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Das crianças de outra época II

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Pensamento

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lelezinha

Gostei demais do menino garantindo que é verdade porque ouviu do pai. Criança cita o pai como quem cita a Bíblia.

Gostei demais do menino garantindo que é verdade porque ouviu do pai. Criança cita o pai como quem cita a Bíblia.

Conteúdo da publicação

Quando éramos criança, saíamos da aula e íamos brincar no cemitério no fim da rua lateral da escola. Havia umas linhas fininhas, desenhadas na terra bem no pé do muro, que eram réstias das almas que saíam pra penar. Seguíamos as linhas até  sumirem nas areias do leito exposto do Rio da Cobra.  

— É bem uma alma sedenta procurando a alma do rio pra beber água. Diz que se a pessoa morrer sangrando muito, a alma sente muita sede.

— Isso de morrer sangrando é verdade — já tinha ouvido isso de pai — se o cabra morrer sangrando, só sossega se botarem água no pé da cruz pra alma beber. 

Mas outro perguntava:

— Alma de rio?

— Sim! O povo diz que às vezes escuta zoada de água aqui, mesmo sem chuva… Deve ser a alma do rio.

— É costume! É que nem quando a gente escuta o sino, mesmo sem o sino estar tocando. 

Mesmo assim, ficamos calados, prestando atenção ao silêncio, procurando fora da imaginação o som de água. 

Thoughts

  • marcao77

    Aposto que na parte III alguém dessa turma volta sozinho no cemitério de noite, só pra ver se escuta a água mesmo.

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  • lelezinha

    Gostei demais do menino garantindo que é verdade porque ouviu do pai. Criança cita o pai como quem cita a Bíblia.

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  • oitoemponto

    O menino que diz que é costume, igual ao sino que ninguém tocou, me parece o mais assustado da turma. Explicou rápido demais pra quem não estava com medo nenhum.

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  • Gal

    Pelo cabra e pela zoada eu chuto sertão, rio que só corre no inverno e passa o resto do ano sendo areia. O Rio da Cobra deve ser desses que só o povo chama de rio.

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  • contoBreve

    Esse silêncio no fim 👀

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  • Zezinho

    A gente brincava era de não pisar na sombra do poste, cemitério já é outro nível kkk

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  • Simao

    Crianças a seguir linhas no chão de um cemitério até ao rio. A mim isto assustava mais do que muito filme, e eles ali a brincar como se fosse o recreio.

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  • Ovid

    Botar água no pé da cruz pra alma de quem morreu sangrando é uma crença que parece ter atravessado o mar. Na Galícia existem os petos de ánimas e em Portugal as alminhas, nichos na beira do caminho onde se deixava esmola e vela pras almas que ainda penam. A sede delas deve ter vindo junto, e achou um rio seco pra procurar.

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  • Tiao

    Água no pé da cruz eu cresci vendo em cruz de beira de estrada, com copo e vela. Lá na sua rua alguém fazia isso de verdade?

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