Coitada da prancheta.
Confusão na feira de ciências
Pensamento
Coitada da prancheta.
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Capítulo 1
A feira
Ana tinha uma regra simples para a Feira de Ciências da universidade: nada poderia dar errado.Aos vinte e dois anos, ela era conhecida entre os colegas por ter tudo organizado. Cartazes revisados, experimentos testados, planilhas coloridas e uma prancheta que parecia carregar a responsabilidade pelo destino do mundo.Naquela manhã, porém, havia um problema.Léo.
— Você está atrasado — Ana disse, olhando para o relógio.
— Tecnicamente, estou cinco minutos adiantado para o momento em que você perderia a paciência comigo.Ela levantou os olhos.Léo estava parado diante dela com os enormes fones de ouvido no pescoço, o cabelo completamente bagunçado e aquele sorriso convencido que fazia Ana esquecer, por alguns segundos, exatamente o que pretendia dizer.
— Você trouxe o equipamento?
— Trouxe.
— Os cabos?
— Sim.
— O projetor?
— Sim.
— O microfone?
Léo ergueu o microfone dourado como se tivesse acabado de ganhar um prêmio.
— Sempre.
Ana tentou não sorrir.
Falhou.
E Léo percebeu.
Esse era o problema.
Ele sempre percebia.
---
A apresentação dos dois deveria ser simples: um projeto sobre comunicação, comportamento humano e os efeitos da tecnologia na atenção.Mas, quando Léo ligou o equipamento, uma sequência de sons atravessou o estande.Um experimento de outro grupo começou a piscar.
Uma máquina soltou uma nuvem de fumaça.
Alguém gritou:
— NÃO ENCOSTA NESSE BOTÃO!
Ana fechou os olhos.
— Eu sabia.
Léo começou a rir.
— Isso não estava no planejamento.
— Exatamente!
Eles correram para tentar descobrir o que havia acontecido.
No meio da confusão, Ana tropeçou em um cabo.
Léo segurou sua cintura antes que ela caísse.
Por um instante, tudo ficou silencioso.
Ela ficou apoiada contra ele.
As mãos dele ainda estavam em sua cintura.
Os rostos estavam próximos demais.
— Você está bem? — ele perguntou, agora sem aquela provocação habitual.
Ana assentiu.
— Estou.
Nenhum dos dois se afastou.
— Léo...
— Hum?
— Você pode me soltar.
— Posso.
Mas não soltou imediatamente.
Ana sentiu o rosto esquentar.
— Então por que não solta?
Ele sorriu de leve.
— Porque você também não está tentando sair.
Ela deveria ter respondido.
Em vez disso, olhou para os lábios dele.
Léo percebeu.
E a distância entre os dois desapareceu.
O beijo começou devagar, quase como uma pergunta.
Ana respondeu segurando a gola do moletom dele.
Quando se separaram, os dois ficaram alguns segundos em silêncio.
— Isso também estava no planejamento? — Léo perguntou.
Ana respirou fundo.
— Definitivamente não.
— Então foi a primeira coisa que deu certo hoje.
Ela riu e empurrou o ombro dele.
— Idiota.
— Seu idiota?
Ana tentou esconder o sorriso.
— Não se empolga.
---
Mais tarde, quando a feira finalmente terminou, os dois ficaram sozinhos no laboratório.
As luzes estavam parcialmente apagadas e o corredor já estava vazio.
Ana guardava os últimos papéis quando percebeu Léo encostado na porta, observando-a.
— O que foi?
— Nada.
— Você está me olhando.
— Estou.
— Por quê?
Ele se aproximou.
— Porque ainda estou pensando naquele beijo.
Ana largou a prancheta sobre a mesa.
— E?
— Acho que ficou faltando uma segunda tentativa.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Você sempre arruma uma desculpa para tudo?
— Só quando funciona.
Ana sorriu.
Dessa vez, foi ela quem se aproximou.
O beijo foi mais demorado, mais confiante. As mãos dele encontraram sua cintura enquanto ela passava os braços ao redor do pescoço dele.
Quando se afastaram, Ana encostou a testa na dele.
— Léo?
— Sim?
— Amanhã temos que terminar o relatório.
Ele suspirou dramaticamente.
— Você consegue estragar qualquer momento romântico.
— E você consegue transformar qualquer feira de ciências em uma confusão.
— Então estamos quites.
Ela riu.
