Fui ao fim primeiro, como faço sempre. Pensei que o velho ia morrer a dormir, e afinal amanhã há mais.
Da Grande Obra
Pensamento
Fui ao fim primeiro, como faço sempre. Pensei que o velho ia morrer a dormir, e afinal amanhã há mais.
Conteúdo da publicação
Um velho muito velho, sentado sob o puxado de taipa e barro, vigiava o forno e eram seus olhos que mantinham a chama acesa. Sua respiração ofegava depois de horas reparando as telhas sobre o forno e colocando barro úmido nas brechas entre os caibros e a chaminé para evitar que a chuva que vinha maculasse a chama.
Conhecia bem a paisagem ao redor, vivia alí há tantos anos que sabia o humor do solo, das formigas e do céu. Daria tempo do barro secar com o calor do forno.
No princípio, os anos de trabalho eram longos, mas, quanto mais dominava a técnica, mais se encurtava o tempo e ficava impossível de contar.
A chuva veio no dia seguinte e o encontrou no mesmo lugar, esperando por ela. Era o sinal. Alimentou o caldeirão que fervia com a água que caía do beiral e não fez questão de esperar, apenas ficou absorto no petricor que exalava o chão recém atingido pela precipitação.
Algo dentro de si disse é hora, e ele se levantou com cuidado, olhou para a bola de vidro que estava no alto de uma estrutura de arames ligada a um duto transparente que parecia sair direto do forno e dava voltas por um aparato de aparelhos transluzentes. Ele viu, encantado como uma criança de interior que vê um avião pela primeira vez, a luz lilás tomar conta daquele ovo transparente e sentiu a mesma luz tomar conta de todo seu ser. E viu as estrelas e o universo, Orion e a nebulosa de Andrômeda, a Via-Láctea, agora tão longe, e o coração do fogo na fornalha. Quando voltou, o mundo estava escuro por fora e laranja por dentro da latada, e com os olhos reavivou o fogo, agora pra se aquecer. Pegou aquela bola de vidro com carinho, agora transmutada numa gema preciosíssima, e a levou para dentro de casa.
Procurou sem muita pressa uma caixinha embaixo de sua cama e a colocou do lado das outras mais antigas. Depois foi dormir.
Amanhã começaria tudo de novo, mas, por ora, precisava descansar.
Thoughts
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PermalinkFui ao fim primeiro, como faço sempre. Pensei que o velho ia morrer a dormir, e afinal amanhã há mais.
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PermalinkMinha mãe mandou parar no avião quando eu lia pra ela ontem. Disse que criança de interior vendo avião, no tempo dela, ficava era com medo, e só depois achava bonito. Deixou eu terminar e não falou mais nada.
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PermalinkNo texto anterior da série era o colchão que nunca mais secava, agora um velho a tapar brechas para a chuva não chegar ao fogo. Esta Prosopoética anda sempre às voltas com a água, pá.
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PermalinkParece história de antigamente, daquelas do homem que trabalhava de noite num forno e ninguém sabia o que ele fazia lá dentro. Meu pai contava uma parecida e jurava que era verdade. Gostei muito do velho ir dormir no fim sem contar pra ninguém.
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PermalinkQue sossego esse fim. 🌙
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PermalinkDa primeira vez que li, pensei que os anos iam ficando mais compridos à medida que ele aprendia. Voltei ao texto e percebi que quanto mais ele sabe, menos dá pela passagem deles, e isso deixou-me mais inquieto do que a luz lilás.
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PermalinkGajo, ele passa a noite a fazer uma coisa daquelas e depois guarda-a numa caixa debaixo da cama. Eu já tinha contado a meio mundo!
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PermalinkO velho sabendo o humor das formigas e do céu é gente que eu conheço. Aqui na fazenda um tratorista antigo acerta a chuva pelo cheiro da terra, e eu com três aplicativos abertos errando.
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PermalinkUai, cada caixinha debaixo daquela cama é um ano do velho, aposto. E ele nunca mostrou nenhuma pra ninguém, sô.
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PermalinkO título está lá a trabalhar. Grande Obra era o nome que os alquimistas davam ao trabalho de uma vida, e o vaso de vidro onde a matéria mudava chamava-se ovo filosófico, tal e qual a bola de vidro do velho. Só que essa obra fazia-se uma vez, e ele tem uma caixa cheia delas debaixo da cama. Fiquei a pensar nisso.
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