
— Sem acordos econômicos, sugere-se a prevalência da guerra. Temos que nos comunicar e comercializar.
Uma pausa.
— Não existe outro caminho.
Render permaneceu alguns segundos em silêncio.
Então voltou à pergunta que realmente importava.
— E os trezentos refugiados?
Dessa vez, Ceres não respondeu imediatamente.
O rosto dela mudou.
Aquilo doeu.
O Conselho do Continente havia pedido que Mãe Ceres retornasse a Arcadia.
E os trezentos refugiados foram executados.
Mãe Ceres começou a chorar.
Ela sabia.
O repórter sabia.
Todos sabiam.
Foi cruel.
Os Silenciadores surgiram, como demônios saídos das trevas.
Mãe Ceres ergueu as mãos.
— Não, meus filhos. É errado. Render está certo. Voltem aos seus postos...
Ela abaixou lentamente as mãos.
— Dei o último banho naquela criança. Eu mesma.
Sua voz falhou.
— Porque sabia o que fariam depois que o Conselho do Continente ordenasse meu retorno.
Ela respirou fundo.
— Ela estava feliz. O estômago cheio.
Ceres tentou continuar.
— A criança me perguntou por que eu estava chorando.
Silêncio.
— Eu dei banho nela sem a máscara...
A voz quase desapareceu.
— ...porque sabia que nunca mais iria vê-la.
Mãe Ceres chorava diante das câmeras.
Sem máscara.
Sem discurso.
Sem argumento.
Sem milagre.
— Por Ceres...
Ela fechou os olhos.
— Por quê?
Mãe Ceres olhou diretamente para a câmera.
— Eu sou humana. Não consigo controlar narrativas. Não parei aquele homem com forças sobrenaturais. E sempre negarei isso. Foi o acaso.
Ela fez uma pequena pausa.
— Mas não posso controlar o vazio das pessoas. E muito menos a fé delas.
Naquele instante, em Omni Opus, um enorme telão transmitia a entrevista na Catedral Vermelha.
A nação inteira parecia ter parado.
Desde o momento em que Ceres II surgiu nos céus, milhares de pessoas permaneciam ajoelhadas diante do telão. Repetiam o mantra da Mãe, da Nossa Senhora da Fome.
Alguns rezavam.
Outros clamavam.
Havia pessoas se flagelando, ferindo a própria carne, como se a dor fosse uma forma de agradecimento.
E, quanto mais Mãe Ceres negava o milagre, mais eles a adoravam.
O Livro Vermelho, texto sagrado de Omni Opus, dizia que seus profetas eram humildes. Negavam os milagres. Afirmavam ser os maiores pecadores. Recusavam a própria santidade.
Era inútil.
Para aquela população, a negação era apenas mais uma prova de sua divindade.
Na Catedral Vermelha, Mãe Ceres estava representada como uma santa.
Suas vestes permaneciam sujas pelos abraços da criança que, mais tarde, seria executada. A máscara, agora ornamentada com ouro, diamantes e pedras preciosas, repousava sobre um altar de ouro puro.
O símbolo do oito havia sido retirado.
Não existia mais como marca de Ceres.
Agora, era uma relíquia.
Mais doações chegaram aos templos. O comércio com Ceres triplicou. A população já não passava fome como antes. Muitas pessoas receberam lares, embora milhares ainda esperassem pela construção de suas casas.
Os níveis de corrupção diminuíram, mas continuavam significativos.
As assistências governamentais, acompanhadas de uma renda extra, ajudaram muitas pessoas a sair da miséria. Alguns se opunham àquelas políticas, afirmando que elas incentivavam a população a não trabalhar.
Se essa lógica fosse verdadeira, Mãe Ceres mereceria um Prêmio Nobel de Economia.
Uma pequena ajuda financeira podia retirar alguém da miséria. E, dentro daquela argumentação, seria preciso admitir que deixar de trabalhar por pouco dinheiro e não gostar de trabalhar eram praticamente a mesma coisa.
Mãe Ceres não havia feito nada para provocar aquilo.
Havia apenas estendido a mão diante das câmeras.
O homem morreu.
A arma não disparou.
Arcádia havia preparado uma armadilha para que Ceres executasse os refugiados diante do mundo. Mas a armadilha saíra pela culatra.
Ela ofereceu comida, médicos, roupas e acolhimento.
O mundo viu o que aconteceu.
E, a partir daquele instante, cada pessoa escolheu o que desejava enxergar.
Mãe Ceres não controlava aquela narrativa.
E era justamente isso que a tornava ainda mais assustadoramente adorada.
De volta à entrevista, Ceres permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Render observou seu rosto.
— Mãe... eu também sou mãe de verdade — disse ela. — Existem várias Mães Ceres antes de mim. Isso nunca foi segredo. Carrego, com penitência, a máscara e a fome.
Sua voz perdeu um pouco da firmeza.
— Até hoje me lembro da inocência daquela criança.
Ela abaixou os olhos.
— Existe uma coisa que todos entendem no mundo. Quando um pai ou uma mãe morre, o filho se torna órfão. Quando um marido ou uma esposa morre, tornam-se viúvos.
Ceres respirou.
— Mas quando um filho morre... não existe nome.
O estúdio ficou imóvel.
— É tão antinatural que até o silêncio parece ficar em silêncio diante de um fato sem nome. Em nenhum lugar do mundo existe uma explicação suficiente. Nenhuma aceitação completa.
Ela ergueu o rosto.
— Na escolha dos refugiados, foi a liberdade que decidiu junto ao Conselho do Continente. Mas sem responsabilidade, Render.
Sua voz se tornou mais firme.
— As ideologias são feitas por humanos, mas podem existir sem humanidade. E, quando o Estado se sente ameaçado, elas esmagam o cidadão comum em nome de um bem maior.
Ceres olhou diretamente para ele.
— E ainda sou injusta?
Uma pausa.
— Dizem que eu minto?
Ela tocou a própria máscara.
— Eu não destruo. Eu acolho as pessoas pelas cicatrizes, não pelas virtudes.
Thoughts
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PermalinkBah, seis partes e tu ainda não afrouxou, enquanto o meu conto está parado no mesmo parágrafo desde 2023. A Ceres chorando sem máscara depois de seis partes de mármore foi o ponto em que eu parei de ler com inveja e li como gente, e aí fui pego pelos trezentos.
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PermalinkO último banho na criança, sem máscara, porque já sabia. Fez-me lembrar quem se despede sem dizer que é despedida, e há mais gente assim do que parece.
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PermalinkCopiei a frase da fome que ela leva no lugar do rancor e passei o resto da madrugada com ela. Uma mulher que não perdoa e também não se vinga, só continua com fome, me assusta mais que qualquer Silenciador.
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PermalinkCeres dizendo que para ela foi acaso, para um cientista um corpo humano e para Omni Opus talvez uma resposta me fez pensar em como a mesma cena vira três histórias dependendo de quem precisa dela. Aposto que a parte 7 vai custar mais pra escrever do que esta, depois desse choro sem máscara. Obrigado por continuar postando aqui!
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PermalinkLi essa em voz alta pra minha avo e na parte do banho sem mascara ela mandou eu parar e ficou calada um tempao. tu ja sabia que ia matar os trezentos quando escreveu a parte do campo de trigo?
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