E, naquela noite, entre experimentos esquecidos, caixas de equipamentos e uma prancheta abandonada sobre a mesa, os dois descobriram que talvez o maior experimento daquela feira não tivesse absolutamente nada a ver com ciência.
Tinha a ver com eles
Ana descobrira, ao longo dos seus vinte e dois anos, que existiam três tipos de desastre.
O primeiro era o desastre previsível.
O segundo era o desastre que parecia previsível, mas que ninguém conseguia evitar.
E o terceiro era Léo.
Ela ainda não tinha encontrado uma classificação científica adequada para ele.
— Você está atrasado.
Léo parou na porta do laboratório.
Não parecia nem um pouco arrependido.
Os fones enormes descansavam ao redor do pescoço, o cabelo estava bagunçado como se ele tivesse passado os dedos por ele dezenas de vezes e, em uma das mãos, carregava o microfone dourado que fazia parte da apresentação da feira.
— Bom dia para você também.
Ana ergueu os olhos da prancheta.
— São quase dez horas.
— Tecnicamente, ainda é bom dia.
— Você perdeu a primeira reunião.
— Eu estava resolvendo um problema.
— Que problema?
Léo levantou o microfone.
— Este.
Ana encarou o objeto.
— Você estava atrasado porque estava procurando um microfone?
— Não. Eu estava atrasado porque alguém colocou meu microfone no lugar errado.
— E esse alguém foi...
Ele apontou para ela.
Ana arregalou os olhos.
— Eu?
— Você.
— Léo, eu organizei todos os equipamentos ontem.
— Exatamente.
— Isso não faz sentido.
— Faz na minha cabeça.
— Esse é justamente o problema.
Um sorriso apareceu no rosto dele.
Ana odiava aquele sorriso.
Ou pelo menos era o que tentava convencer a si mesma.
Porque aquele sorriso era perigoso.
Era o tipo de sorriso que fazia com que ela esquecesse, por alguns segundos, que Léo era responsável por pelo menos metade das situações caóticas que aconteciam naquele laboratório.
— Você está usando meus óculos de novo — ele comentou.
Ana tocou a armação.
— São meus.
— Eu sei.
— Então por que disse isso?
— Porque gosto de ver você usando.
Ela ficou em silêncio.
Léo também.
Por alguns segundos, nenhum dos dois pareceu lembrar que havia outras pessoas no laboratório.
Ana foi a primeira a desviar o olhar.
— Precisamos terminar a apresentação.
— Claro.
— E revisar os dados.
— Claro.
— E testar o sistema de som.
— Claro.
— E você precisa parar de...
— Ana.
— O quê?
— Respira.
Ela soltou o ar lentamente.
— Estou respirando.
— Não parece.
— Você me deixa nervosa.
A frase escapou.
Os olhos de Léo se arregalaram.
Ana percebeu imediatamente o que tinha acabado de dizer.
— Quer dizer... nervosa de irritação.
— Ah.
— Exatamente.
— Claro.
Ele sorriu.
— Irritação.
— Isso.
— Muita irritação.
— Muita.
— Interessante.
— Não é interessante.
— Para mim é.
Ana fechou a prancheta.
— Vamos começar.
---
A Feira de Ciências ocuparia praticamente todo o campus.
Havia estandes espalhados pelos corredores, salas abertas para demonstrações, apresentações no auditório e uma área externa destinada aos projetos maiores.
O projeto de Ana e Léo misturava comunicação, comportamento humano e tecnologia.
A ideia era simples na teoria.
Na prática, era um pesadelo.
Eles haviam criado um sistema capaz de analisar padrões de resposta de pessoas diante de diferentes estímulos sonoros e visuais.
Ana cuidava da parte de comportamento.
Léo, da tecnologia.
E os dois tinham passado semanas discutindo.
— O volume está alto demais — Ana disse.
— Está dentro do limite.
— Para você.
— Para qualquer pessoa.
— Você não é qualquer pessoa.
Léo parou.
— Isso foi um elogio?
— Não.
— Pareceu.
— Não se acostume.
Ele ajustou o equipamento.
— Assim?
Ana observou.
— Melhor.
— Então eu estava certo.
— Não.
— Você acabou de dizer que está melhor.
— Eu disse que está melhor agora.
— Porque eu fiz exatamente o que sugeri antes.
— Porque eu mandei você fazer.
— Detalhes.
Ana tentou não rir.
Falhou.
Léo percebeu.
— Você riu.
— Não ri.
— Riu.
— Foi um reflexo.
— Você acha graça em mim.
— Às vezes.
