Que susto, menino 😮
Cuidado com o mar
Os primeiros raios de sol daquela manhã de 1934 começaram a lamber os telhados de barro e as fachadas dos casarões à beira-mar, dissolvendo a névoa fina que pairava sobre a enseada. Na pequena vila…
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Que susto, menino 😮
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Os primeiros raios de sol daquela manhã de 1934 começaram a lamber os telhados de barro e as fachadas dos casarões à beira-mar, dissolvendo a névoa fina que pairava sobre a enseada. Na pequena vila litorânea, o tempo parecia correr em um ritmo próprio, ditado pelo vai e vem das marés, pelo canto das gaivotas e pelo badalar distante dos sinos da igreja.
Aos poucos, a calmaria da madrugada dava lugar aos sons familiares do início do dia: o ranger pesado das portas de madeira das primeiras vendas se abrindo; o ruído dos pescadores preparando suas embarcações no cais; o bater ritmado das ondas contra os pilares do trapiche; e o cheiro salgado da maresia misturado ao aroma de café fresco que escapava pelas janelas ainda entreabertas.
No coração do vilarejo, a poucas quadras da praia, erguia-se um sobrado de aberturas altas e pintura desgastada pelos anos. Enquanto o mundo lá fora despertava para mais uma jornada de trabalho, o andar superior permanecia mergulhado em absoluto silêncio.
Lá dentro, em um quarto banhado por uma iluminação suave e dourada que atravessava as venezianas, Paulina dormia tranquila. Os braços pequenos envolviam a inseparável Rosinha, sua boneca de pano de vestido florido, já marcada pelas brincadeiras e pelas incontáveis noites compartilhadas. Os fios de lã dos cabelos do brinquedo haviam perdido parte do brilho original, mas isso pouco importava. Para a menina, Rosinha guardava segredos, aventuras e sonhos que pertenciam somente às duas.
Alheia ao movimento que começava a ganhar corpo no cais logo adiante, ela respirava no compasso manso de quem ainda habita o território dos sonhos perfeitos.
No andar de baixo, porém, a casa já despertava. Na cozinha aquecida pela luz matinal, Clarice movimentava-se com a familiaridade de quem repetia os mesmos gestos há anos. Sobre o fogão a lenha, uma chaleira começava a cantar baixinho enquanto o aroma do café recém-passado espalhava-se pelos cômodos, misturando-se ao perfume do pão ainda quente e ao leve odor salgado que a brisa do oceano carregava para dentro do recinto.
Clarice sorriu ao imaginar a filha ainda adormecida. Conhecia bem o apego de Paulina à velha companheira de tecido e sabia que, se pudesse, a garota passaria a manhã inteira enroscada nos lençóis. Mas logo o imóvel estaria cheio de vida, e mais um dia começaria naquela comunidade onde o mar parecia observar silenciosamente cada história que nascia às suas margens.
Paulina foi despertando aos poucos. Primeiro, um leve movimento dos dedos sobre a fita gasta de Rosinha; depois, um suspiro longo e preguiçoso. Por fim, seus olhos se abriram para receber a clareza daquele amanhecer.
Ainda sonolenta, virou-se na cama e esfregou o rosto contra o travesseiro. Foi então que percebeu algo incomum.
Do lado de fora, imóvel sobre o estreito parapeito de madeira da janela, havia um gato.
Um gato frajola.
Sua pelagem alternava manchas negras e brancas tão bem definidas que parecia ter sido pintada à mão. O animal mantinha o corpo ereto e a cauda enrolada junto às patas, como uma estátua viva. O mais estranho, porém, era a maneira como observava a menina.
Sem piscar.
Sem se mover.
Como se estivesse esperando que ela despertasse.
A garota ergueu-se lentamente sobre os cotovelos, apertando a boneca contra o peito. Já havia visto muitos felinos pela vila, principalmente perto da peixaria, mas não se lembrava de ter visto aquele antes.
Foi então que notou um detalhe ainda mais curioso.
Preso por uma fina tira de couro que passava atrás da cabeça do animal, havia um pequeno tapa-olho preto cobrindo seu lado esquerdo. O acessório lhe conferia uma aparência tão peculiar que Paulina chegou a pensar que ainda estivesse sonhando. O bicho parecia um velho capitão pirata em miniatura, daqueles que povoavam as histórias contadas pelos pescadores.
