CAMINHOS DE UM AMOR IMPOSSÍVEL
Parte I
Aqui nesta terra estória melhor,
talvez não há...
Em que dois corações são atraídos
por forças descomunais.
Se duvida, pode ser que em qualquer
dia ou momento te deslumbres
com este sublime sentimento.
Respire,
feche os olhos,
sinta o coração pulsar
como a maior estrela cintilante.
Ouça com os ouvidos e pense
com a alma.
Foi num dia,
na Avenida Paulista, procurando
lojas de antiguidades onde pudesse
reviver os momentos
que outrora marcaram minha geração.
Nesta altura, não acreditava que
a paixão pudesse ousar invadir
um humilde cidadão.
Era um dia de sol escaldante,
céu pleno, profundo, azul
quase tom de marinho.
Transeuntes perpassavam,
cada qual com peculiaridades:
fandangos, egoístas, apaixonados, pensativos,
esquizofrênicos, talvez desiludidos.
Nada passa de presumível,
segundo a visão de um poeta
que por ora desvenda um mundo dantesco.
Se é assim ou não, sigo
minha descrição.
Parte II
Como um apreciador do ambiente,
fico a todo instante ciente do
movimento que me cerca,
influência em cada passo na calçada.
Visto que eu, entre todos, sou um ser
capaz de ouvir e entender.
Entender que o Paulista não
só é composto de pequenos
gestos, trabalho, esforço e são
apressados.
Entretanto, ao observar
os prédios espelhados, vejo em cada
um a assinatura dos nordestinos — um povo
em busca de mudança de vida e dignidade,
que na força da sua coragem edificou esta cidade
e aqui deixou sua mocidade.
Pensativo e relutante, longe de casa
o bastante para querer voltar, mas
mesmo assim firmei os pés
e ao meu destino cheguei.
Ao passar pela porta giratória,
num centro de ofertas, uma loja
que continha tudo que um vanguardista
amaria de olhos fechados e ouvidos abertos.
Que naquele momento envaideceu meus
ouvidos com a música do ciclo de Jorge Vercillo.
Ao observar, uma fada de um dia de verão
ali estava, como se me esperasse.
E o que eu faria?
Fingiria interesse em algo
ali que não me interessasse senão ela?
O preço que poderia pagar por ela seria
o amor que em mim nasceu como os
primeiros raios de sol no Éden.
E nesta luta interna, quase infindável,
me encontrava simulando mil formas de
a ela me achegar.
De vagar, como que querendo gastar,
me aproximei e, como se não bastasse,
de repente na loja ao lado aumentou o som
na bela voz de Chris de Burgh — The Lady in Red.
Eu disse: pronto, agora querem acabar comigo
neste sentimento louco. Estou tentando me libertar
e por pouco a fatalidade do coração me arma a arapuca.
Parte III
Estava de costas, de frente à prateleira, quando uma voz —
brisa súbita — roçou meus ouvidos e me arrepiou inteiro.
Meu coração disparou sem governo, as pernas tremeram,
e por um instante não senti mais o chão.
Meu Deus, como pode?
Eu, homem de meia-idade, perdido como barco
num oceano sem bússola.
— Posso lhe ajudar em alguma coisa?
Qual é o preço dos seus beijos? — pensei.
Mas a boca, covarde e social, respondeu:
— Você poderia trocar a película do meu smartphone?
— Posso sim.
Uma resposta.
E a fuga.
Parte IV
Enquanto estávamos, só reparava em sua delicadeza,
no trato com a minha presença — sentia-me um rei,
mas regia as vontades e os pensamentos,
como quem segura rédeas já cansadas.
— Você trabalha muito tempo aqui?
— Trabalho alguns meses — respondeu.
— Mas por que a pergunta?
— Admiro a sua habilidade em trabalhar com estes aparelhos.
— Obrigada, mas não acho… é algo simples de fazer.
— Não vejo assim.
— Por quê?
— Porque precisa ser feito com cuidado,
para não ficar bolhas…
Silêncio.
Um pigarro breve.
— E você… faz o que além daqui?
Ela me olhou de canto,
e demorou a responder.
Cinco segundos.
Tempo demais.
Parte V
Enquanto ajustava a película com precisão,
falava de horários, de rotina,
de coisas que pertenciam ao dia —
não a mim.
Assenti com a cabeça.
Sorri quando era esperado.
Paguei.
Tudo ocorreu corretamente.
Exatamente como deveria.
Ao me entregar o aparelho,
nossos dedos quase se tocaram.
Quase.
Agradeci.
Ela respondeu com gentileza profissional,
daquelas que não se levam consigo.
Ao sair, compreendi:
não havia erro algum naquele encontro.
O erro seria insistir.
Epílogo
Não entendi ao certo o que havia acontecido comigo.
Apenas compreendi que, às vezes,
não é como queremos.
Sentimentos — verdadeiros ou não —
são armadilhas do âmago
que, nos percalços da vida,
nos deixam mais amadurecidos.
Alguns amores não vêm para ficar.
Vêm para lembrar
que ainda somos capazes de sentir.
Não carregam futuro,
nem promessa,
nem nome.
São breves.
Necessários.
Como uma voz que passa,
uma música distante,
ou um silêncio que ensina
a voltar inteiro para casa.