— Isso é progresso.
Ela balançou a cabeça.
— Você é impossível.
— E você continua aqui.
A frase ficou suspensa.
Ana olhou para ele.
Léo sustentou o olhar.
Por um instante, o laboratório pareceu pequeno demais.
Ela não sabia exatamente quando aquilo tinha começado.
Talvez tivesse sido nas noites estudando juntos.
Talvez nas discussões.
Talvez quando ele começou a aparecer com café para ela sem perguntar como ela gostava.
Talvez quando Ana percebeu que sabia reconhecer os passos dele no corredor.
Ou talvez tivesse começado muito antes.
Antes que ela tivesse coragem de admitir.
— Temos uma hora até a abertura — ela disse.
Léo assentiu.
— Então temos uma hora.
---
A primeira coisa que deu errado aconteceu vinte minutos depois.
Um cabo soltou.
A segunda aconteceu quando Léo tentou consertá-lo.
A terceira aconteceu quando Ana disse:
— Não mexe nisso.
E Léo mexeu.
— Léo!
Uma luz piscou.
— Calma.
— Eu mandei você não mexer!
— Eu sei.
— Então por que mexeu?
— Porque estava soltando fumaça.
— E isso era um motivo para você colocar a mão?
— Tecnicamente...
— Não existe "tecnicamente" quando um equipamento está soltando fumaça!
Léo puxou a mão de volta.
— Tudo bem.
Ana se aproximou.
— Você se machucou?
Ele olhou para a própria mão.
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ela segurou o pulso dele.
— Deixa eu ver.
Léo ficou imóvel.
Ana examinou os dedos.
Não havia nada.
— Está tudo bem — ela murmurou.
Quando levantou o olhar, percebeu que ele estava olhando para ela.
Não para a mão.
Para ela.
— O quê? — perguntou.
— Nada.
— Você está me olhando.
— Estou.
— Por quê?
Ele deu um pequeno sorriso.
— Porque você ficou preocupada.
Ana soltou o pulso dele.
— Eu ficaria preocupada com qualquer pessoa da equipe.
— Claro.
— É verdade.
— Claro.
— Para de falar "claro" desse jeito.
— Que jeito?
— Esse jeito.
— Não sei que jeito é esse.
— Sabe, sim.
Ele riu.
— Você fica bonita quando está brava.
Ana sentiu o rosto esquentar.
— Você fala isso para todas?
— Não.
— Então não fala para mim.
— Por quê?
Ela abriu a boca.
Não encontrou resposta.
Léo se aproximou um pouco.
— Ana?
— O quê?
— Você está vermelha.
— Está quente aqui.
— Não está.
Ela se afastou.
— Vamos trabalhar.
— Claro.
— Léo.
— Estou quieto.
— Ótimo.
---
A abertura da feira aconteceu às onze.
O campus estava lotado.
Professores, estudantes, visitantes e avaliadores circulavam entre os projetos.
Ana segurava sua prancheta com tanta força que os dedos começavam a doer.
— Você está nervosa — Léo disse.
— Não.
— Está.
— Não estou.
— Está apertando a prancheta como se ela tivesse cometido um crime.
Ana relaxou os dedos.
— Estou concentrada.
— Certo.
— E você deveria estar concentrado também.
— Estou.
— Então pare de me observar.
— Não consigo.
Ela olhou para ele.
Léo deu de ombros.
— O quê?
— Nada.
— Você fez a mesma coisa comigo agora.
— O quê?
— Ficou me observando.
Ana desviou o olhar.
— Temos visitantes.
— Temos.
— Então sorria.
— Para eles?
— Para quem estiver olhando.
Léo sorriu.
— Assim?
— Menos.
— Mais?
— Normal.
— Eu não sei sorrir normal.
Ana acabou rindo.
— Eu percebi.
---
A apresentação começou bem.
Por aproximadamente sete minutos.
Depois, um grupo de estudantes passou correndo pelo corredor.
Alguém esbarrou na mesa.
Um dos cabos caiu.
O sistema emitiu um som agudo.
As luzes piscaram.
Ana fechou os olhos.
— Não.
Léo olhou para o equipamento.
— Talvez...
— Não.
— Eu nem falei nada.
— Eu conheço esse olhar.
— Que olhar?
— O olhar de "vou mexer".
— Eu ia dizer que talvez seja só uma conexão frouxa.
— Não mexa.
— Ana...
— Não.
Ele ergueu as mãos.
— Tudo bem.
