Aos meus 10 anos de idade ,eu observava minha madrinha ,ela era maravilhosa,cabelo sempre perfeito ,um Chanel curto e pintado de vermelho vinho .As unhas sempre muito bem feitas ,bem vestida ,uma mulher ativa e livre .
Fazia duas atividades físicas ,andava de bicicleta por vários lugares ,amava plantas .
Mas por trás disso tinha muita coisa ,uma doença se desenvolvendo sem que ninguém percebesse e ela talvez já havia percebido mas preferiu o silêncio .
Anos se passaram e ali tudo começou ,um esquecimento ali ,outro lá ,quando a família se deu conta era muito tarde .
Aquela mulher que toda semana estava no salão de beleza ,ela não existia mais ,agora seu cabelo é branco e mau cuidado ,está sempre preso .
As unhas ? Já não é mais preocupação.
A bicicleta? Guardada no porão .
Exercícios? Já não sai mais de casa .
As roupas e calçados bonitos ? Guardados no roupeiro .
As flores ? Deixou morrer todas ,afinal não sente mais vontade em cultiva-las.
A única coisa que permaneceu foi o cigarro e a vista para a janela ,talvez pra ela esse ainda é o único
prazer que restou ,a única lembrança dela mesma .
Ontem a fiz lembrar de um perfume que ela sempre usava ,ah o humor vermelho da natura .
Vi lágrimas em seus olhos ,e recebi um abraço apertado,me contive ,mas com a voz embargada consegui dizer para ela o quão linda era ,de inicio ela não queria aceitar o perfume mas insisti e ela aceitou ,
E novamente as lágrimas cairiam em seus olhos ,aquele perfume a fez lembrar da sua vaidade ,de como se sentia antigamente ,de como as meninas mais jovens diziam querer ser iguais a ela e do amor que ela tinha por ela mesma . Fiz questão de lembrá-la que aos seus 73 anos ainda é uma mulher linda ,ainda é principalmente minha referência do feminino.