A luz refletiu em seu único olho visível, de um tom dourado intenso. O visitante permaneceu imóvel, sustentando o olhar da garota com uma serenidade desconcertante.
Por um instante, ela teve a estranha sensação de que não se tratava de um felino comum. Havia algo de deliberado em sua presença, como se soubesse exatamente quem ela era e por que estava ali.
Uma brisa suave atravessou as frestas, fazendo as cortinas ondularem. Quando o tecido voltou ao lugar, o animal continuava parado.
Esperando.
Como se a manhã só pudesse realmente começar depois que os dois se apresentassem.
Vencida pela curiosidade, Paulina afastou os lençóis e aproximou-se. O gato permaneceu firme enquanto ela erguia o trinco e puxava para dentro as folhas de madeira desgastadas pela maresia. O ar da praia invadiu imediatamente o quarto, trazendo o aroma familiar da água salgada. Durante alguns segundos, o bicho continuou parado na pequena sacada, observando-a. Então, sem qualquer hesitação, atravessou a abertura com um salto elegante e pousou sobre o assoalho.
Paulina acompanhou o movimento com surpresa. O visitante caminhou pelo recinto como se já conhecesse cada canto. Contornou uma cadeira, passou diante da cômoda e, por fim, acomodou-se sobre a cama, bem ao lado de Rosinha. A cena era tão absurda que arrancou um sorriso da menina.
Foi então que um estrondo distante chamou sua atenção.
Ao voltar-se para fora, Paulina sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. O céu havia mudado. Pouco antes, a enseada brilhava sob a luz dourada do amanhecer; agora, grossas nuvens escuras avançavam sobre as águas numa velocidade inquietante, como se uma tempestade inteira tivesse surgido do nada. O mar agitava-se junto ao cais e o vento, até então leve e morno, tornara-se frio e impaciente.
Sem compreender a transformação, a garota deixou o quarto e chamou pela mãe. Sua voz percorreu o corredor, desceu a escada e espalhou-se pelos cômodos sem encontrar resposta. Clarice não estava na cozinha, na sala e tampouco no quintal dos fundos, onde costumava cuidar das plantas.
A mesa permanecia posta. Duas xícaras aguardavam ao lado do cesto de pão fresco, e a chaleira repousava sobre o fogão como se alguém tivesse saído por apenas alguns instantes. No entanto, não havia sinal de ninguém.
A inquietação começou a crescer.
Paulina atravessou novamente a casa e abriu a porta da frente. O que encontrou do outro lado fez seu coração disparar.
A rua estava vazia.
Não apenas tranquila, mas deserta de uma maneira impossível.
Os pescadores haviam desaparecido do caminho que levava à praia. As vendas estavam trancadas. Não havia crianças correndo pela praça, nem moradores conversando diante das janelas. Até as gaivotas pareciam ter abandonado o céu.
A menina avançou alguns passos pela calçada, incapaz de acreditar no que via. O silêncio que pairava sobre a vila era tão profundo que chegava a parecer irreal. Apenas as rajadas percorriam o espaço, levantando pequenos redemoinhos de areia e folhas secas.
Foi então que ela ouviu um miado atrás de si.
Ao voltar-se, encontrou o visitante parado à soleira. Sentado com a postura tranquila de quem aguardava o momento certo para agir, ele a observava atentamente. E, pela primeira vez desde que despertara, Paulina teve a estranha sensação de que aquele misterioso felino de tapa-olho talvez soubesse exatamente onde haviam ido parar todos os habitantes do lugar.
Ela permaneceu estática no meio do caminho, apertando Rosinha contra o peito. O vento aumentava a cada instante, trazendo o cheiro de chuva. As nuvens escuras avançavam rapidamente, engolindo os últimos vestígios do sol. Nenhuma porta se abria. Nenhuma voz respondia aos seus chamados. Era como se todos tivessem simplesmente desaparecido.
Um miado suave a fez se virar.
O gato permanecia na soleira, perfeitamente imóvel apesar do vendaval que agitava seu pelo preto e branco. O pequeno acessório de couro lhe conferia uma aparência quase cômica, não fosse a gravidade estampada em sua feição.