Um segundo depois, o equipamento soltou outro som.
Ana olhou para Léo.
Léo olhou para Ana.
— Não fui eu.
— Eu não disse nada.
— Mas pensou.
Ela suspirou.
— Vamos resolver.
Os dois se ajoelharam ao lado da mesa.
O espaço era apertado.
Muito apertado.
Os ombros se encostaram.
Ana tentou ignorar.
Léo também.
— O cabo azul — ela disse.
— Estou vendo.
— Não, o outro.
— Esse?
— Não.
— Esse?
— Sim.
Ele puxou.
Nada aconteceu.
— Agora o preto.
— Este?
— Sim.
Os dedos dos dois tocaram o mesmo cabo.
Ana parou.
Léo também.
Eles se olharam.
Por um instante, o barulho da feira pareceu desaparecer.
— Você está muito perto — ela sussurrou.
— Você também.
— Eu estava aqui primeiro.
— Então eu posso ir embora.
Ele começou a se afastar.
Ana segurou o braço dele.
— Não.
Léo parou.
— Não?
Ela percebeu o que tinha feito.
Soltou o braço.
— Quero dizer... precisamos terminar.
— Claro.
Ele voltou.
O problema era simples.
Uma conexão estava frouxa.
Cinco minutos depois, tudo funcionava novamente.
Mas nenhum dos dois comentou o que tinha acontecido.
---
Na hora do almoço, Ana finalmente conseguiu sentar.
Léo apareceu com dois cafés.
Colocou um na frente dela.
— Como você sabia?
— Você sempre toma café depois de uma apresentação.
Ana segurou o copo.
— Você presta atenção demais.
— Talvez.
— Isso é assustador.
— Ou romântico.
Ela olhou para ele.
— Não se empolga.
— Tarde demais.
Ana tomou um gole.
— Obrigada.
— De nada.
Ele sentou ao lado dela.
Não na frente.
Ao lado.
Os braços deles se tocaram.
Ana não se afastou.
— Você acha que fomos bem? — perguntou.
— Acho.
— Só acha?
— Tenho certeza.
— Você parece confiante demais.
— Eu conheço você.
Ana ficou em silêncio.
— O que isso significa?
Léo olhou para ela.
— Significa que sei quando você faz algo bem.
Ela sorriu discretamente.
— Você está diferente hoje.
— Como?
— Mais... gentil.
— Eu sou gentil.
Ana arqueou a sobrancelha.
— Você quase queimou o laboratório.
— Um detalhe.
— Você perdeu o microfone.
— Um acidente.
— Você chegou atrasado.
— Circunstâncias externas.
— E ainda assim acha que é gentil.
— Eu trouxe café.
Ela riu.
— Realmente. Um herói.
— Finalmente alguém reconhece.
---
A tarde passou mais rápido do que Ana esperava.
As apresentações continuaram.
Eles explicaram o projeto dezenas de vezes.
Responderam perguntas.
Fizeram demonstrações.
Riram.
Discutiram.
E, em algum momento, Ana percebeu que já não estava nervosa.
Estava feliz.
A feira estava terminando quando um dos professores apareceu.
— Vocês dois — chamou.
Ana e Léo se aproximaram.
— O projeto de vocês foi selecionado para a demonstração final.
Ana piscou.
— Sério?
— Sim. Vocês terão dez minutos no auditório.
Léo sorriu.
— Dez minutos?
— Dez.
— Isso é bastante tempo.
Ana imediatamente percebeu a expressão dele.
— Não inventa.
— Eu nem falei nada.
— Mas pensei por você.
O professor riu.
— Boa sorte.
Quando ele saiu, Léo olhou para Ana.
— Auditório.
— Auditório.
— Juntos.
— Juntos.
— Nervosa?
— Muito.
Ele segurou a mão dela.
Foi um gesto simples.
Quase casual.
Mas Ana sentiu o coração acelerar.
— Vai dar certo — ele disse.
Ela olhou para os dedos entrelaçados.
Depois para ele.
— Como você sabe?
— Porque estou com você.
Ana sorriu.
— Isso foi quase bonito.
— Quase?
— Não exagera.
— Vou tentar.
---
O auditório estava cheio.
Ana ficou atrás da cortina.
Léo estava ao lado dela.
— Minha mão está tremendo — ela disse.
— A minha também.
Ela olhou.
— Está mesmo.
— Viu? Eu também fico nervoso.
— Você nunca parece nervoso.
