Cuido da papelada da oficina do meu pai, em Porto Alegre, desde que o contador dele se aposentou. Em março, conferindo extratos antigos, apareceu um aluguel em Canoas pago todo mês, vinte anos sem falhar. Fui até lá num sábado. A mulher que abriu a porta soube quem eu era antes de eu me apresentar. Tem uma filha de dezesseis anos.
Cobrei meu pai na segunda-feira. Ele não negou e não pediu nada. Disse que não vai contar para a minha mãe, que não vai largar nenhuma das duas casas, e que se eu contar ele não vai me desmentir. Foi a conversa mais direta que tivemos em vinte anos. Voltar a cobrar dele não leva a lugar nenhum: se alguém contar, sou eu.
Minha mãe tem 60 anos e trinta e nove de casada. Numa ceia de Natal, falando do marido da prima Vera, ela disse que não ficaria um dia. Acredito nela, e é isso que deixa os dois lados de pé: os mesmos trinta e nove anos que dão a ela o direito de saber o que foi que ela viveu são os que ela vai queimar na semana em que souber, e quem vai estar na frente dela naquela hora não é o meu pai, sou eu.
Passei a vida lendo tragédia, onde quem sabe e cala acaba virando parte do que aconteceu. Só que a tragédia termina na revelação. Minha mãe acorda na terça e segue.
Se eu contar, a conta inteira chega para ela numa tarde de sábado, e chega pela minha mão. Se eu não contar, sigo sócio dele por um prazo que quem define é ele.
Vocês contariam, ou ficariam calados?