Foi então que ele falou:
— Você precisa se esconder.
Paulina sentiu o corpo inteiro enrijecer. Por um instante, acreditou ter ouvido mal. Olhou para os lados, procurando alguma pessoa escondida nas proximidades, mas o ambiente continuava deserto.
— Não adianta procurar — prosseguiu o animal. — Sou eu quem está falando.
A menina permaneceu sem reação. Se alguém lhe dissesse naquela manhã que conversaria com um bicho, teria dado risada. No entanto, diante de uma comunidade inteira abandonada sob uma tempestade impossível, a ideia parecia apenas mais uma estranheza em meio a tantas outras.
— Como... como isso é possível?
O animal inclinou levemente a cabeça.
— Essa não é a pergunta mais importante agora.
Seu olhar voltou-se para o horizonte. Paulina acompanhou o movimento e percebeu que a escuridão avançava cada vez mais depressa.
— Algo perigoso está se aproximando — disse ele. — E não temos muito tempo.
As palavras fizeram o coração da garota acelerar.
— O que está se aproximando?
O felino demorou alguns segundos para responder:
— Algo que não deveria estar aqui.
A resposta apenas aumentou sua aflição.
— Onde está minha mãe? Onde estão as outras pessoas?
Jack pareceu escolher cuidadosamente o que dizer:
— Em segurança, ao menos por enquanto. Mas você ficou para trás.
Paulina sentiu um nó se formar na garganta.
— Ficou para trás? Eu não entendo.
— E não precisa entender agora. Precisamos encontrar um abrigo antes que seja tarde.
A menina observou a criatura à sua frente. Havia algo em sua voz que inspirava confiança, apesar do absurdo da situação. Não falava como um bicho comum, mas como alguém muito mais velho, acostumado a lidar com perigos que ela sequer conseguia imaginar.
— Quem é você?
Pela primeira vez, ele pareceu relaxar um pouco.
— Meu nome é Jack.
A rajada seguinte veio tão forte que fez uma veneziana bater em algum lugar da rua. As nuvens agora cobriam quase todo o céu, e um trovão distante ecoou sobre as águas revoltas.
Jack voltou a fitar o mar. O pelo ao longo de seu dorso eriçou-se discretamente.
— Não tenha medo, Paulina. Enquanto eu estiver ao seu lado, ninguém vai tocar em você.
A menina não sabia por que acreditou naquelas palavras. Talvez fosse o tom calmo com que foram ditas, o olhar firme ou o fato de que, naquele mundo que parecia ter enlouquecido, ele era a única presença que restava.
Então, pela primeira vez desde que saíra de casa, deu um passo em direção a Jack.
O gato permaneceu firme, o corpo baixo, os olhos fixos na escuridão ao longe.
— Não olhe diretamente para eles por muito tempo — avisou.
— São… fantasmas?
O felino hesitou por um breve instante.
— São ecos.
O vento aumentou novamente, trazendo consigo um som distante que parecia atravessar as próprias estruturas da vila, como se tudo ressoasse àquele chamado.
E então Paulina entendeu que a embarcação não estava apenas ancorada na água.
Estava ancorada na vila inteira.
O horizonte já não era confiável. A linha entre o oceano e a terra parecia ter se quebrado, como se a enseada tivesse sido arrancada do mundo comum e colocada dentro de outra realidade.
As silhuetas começaram a surgir entre as casas com mais nitidez. Não caminhavam como pessoas vivas; apenas atravessavam paredes, ruas e degraus, como se a vila fosse feita de lembranças sobrepostas.
Paulina recuou.
Uma dessas figuras passou por ela sem tocá-la. O frio que deixou no ar não era físico — parecia a recordação de uma gelidez antiga.
Outra surgiu na esquina da igreja e desapareceu dentro de uma pilastra.
O local, antes deserto, agora estava povoado.
Mas não de seres vivos.
Jack finalmente voltou-se para a garota.
— Ele não está preso ao mar — disse, com a voz baixa. — Está preso aqui.
Antes que ela pudesse responder, o som do sino voltou a ressoar.
Não vinha da torre da igreja.
Vinha de todos os lugares ao mesmo tempo.
E, junto com o badalar, o ar pareceu se curvar, como se algo enorme estivesse respirando através da vila inteira.
