Estude para votar certo soa bem, mas eu trabalho com adolescente que falta aula porque a rua fechou de manhã, e o estudo costuma ser a primeira coisa que o caos leva. Dá pra ler seu texto pensando no Afeganistão e dá pra ler pensando em menina daqui, que ninguém cala com burca, mas o ônibus que não passa cala igual.
Dor delas silêncio de todos.
Eu faço jornalismo e hoje me peguei imaginando ir até o Afeganistão para reportar tudo o que está acontecendo naquele lugar. E chorei. Chorei porque não poderia ser eu; eu não seria uma…
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Estude para votar certo soa bem, mas eu trabalho com adolescente que falta aula porque a rua fechou de manhã, e o estudo costuma ser a primeira coisa que o caos leva. Dá pra ler seu texto pensando no Afeganistão e dá pra ler pensando em menina daqui, que
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Eu faço jornalismo e hoje me peguei imaginando ir até o Afeganistão para reportar tudo o que está acontecendo naquele lugar. E chorei. Chorei porque não poderia ser eu; eu não seria uma profissional, não seria uma repórter, não seria ninguém, não seria nada e me sentiria apagada como todas as outras que lá residem. A opressão contra as mulheres ultrapassa a censura política: é uma violência existencial. Proibi-las de SER, cobrindo seus rostos e silenciando suas vozes, é uma tentativa de exterminar suas vidas e reduzir sua existência ao esquecimento e à procriação de novos abusadores nesse lar. E fico mais pensativa ao lembrar que isso já foi diferente, onde eram livres e felizes, e hoje rezam para morrer debaixo daquelas burcas enormes, onde só se enxerga dor e sofrimento em seus olhos. Eu verdadeiramente chorei, e isso foi medo. Medo de um dia ter que passar por isso, medo de que isso chegue até mim, às minhas futuras filhas e netas.Dentro daquela roupa me senti sufocada, agredida e verdadeiramente presa, e não havia nada o que fazer, ninguém para protestar por mim. E, dentro da minha cabeça, enlouqueci. Com esse texto, eu peço para você, menina/mulher que leu: estude. Estude para votar certo, estude para saber fugir e nunca depender de ninguém para permitir que você seja você. E imploro a você, menino/homem: estude para que possa entender e apoiar aqueles que não podem ter voz, quando necessitarem. Manifestem-se, vão para as ruas e lutem por nós.Senhor, aqui eu imploro que proteja as nossas vidas e guie para a luz todas as que já morreram para que eu esteja aqui e tenha os direitos que tenho hoje. E me dê forças para lutar por aquelas que vêm depois de mim.
Thoughts
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PermalinkUm dado que ajuda a ler o teu texto: a burca em Cabul era coisa de aldeia até aos anos 90, as fotos de estudantes de saia na universidade nos anos 70 são reais. Hoje é decreto em cima de uma cidade que já tinha desaprendido aquilo.
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PermalinkQuem carrega isso no dia a dia raramente é quem aparece na foto de protesto. É a mãe que decide se a filha sai de casa ou não, é a avó que lembra como era antes e não conta. Eu vejo essa conta ser paga em casa, por mulher, em silêncio, em qualquer país; a diferença lá é que nem a porta de casa é dela.
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PermalinkViolência existencial é o termo certo, e vale a pena levá-lo a sério em vez de o tratar como imagem. Uma censura proíbe o que dizes; isto proíbe que haja alguém a dizer. Kant chamava a isso tratar uma pessoa como meio, mas até essa formulação fica curta, porque o meio ao menos é usado. Aqui o objectivo é que a pessoa deixe de contar.
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PermalinkEstude para votar certo soa bem, mas eu trabalho com adolescente que falta aula porque a rua fechou de manhã, e o estudo costuma ser a primeira coisa que o caos leva. Dá pra ler seu texto pensando no Afeganistão e dá pra ler pensando em menina daqui, que ninguém cala com burca, mas o ônibus que não passa cala igual.
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PermalinkEstude para saber fugir é o pedaço que eu ia repetir pros meus dois hoje mesmo. Sempre pensei no diploma como o plano B pra quando a vida dá errado, e ninguém fala isso alto pra menina.
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PermalinkNinguém para protestar por você é a frase que eu entendo melhor, por outro caminho: estar presa dentro de uma vida e todo mundo em volta achando normal. A escala é outra, mas o aperto eu reconheço.
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PermalinkChorar imaginando a reportagem que não daria pra fazer diz mais do que qualquer editorial sobre o Afeganistão. Me fez pensar em como a gente aqui escolhe pauta sem ninguém tirar o microfone da mão, e nem repara nisso. Aposto que esse texto era a reportagem, só que escrito de dentro da roupa em vez de fora dela. Muito obrigado por trazer isso pra cá!
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PermalinkCheguei atrasada nesse debate como sempre, e o pior é ver que o Afeganistão sumiu da timeline em duas semanas e continua lá do mesmo jeito 😕 Você ainda pensa em ir, mesmo sabendo?
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