— Porque você está sempre ocupada demais ficando nervosa pelos dois.
Ana riu.
— Idiota.
— Seu idiota favorito.
Ela ficou quieta.
— O quê?
— Nada.
— Você não negou.
— Não tenho o que negar.
Léo sorriu.
Antes que Ana pudesse responder, ouviram o nome do projeto.
Era a vez deles.
Eles entraram.
---
A apresentação foi perfeita.
Não porque nada deu errado.
Mas porque, dessa vez, quando algo deu errado, eles resolveram juntos.
Quando o sistema travou, Léo improvisou.
Quando um gráfico não apareceu, Ana explicou.
Quando o microfone falhou, os dois continuaram sem ele.
E, no final, receberam aplausos.
Ana sentiu uma felicidade quase infantil.
Quando saíram do palco, Léo segurou sua mão.
— Conseguimos.
— Conseguimos.
— Eu disse.
— Não fica convencido.
— Impossível.
Eles riram.
A maioria das pessoas começou a deixar o auditório.
Ana percebeu que ainda segurava a mão dele.
Nenhum dos dois soltou.
— Léo.
— Ana.
— Sobre ontem...
Ele ficou sério.
— O que tem?
Ela respirou fundo.
— O beijo.
Ele não respondeu imediatamente.
— Você se arrependeu?
Ana levantou os olhos.
— Não.
O rosto dele suavizou.
— Eu também não.
Ela sentiu o coração bater mais forte.
— Então...
— Então?
— O que somos?
Léo sorriu.
— Essa é uma pergunta perigosa.
— Por quê?
— Porque eu estava esperando você perguntar.
— E?
Ele se aproximou.
— E eu não tenho uma resposta pronta.
Ana sentiu a distância entre os dois diminuir.
— Então improvisa.
— Você sabe que eu sou bom nisso.
Ela riu baixinho.
— Às vezes.
— Posso tentar?
Ana não respondeu com palavras.
Apenas ficou ali.
Perto.
Léo entendeu.
O beijo aconteceu devagar.
Sem pressa.
Diferente do primeiro.
Não havia surpresa.
Não havia confusão.
Só os dois.
Quando se afastaram, Ana encostou a testa na dele.
— Isso vai complicar tudo.
— Provavelmente.
— Você não parece preocupado.
— Estou.
— Então por que está sorrindo?
— Porque finalmente descobri uma coisa.
— O quê?
— Que talvez algumas complicações valham a pena.
Ana sorriu.
— Convencido.
— Você gosta.
— Talvez.
— Talvez?
— Não abusa.
Ele riu.
---
Mais tarde, quando o campus já estava quase vazio, Ana voltou ao laboratório para pegar a prancheta.
Léo veio atrás.
— Você esqueceu isso.
Ele entregou a ela.
— Obrigada.
Ela guardou os papéis.
— Agora acabou.
— A feira?
— A feira.
— E nós?
Ana parou.
— Nós o quê?
— O que acontece agora?
Ela olhou para ele.
A pergunta era simples.
Mas a resposta parecia enorme.
— Acho que...
Ela respirou fundo.
— Acho que podemos descobrir.
Léo sorriu.
— Juntos?
— Juntos.
Ele estendeu a mão.
Ana segurou.
E os dois saíram do laboratório.
Dessa vez, sem pressa.
Sem discutir.
Sem fingir que aquilo era apenas uma parceria de projeto.
Porque, no meio de cabos, equipamentos, relatórios, cafés e uma feira de ciências que tinha saído completamente do controle, eles tinham descoberto algo que nenhum dos dois havia planejado.
Talvez o maior experimento daquela feira nunca tivesse sido o projeto.
Talvez fossem eles.
E, pela primeira vez, Ana não estava preocupada com o resultado.
Ela só queria descobrir o que aconteceria depois
Capítulo 2
Entre a Ciência e o Desejo
A chuva começou no instante em que Ana percebeu que tinha esquecido o guarda-chuva.
Era quase como se o universo tivesse escolhido aquele momento de propósito.
Ela parou diante da porta do laboratório, segurando uma pilha de cartolinas contra o peito e observando o estacionamento através do vidro. As gotas batiam no chão com força, formando pequenas poças sob as luzes amareladas do corredor.
— Perfeito — murmurou.
— Você sempre fala sozinha quando está nervosa?
A voz atrás dela fez Ana se virar depressa.
Leo estava encostado no batente da porta.