Paulina apertou Rosinha contra o peito, tendo a certeza de que aquilo não era um temporal comum.
Nem um simples desaparecimento.
Era uma convocação.
A atmosfera enrijeceu. A menina sentiu o próprio corpo hesitar em continuar se movendo, como se o espaço tivesse deixado de aceitar a ideia de deslocamento. As ruas pareciam convergir para o mesmo ponto inevitável: a linha do mar.
Lá estava o navio.
Ancorado de uma forma que tornava impossível separar a água da costa, a embarcação parecia mais próxima do que qualquer coisa deveria estar. O oceano perdera sua naturalidade, tornando-se uma superfície escura e imóvel, segurada por uma vontade invisível.
As casas começaram a perder definição nas bordas. Não desabavam, apenas deixavam de ser inteiras, como lembranças que se desfazem quando alguém tenta segurá-las por tempo demais.
Jack permaneceu ao lado de Paulina, o corpo tenso, o único olho fixo à frente.
— Não olhe diretamente para ele — disse, com uma firmeza que não combinava com sua pequena forma.
Mas já era tarde.
No convés, entre velas rasgadas que tremulavam sem vento, algo começou a se formar. Primeiro apenas uma silhueta; depois, a presença de um homem alto se tornou inevitável. Ele usava um casaco escuro que parecia pesado demais para aquele mundo, e seu corpo nunca se definia por completo: ora parecia madeira antiga, ora fumaça espessa, ora a sugestão de algo que já fora humano.
O rosto também não permanecia fixo. Mudava de forma sutil, como se o mundo se recusasse a lembrar dele por inteiro.
Paulina sentiu o coração falhar.
— Jack… — sussurrou, sem conseguir desviar o olhar.
O gato não respondeu de imediato. Havia nele uma tensão antiga, algo que parecia vir de muito antes daquele instante.
— Ele não deveria estar tão próximo da margem — disse finalmente, baixo, como se a própria frase fosse perigosa.
A figura no navio moveu a cabeça.
E, mesmo sem som, a vila inteira pareceu ouvir.
Os ecos hesitaram, como se reconhecessem aquele gesto e lembrassem de algo que queriam esquecer.
Jack colocou-se levemente à frente de Paulina, com uma decisão absoluta.
— Agora você vai me obedecer — disse ele. — Não é mais sobre se esconder. É sobre sair do alcance dele.
O ar ao redor ficou mais pesado, como se o próprio espaço estivesse prestes a ceder.
— Sair… para onde? — perguntou ela.
O gato não respondeu com palavras. Virou-se e avançou, não exatamente pela rua, mas por uma dobra imperceptível entre o que era visto e o que havia sido esquecido.
— Agora — disse ele, sem olhar para trás.
Paulina hesitou por um segundo. No horizonte, o Capitão Sem Nome manteve o olhar fixo nela, e o mar pareceu responder diretamente ao seu medo.
Então ela correu.
A atmosfera ao redor se rompeu como tecido antigo.
Paulina mal teve tempo de compreender o que acontecia quando o mundo passou a ser um corredor instável de imagens sobrepostas. O chão sob seus pés já não obedecia às mesmas regras de antes: casas surgiam e desapareciam em frações de segundo; o mar avançava e recuava tentando lembrar sua própria forma.
E então eles vieram.
Primeiro como sombras mais densas, depois como silhuetas completas emergindo do tempo. Eram piratas, mas não como os dos contos infantis. Eram versões quebradas do que um dia foram homens: corpos ossificados, restos de uniformes antigos e chapéus rasgados grudados ao que restava de suas cabeças. Avançavam como se o próprio espaço os empurrasse em direção à garota.
Jack parou imediatamente.
Seu olho dourado fixou-se neles com uma intensidade impressionante.
— Atrás de mim — ordenou, sem virar-se.
Paulina recuou um passo, mas os espectros não hesitaram. Não estavam interessados no vilarejo; estavam focados apenas nela, como se sua presença fosse uma chave antiga prestes a ser tomada.
O primeiro deles avançou mais rápido, atravessando uma parede como se ela não existisse. Outro surgiu do próprio chão. O som que faziam não era de passos, mas de madeira e osso se lembrando de como era existir.
