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Eloquência da Fome - Parte 5

aleroz
Pública 8 conversas 13 pensamentos 28 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Neste momento, o verniz rasga.

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Pensamento

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mariinha

Vixe, a Koee ficando vermelha na frente de milhoes e a Mae mentindo pra proteger o general, eu fiquei do lado dela na hora. tu vai mostrar o dia que ela disse nao pro Alac Bilac?

Vixe, a Koee ficando vermelha na frente de milhoes e a Mae mentindo pra proteger o general, eu fiquei do lado dela na hora. tu vai mostrar o dia que ela disse nao pro Alac Bilac?

Conteúdo da publicação

Neste momento, o verniz rasga.

E, por baixo do verniz da verdade, sobra a carne, o sangue, as veias e os nervos.

Mãe Ceres opera através das palavras. Tão concretas que não existe anestesia moral. Ela troca os sentimentos de todos por chumbo.

Era um horror fascinante.

Um terror cósmico em palavras.

Um terror invertido.

Em vez de desviar o olhar, todos queriam olhar. Admiravam o horror porque, pela primeira vez, alguém mostrava aquilo que normalmente recusamos enxergar.

As trevas não eram o escuro.

Eram aquilo que nos recusávamos a olhar.

Mãe Ceres apenas mostrava.

Não julgava.

Cada um faria o que quisesse com aquelas constatações. Cada um carregaria seus próprios pesos e medidas.

Ela mostrou o fundo do abismo.

E empurrou todos para dentro dele.

E o pior:

todos adoravam aquilo.

Era o terror cósmico invertido.

Mãe Ceres parecia uma legista.

Vasculhava o corpo da liberdade. Mostrava os nervos. O sangue. O crânio aberto.

— Onde está ela?

A liberdade.

Mãe Ceres, como uma legista, encontrava o nervo onde mais doeu. Mostrava onde a liberdade sentiu a dor no estômago por não ter sido alimentada pela responsabilidade.

Não era uma entrevista.

Era um ritual.

Uma autópsia moral e da alma, filmada, datada, testemunhada por milhões.

Mãe Ceres fecharia o corpo.

E então daria o veredito.

Como se dissesse:

Fomos nós mesmos que matamos a liberdade.

Era como se a pele de todos tivesse caído no chão.

Como se alguém tivesse jogado sal, limão e vinagre sobre a carne exposta.

Mas ninguém sentia dor.

Ali, todos trocavam seus sentimentos por chumbo.

Mãe Ceres operava sem anestesia.

E todos, mentalmente, aplaudiam.

Porque fazer aquilo fisicamente seria ridículo.

Render sente a pressão subir.

Afrouxa a gravata de luxo.

Por um instante, uma pequena etiqueta aparece:

FEITO EM CERES.

Muito rápido.

Mas todos perceberam.

Mãe Ceres havia vencido aquilo tudo sem levantar uma arma.

Sem morte.

Sem vítimas.

Apenas o inevitável.

— Mãe...

Render pega um copo de água e bebe.

Respira.

— Sobre sexualidade... vemos que muitos ainda reprimem essa questão. Como isso funciona em Ceres?

Ceres inclina levemente a cabeça.

— Render, filho... sexualidade não tem nada a ver com caráter.

Uma pausa.

— Meus filhos têm seus interesses. E, Render... você não vê a ironia de Ceres como mundo?

Ela olha para ele.

— Nós nos importamos mais com eficiência e função. Meus filhos trabalham seis horas por dia. Têm lazer, médicos, academias, seis refeições ao dia, roupas limpas e uma cidade feita para eles.

— O que meus filhos fazem em particular é da conta deles, desde que exista respeito e limites.

Ela sorri discretamente.

— Eu só preciso de filhos para ter uma nação.

Uma pausa.

— E isso meus filhos me dão com todo orgulho.

Render persiste.