Camisa escura, mangas dobradas até os antebraços, cabelos ligeiramente bagunçados e aquele sorriso que parecia existir especificamente para irritá-la.
Ou desestabilizá-la.
Talvez os dois.
— Eu não estava falando sozinha.
— Estava, sim.
— Estava pensando alto.
— Ah. Então é diferente.
— Muito.
Ele sorriu.
— Claro.
Ana apertou as cartolinas contra o peito.
— Você precisa de alguma coisa?
— Preciso.
— O quê?
Leo se aproximou.
— Que você pare de fugir de mim.
O coração dela acelerou.
— Eu não estou fugindo.
— Está.
— Não estou.
— Desde ontem.
Ana desviou o olhar.
Ontem.
A palavra trouxe tudo de volta.
O jeito como ele tinha segurado sua mão enquanto montavam o experimento. A proximidade inesperada. O silêncio que havia surgido quando os dois perceberam que estavam perto demais.
E, principalmente, aquele quase beijo.
O problema era que Ana ainda conseguia sentir a expectativa daquele momento.
— Foi só um momento estranho — ela disse.
Leo parou diante dela.
— Para mim não foi.
Ana ergueu os olhos.
— Leo...
— O quê?
Ela não respondeu.
Ele também não.
Por alguns segundos, o único som no corredor foi a chuva.
— Você está com medo? — ele perguntou.
— De quê?
— De mim.
Ana soltou uma pequena risada nervosa.
— Você se acha muito importante.
— Às vezes.
— Isso explica muita coisa.
Ele riu.
Então estendeu a mão e pegou metade das cartolinas.
— Vamos.
— Para onde?
— Te levar para casa.
— Eu consigo ir sozinha.
— Eu sei.
— Então?
— Mesmo assim, quero ir com você.
Ana sentiu o rosto esquentar.
— Você é insistente.
— E você gosta.
Ela abriu a boca para responder, mas não encontrou nada.
Leo sorriu.
— Foi o que pensei.
---
Os dois correram até o estacionamento.
A chuva era forte demais para tentar atravessá-la calmamente. Ana protegeu as cartolinas contra o corpo enquanto Leo segurava a porta do carro aberta.
— Entra.
— Você vai se molhar.
— Já estou molhado.
Ela olhou para a camisa dele.
Estava completamente encharcada em alguns pontos.
Ana desviou os olhos imediatamente.
Leo percebeu.
— Algum problema?
— Nenhum.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Ele fechou a porta.
Quando entrou no carro, Ana percebeu que estavam próximos demais outra vez.
O interior era pequeno.
Silencioso.
Quente.
E, naquele momento, perigosamente íntimo.
Leo ligou o carro.
— Seu endereço?
Ela informou.
Durante alguns minutos, nenhum dos dois falou.
Até que Leo quebrou o silêncio.
— Você realmente acha que aquele beijo não teria acontecido?
Ana virou o rosto.
— Que beijo?
— O que quase aconteceu.
Ela respirou fundo.
— Nós não nos beijamos.
— Eu sei.
— Então não foi um beijo.
— Ainda.
Ana olhou para ele.
— Você sempre precisa ter a última palavra?
— Quando se trata de você, aparentemente.
Ela tentou não sorrir.
Falhou.
Leo percebeu.
— Aí está.
— O quê?
— Seu sorriso.
— Eu sorrio.
— Pouco.
— Talvez porque você seja irritante.
— Talvez porque eu consiga fazer você sorrir.
Ana ficou em silêncio.
O carro parou em um semáforo.
Leo virou o rosto para ela.
Por um instante, nenhum dos dois desviou.
Ana sentiu aquela mesma tensão do laboratório.
A mesma expectativa.
A mesma sensação de que alguma coisa estava prestes a acontecer.
O sinal abriu.
Leo voltou a olhar para a rua.
— Você está fazendo isso de propósito — ela disse.
— O quê?
— Me deixando nervosa.
Ele sorriu.
— Talvez.
---
Quando chegaram à casa de Ana, a chuva continuava forte.
Leo estacionou.
Ela ficou alguns segundos olhando pela janela.
— Obrigada pela carona.
— De nada.
Ana abriu a porta.
— Ana.
Ela parou.
— Sim?
— Amanhã.
— O quê?
— Depois da feira.
— Sim?
Ele sorriu.
— Não fuja.
Ana fechou a porta sem responder.
Mas entrou em casa sorrindo.
---
Na manhã seguinte, a feira de ciências parecia uma cidade inteira.