Jack então se moveu.
O ar ao seu redor pareceu se condensar, e por um instante o pequeno felino deixou de ser apenas um animal. Algo antigo se revelou nele, suficiente para alterar o comportamento das sombras. Os piratas hesitaram, parando no meio do avanço.
— Recuem — a voz do gato soou como ordem ancestral.
Os invasores vacilaram e recuaram.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Paulina encarou Jack e percebeu: a forma dele havia mudado.
O contorno de seu corpo já não era totalmente sólido. Pequenas partes de sua silhueta pareciam se desfazer. Sua pelagem oscilava entre existência e transparência, e seu olho dourado parecia distante, pertencendo a outro plano.
— Jack… — ela chamou, com a voz presa.
— Você não deveria estar aqui perto da fenda — disse ele, mas sem a mesma firmeza de antes.
— O que está acontecendo com você?
O gato virou-se lentamente, e ela entendeu: ele era parte do mesmo limite que estava sendo rompido.
— Eu sou o que mantém isso fechado — explicou ele, com uma calma estranha. — E quanto mais perto chegamos… menos necessário eu me torno.
Os piratas voltaram a se mover, mais certos, esperando o momento em que o guardião deixaria de existir.
Jack respirou fundo.
— Paulina… você precisa atravessar agora.
Ela olhou para o vazio instável à frente — um rasgo que tremia como água iluminada por outra realidade. Do outro lado, havia o mundo real.
Atrás dela, Jack começou a se desvanecer ainda mais.
— Eu não posso ir com você — sussurrou ele.
O primeiro espectro avançou novamente.
Paulina fechou os olhos e saltou através da fenda.
Ao reabri-los devagar, o teto do quarto estava ali, firme e iluminado pela luz suave da manhã. O ar tinha cheiro de casa, de lençol limpo e de madeira antiga. Por alguns segundos, ela permaneceu imóvel, tentando segurar a sensação que ainda vibrava em seu peito — uma lembrança que se desfazia antes de ganhar forma.
Ela apertou os dedos contra o colchão.
Rosinha estava ao seu lado, exatamente como sempre fora. Paulina a puxou para perto, mas o gesto veio acompanhado de uma estranha dúvida que ela não soube nomear.
Do andar de baixo, uma voz rompeu o silêncio:
— Paulina! Levanta, menina… vem ver uma coisa aqui!
Era Clarice, com um tom leve e animado na voz.
A menina sentou-se na cama, esfregando os olhos, enquanto o coração acelerado aos poucos desacelerava.
— Já vou… — respondeu, num fio de voz.
Desceu as escadas devagar. A casa estava normal: a cozinha iluminada, o cheiro de café se espalhando, a chaleira sobre o fogão. Clarice estava agachada perto da porta dos fundos.
— Olha isso — disse a mãe, sorrindo.
Paulina se aproximou.
No chão, encolhido como uma pequena sombra viva, havia um filhote de gato frajola. Muito pequeno ainda, o corpo trêmulo, com manchas pretas e brancas irregulares e o olho esquerdo meio fechado, como se tivesse se machucado recentemente. Ele miava baixinho, um som frágil e insistente.
— Ele apareceu aqui agora de manhã, acredita? Sozinho… todo assustado — comentou Clarice.
O filhote levantou o focinho e miou outra vez ao notar a garota.
Paulina ficou imóvel. Algo dentro dela se mexeu, como uma recordação distante.
Ela se agachou lentamente e estendeu a mão com cuidado.
O pequeno felino não recuou; apenas encostou o focinho em seus dedos, quente e vivo.
E por um segundo muito breve — tão breve que ela não soube dizer se foi real —, Paulina teve a terna impressão de que aquele único olhar dourado já a conhecia há muito tempo.
Thoughts
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PermalinkGato falante eu recebo no sebo o ano todo, e é sempre gato que salva a menina e sai feliz. O teu some porque ele mesmo era a fechadura.
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PermalinkO filhote que aparece na porta dos fundos com o olho esquerdo meio fechado, logo depois de tudo aquilo, me deixou parado um tempo. Fica a impressão de que o Jack não se apagou, só voltou pelo começo, pequeno e sem lembrar de nada. Obrigado por postar isso aqui!
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