— Mãe, existem lendas sobre a senhora em todo o continente. É verdade que carrega um cinto para bater nos filhos mais rebeldes? Já bancou uma mãe arcaica?

Ceres responde imediatamente:

— Sim. Eu tenho... chineladas também!

Ela ri.

Por um instante, todos caem na gargalhada.

Ao fundo, Amós solta uma risada especialmente engraçada — justamente ele, o homem mais sério daquela sala.

Todos riem novamente.

Koee ri e esconde o rosto.

Ysa apenas sorri de leve.

— Brincadeira à parte... não faço isso, Hermes.

Ceres olha para Amós.

— Chefes de Estado têm que se comportar. Mas, às vezes, Amós merece umas palmadas...

Todos riem novamente.

Até Amós.

Render respira fundo.

— Mãe... nós ouvimos seu estômago roncar.

Ceres não perde o timing.

— Em dó maior.

A sala explode em gargalhadas.

Render sorri, um pouco desconcertado.

O rumo da entrevista muda completamente em poucos segundos.

Nos bastidores, os diretores de cena observam os picos de audiência subirem.

Render se perde por um instante.

Ele conhecia de cor as perguntas afiadas que havia preparado.

Mas Ceres tinha acabado de transformar tudo em outra coisa.

Ele decide mudar o rumo da entrevista.

— Mãe... existe corrupção em Ceres?

Ceres pensa por um instante.

— Não posso negar que exista.

Ela olha para Render.

— Sabe, Hermes, meu filho... existem três tipos de ditadores.

Uma pausa.

— Os selvagens, que já conhecemos.

— Os domésticos, que escolhemos.

— E os piores deles...

Ceres sorri discretamente.

— Os aduladores.

O ambiente volta a ficar sério.

— Os aduladores são os piores.

Uma colheita não precisa de elogios para crescer.

Uma função não se bajula.

Função se faz.

Ou não se faz.

— Eu não vivo de elogios. Vivo de função e pão na mesa.

Ceres olha para Amós.

— Nossos cargos não se alimentam de egos. Alimentam-se de função para Ceres.

Ela aponta discretamente para ele.

— Veja Amós, nosso diplomata. Ele não é simplesmente um funcionário ou um político de Ceres.

Amós permanece imóvel.

— Amós é Ceres dentro e fora de Ceres. Incorruptível, destemido e firme nos destinos de Ceres.

Uma pequena pausa.

— Ele sou eu fora e dentro de Ceres.

Ceres volta os olhos para Render.

— Não nego que existam tipos de corrupção em Ceres. Existem delitos.

— Mas são tão pequenos que avaliamos se realmente importam.

Render permanece atento.

— Ainda assim, cortamos pela raiz quando começam a se tornar problemas maiores.

— Existem situações em que não devemos usar o sistema para esmagar aquilo que nem sequer consegue crescer.

— O lodo e o limo, os fungos... fazem parte da natureza.

— Pequenos delitos que não alteram o sistema são irrelevantes diante de coisas maiores.

Ceres sorri.

— Sou Mãe. Sei de tudo.

— Sei quando alguém assalta minha carteira.

Uma pausa.

— E agirei quando menos esperarem.

— Sei quando uma filha minha está grávida e ela ainda não me contou.

Render permanece em silêncio.

— Não é o castigo que eles temem.

Ceres olha diretamente para ele.

— É perder o pertencimento.

— É perder o propósito.

— É perder o lugar à mesa com a Mãe.

— Mãe... Vamos falar agora de Koee Nahin. Quem é essa pessoa? É verdade que o General Alac Bilac, da nação de Oplan, o homem que não fala e nunca perdeu uma guerra, pediu-a em casamento e foi recusado?

Koee corou imediatamente.

Sua pele pálida ganhou um tom avermelhado, contrastando com seus olhos vermelhos e únicos. Os longos cabelos naturalmente platinados, presos em uma única trança, permaneciam imóveis sobre seu ombro. Ela tentou manter a compostura, mas seu estômago parecia ferver.