Banners pendurados por todos os lados. Mesas ocupadas por projetos. Professores caminhando de um lado para o outro. Estudantes explicando experimentos para visitantes.
Ana respirou fundo.
— Você está pronta?
Ela se virou.
Leo estava atrás dela.
Dessa vez, vestia uma camisa clara.
Ana demorou um segundo a mais do que deveria olhando.
— Estou.
— Tem certeza?
— Não.
— Ótimo.
— Ótimo?
— Significa que estamos igualmente nervosos.
Ela sorriu.
— Você está nervoso?
— Muito.
— Não parece.
— É porque estou tentando impressionar você.
Ana sentiu o coração bater mais rápido.
— Você não precisa.
Leo ficou sério.
— Preciso, sim.
Antes que ela pudesse responder, o professor chamou os dois.
A apresentação começaria.
---
As duas horas seguintes passaram como se fossem minutos.
Ana explicava os dados.
Leo demonstrava o experimento.
Eles se completavam de uma maneira quase assustadora.
Quando um esquecia uma informação, o outro lembrava.
Quando Ana se confundia, Leo assumia a explicação.
Quando Leo ficava nervoso, Ana sorria para ele.
No final, os dois receberam aplausos.
— Conseguimos — Ana disse.
Leo olhou para ela.
— Conseguimos.
— Eu não acredito.
— Acredite.
— Você está feliz?
— Muito.
— Pelo projeto?
Ele inclinou a cabeça.
— Também.
Ana entendeu.
— Leo...
— O quê?
— Você é impossível.
— E você ainda está aqui.
Ela sorriu.
— Estou.
---
Mais tarde, quando a feira finalmente terminou, o corredor estava quase vazio.
Ana guardava os últimos materiais em uma caixa.
Leo apareceu ao lado dela.
— Precisa de ajuda?
— Sempre.
Ele pegou uma das caixas.
— Vamos guardar isso no depósito.
Os dois caminharam juntos.
Quando entraram no depósito, Ana percebeu que estavam sozinhos.
Leo fechou a porta.
Não trancou.
Apenas fechou.
O silêncio mudou.
— Então... — Ana começou.
— Então.
Ela colocou a caixa sobre uma mesa.
Leo ficou parado a poucos passos.
— Você lembra do que me perguntou ontem?
— Qual coisa?
— Se eu estava com medo de você.
Ana sorriu.
— Lembro.
— Eu estava.
Ela perdeu o sorriso.
— De mim?
— Do que acontece quando fico perto de você.
Ana sentiu o coração acelerar.
— E o que acontece?
Leo se aproximou.
Devagar.
Sem pressa.
Parou diante dela.
— Isso.
Ele segurou delicadamente a mão dela.
Ana não recuou.
Pelo contrário.
Entrelaçou os dedos nos dele.
— Leo...
— Se você quiser que eu pare, eu paro.
Ela levantou os olhos.
— Não quero.
Foi tudo o que ele precisava ouvir.
Leo se aproximou mais.
O primeiro beijo foi lento.
Quase tímido.
Como se ambos estivessem tentando descobrir se aquilo era realmente permitido.
Ana fechou os olhos.
A mão dele tocou suavemente seu rosto.
O beijo se aprofundou por alguns instantes, carregado de tudo que os dois haviam evitado dizer.
Quando se afastaram, permaneceram próximos.
Testas encostadas.
Respirações descompassadas.
Ana sorriu.
— Então era isso.
— Isso o quê?
— O que estava acontecendo.
Leo sorriu também.
— Finalmente descobriu.
Ela deu um pequeno empurrão no ombro dele.
— Convencido.
— Você me beijou.
— Você me beijou primeiro.
— Detalhes.
Ana riu.
Ele a puxou novamente para perto.
Dessa vez, ela não hesitou.
---
O resto da tarde foi diferente.
Não porque algo extraordinário tivesse acontecido.
Mas porque agora havia uma verdade entre eles.
Eles gostavam um do outro.
E nenhum dos dois conseguia mais fingir que não.
No caminho para casa, Ana recebeu uma mensagem.
Leo: "Posso te ver hoje à noite?"
Ela sorriu.
Ana: "Você não acabou de me ver?"
A resposta veio quase imediatamente.
Leo: "Não foi suficiente."
Ana mordeu o lábio para esconder o sorriso.
Ana: "Então vem."
---
Às oito da noite, a campainha tocou.
Ana abriu a porta.
Leo estava ali.
Sem jaleco.
Sem cartolinas.
