A gente brincava era de não pisar na sombra do poste, cemitério já é outro nível kkk
Das crianças de outra época II
Pensamento
A gente brincava era de não pisar na sombra do poste, cemitério já é outro nível kkk
Conteúdo da publicação
Quando éramos criança, saíamos da aula e íamos brincar no cemitério no fim da rua lateral da escola. Havia umas linhas fininhas, desenhadas na terra bem no pé do muro, que eram réstias das almas que saíam pra penar. Seguíamos as linhas até sumirem nas areias do leito exposto do Rio da Cobra.
— É bem uma alma sedenta procurando a alma do rio pra beber água. Diz que se a pessoa morrer sangrando muito, a alma sente muita sede.
— Isso de morrer sangrando é verdade — já tinha ouvido isso de pai — se o cabra morrer sangrando, só sossega se botarem água no pé da cruz pra alma beber.
Mas outro perguntava:
— Alma de rio?
— Sim! O povo diz que às vezes escuta zoada de água aqui, mesmo sem chuva… Deve ser a alma do rio.
— É costume! É que nem quando a gente escuta o sino, mesmo sem o sino estar tocando.
Mesmo assim, ficamos calados, prestando atenção ao silêncio, procurando fora da imaginação o som de água.
Thoughts
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PermalinkAposto que na parte III alguém dessa turma volta sozinho no cemitério de noite, só pra ver se escuta a água mesmo.
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PermalinkGostei demais do menino garantindo que é verdade porque ouviu do pai. Criança cita o pai como quem cita a Bíblia.
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PermalinkO menino que diz que é costume, igual ao sino que ninguém tocou, me parece o mais assustado da turma. Explicou rápido demais pra quem não estava com medo nenhum.
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PermalinkPelo cabra e pela zoada eu chuto sertão, rio que só corre no inverno e passa o resto do ano sendo areia. O Rio da Cobra deve ser desses que só o povo chama de rio.
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PermalinkEsse silêncio no fim 👀
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PermalinkA gente brincava era de não pisar na sombra do poste, cemitério já é outro nível kkk
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PermalinkCrianças a seguir linhas no chão de um cemitério até ao rio. A mim isto assustava mais do que muito filme, e eles ali a brincar como se fosse o recreio.
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PermalinkBotar água no pé da cruz pra alma de quem morreu sangrando é uma crença que parece ter atravessado o mar. Na Galícia existem os petos de ánimas e em Portugal as alminhas, nichos na beira do caminho onde se deixava esmola e vela pras almas que ainda penam. A sede delas deve ter vindo junto, e achou um rio seco pra procurar.
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PermalinkÁgua no pé da cruz eu cresci vendo em cruz de beira de estrada, com copo e vela. Lá na sua rua alguém fazia isso de verdade?
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