Mãe Ceres sorriu.

— Koee é uma menina linda, sensível... tem uma maneira quase etérea de existir. Mas é tão humana quanto todos nós nesta sala. Ela fala, anda, come, dorme, sente dor.

Ceres fez uma breve pausa.

— O surgimento dela foi um milagre. Um experimento teórico de Ceres, arquivado e roubado. Nós nem sabíamos se funcionaria. Os arquivos foram parar em Arcadia e ficaram escondidos por dezessete anos. Até hoje, eu não sei como conseguiram fazer isso.

— Mas você admira Arcadia?

— Muito. Discordamos em muitas coisas, mas é uma nação soberana. E há uma genialidade ali que eu respeito.

Ceres olhou para Koee.

— O sangue dela também nos ajudou a avançar na medicina. Conseguimos devolver os movimentos a Daime, nosso jogador de Flagball, que antes estava em uma cadeira de rodas. Hoje ele joga novamente como se nada tivesse acontecido.

Koee abaixou os olhos, ainda vermelha.

— E sobre o casamento? — insistiu Render.

Ceres respondeu com a maior naturalidade:

— Mentira. Isso foi inventado.

Render franziu a testa.

— Então o General Alac Bilac não pediu Koee em casamento?

Ceres sorriu.

— Meu filho, o General veio a Ceres para verificar as contas de seu país, por causa dos acordos que temos. Ele veio conferir os registros, conversar conosco, entender as transações.

Era mentira.

O pedido havia acontecido.

E Koee havia recusado.

Mas Mãe Ceres não iria expor o General daquela maneira diante de milhões de pessoas.

— Ceres possui bancos de quase todo o mundo — continuou ela. — Fazemos auditorias, verificamos contas, acompanhamos acordos. Nossa confiabilidade é impecável. Somos um país neutro e oferecemos um dos melhores suportes financeiros que existem.

Ela fez uma pequena pausa.

— Alimentamos nações não apenas no estômago.

Render olhou novamente para Koee.

— E Koee Nahin?

Ceres voltou os olhos para ela.

— Ela escolheu ficar.

A voz de Ceres ficou mais séria.

— Ela sabe que pode sair de Ceres. Ninguém a impede. Mas, se sair... será caçada como uma iguaria da espécie humana.

Ceres olhou para Render.

— Porque ela é tão humana quanto nós.

Thoughts

  • conto84

    Na primeira leitura eu ri junto com a sala na hora do estômago em dó maior. Quando voltei ao texto, fiquei presa na Mãe mentindo sobre o pedido de casamento na frente de milhões só pra não expor o general. Mãe que protege até o pretendente recusado da filha, isso eu já vi em casa grande, e nunca é de graça, ela cobra depois.

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  • cadernoPreto

    A parte do medo de perder o lugar à mesa com a Mãe ficou repetindo na cabeça depois que fechei a tela. Explica mais essa nação do que o cinto ou a chinelada, e explica também por que a Koee escolheu ficar mesmo sabendo que ninguém a impede de sair. Medo de castigo passa, medo de sobrar não.

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  • brunocosta

    Ó pá, a etiqueta FEITO EM CERES a aparecer na gravata do Render, e percebi que ele já tinha perdido antes de abrir a boca. Ela nem precisou de arma.

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  • Ovid

    Mãe Ceres a virar uma entrevista de perguntas afiadas em gargalhada com um ronco de estômago em dó maior me fez pensar em quanto poder tem quem não precisa de se defender. Aposto que o Render saiu daquele estúdio sabendo que perdeu no minuto em que a etiqueta apareceu. Obrigado por trazer a parte 5 pra cá!

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  • mariinha

    Vixe, a Koee ficando vermelha na frente de milhoes e a Mae mentindo pra proteger o general, eu fiquei do lado dela na hora. tu vai mostrar o dia que ela disse nao pro Alac Bilac?

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