Sem projeto.
Apenas Leo.
— Oi.
— Oi.
— Posso entrar?
— Pode.
Ele entrou.
Por alguns segundos, ficaram simplesmente olhando um para o outro.
— Isso está estranho — Ana disse.
— Está.
— Por quê?
— Porque agora eu posso fazer isso.
— Fazer o quê?
Leo se aproximou.
Beijou-a.
Ana segurou a camisa dele e correspondeu.
O beijo foi mais confiante dessa vez.
Mais demorado.
Quando se afastaram, Ana riu baixinho.
— Você realmente estava esperando o dia inteiro por isso?
— Desde ontem.
— Dramático.
— Talvez.
Ela encostou a testa na dele.
— Eu também.
Leo sorriu.
— Então estamos quites.
Eles ficaram ali, abraçados, enquanto a chuva começava novamente do lado de fora.
Aquela noite não precisava de promessas.
Nem de grandes declarações.
Bastava a certeza de que alguma coisa havia começado.
Algo que nenhum dos dois sabia onde terminaria.
Mas que ambos queriam descobrir.
E, pela primeira vez, Ana não teve vontade de fugir.
Ela ficou.
E Leo ficou também.
Juntos, no silêncio confortável daquela sala, perceberam que talvez a maior descoberta daquela feira de ciências não estivesse em nenhum experimento.
Estava entre eles.
Capítulo 3
O Que Existe Entre Nós
Na manhã seguinte, Ana acordou com o celular vibrando sobre a mesa de cabeceira.
Ainda sonolenta, estendeu a mão e pegou o aparelho.
Havia uma mensagem.
Leo:
Bom dia.
Ela sorriu antes mesmo de responder.
Ana:
Bom dia.
Três pontinhos apareceram imediatamente.
Leo:
Você dormiu bem?
Ana ficou alguns segundos olhando para a tela.
Era estranho.
Até poucos dias atrás, Leo era apenas o garoto que conseguia irritá-la durante os trabalhos da escola.
Agora, uma simples mensagem dele era suficiente para transformar completamente sua manhã.
Ana:
Mais ou menos.
Leo:
Por quê?
Ela pensou em responder que tinha ficado pensando no beijo.
Mas apagou.
Digitou outra coisa.
Ana:
Porque alguém ficou me mandando mensagens na minha cabeça.
A resposta demorou alguns segundos.
Leo:
Eu gostaria de saber quem.
Ana riu.
Ana:
Você é muito convencido.
Leo:
E você gosta.
Ela largou o celular sobre a cama.
— Idiota.
Mas estava sorrindo.
---
Na escola, encontrar Leo foi inevitável.
E, de alguma forma, Ana estava nervosa.
Ela o viu no corredor, conversando com alguns colegas.
Leo também a viu.
O sorriso que apareceu no rosto dele foi imediato.
Ele se despediu dos amigos e caminhou até ela.
— Bom dia.
— Bom dia.
— Você está fugindo de mim?
— Não.
— Então por que está andando tão rápido?
Ana olhou para os próprios pés.
— Coincidência.
— Claro.
Ele caminhou ao lado dela.
Os ombros dos dois se tocaram.
Ana sentiu um arrepio.
Leo percebeu.
— Nervosa?
— Não.
— Está tremendo.
— Está frio.
— Está fazendo calor.
Ana olhou para ele.
— Você observa demais.
— Principalmente você.
Ela ficou sem resposta.
Leo sorriu.
— Funcionou.
— O quê?
— Fazer você ficar sem palavras.
— Aproveite. Não vai acontecer de novo.
— Vou aproveitar.
---
Durante o intervalo, os dois sentaram no pátio.
Era a primeira vez que estavam juntos em público desde o beijo.
Ana ainda não sabia exatamente o que aquilo significava.
Namoro?
Ficando?
Alguma coisa entre os dois?
Ela mexeu no canudo do refrigerante.
— Leo?
— Hm?
— O que somos?
Ele ficou quieto por um instante.
— O que você quer que sejamos?
Ana levantou os olhos.
— Eu perguntei primeiro.
— Eu sei.
— Então?
Leo apoiou os braços sobre a mesa.
— Eu quero ficar com você.
O coração dela acelerou.
— Só isso?
— Não.
Ele segurou a mão dela por baixo da mesa.
— Quero conhecer você de verdade. Quero saber o que você gosta, o que te irrita, quais são seus planos. Quero estar com você quando não tiver feira de ciências nenhuma.
Ana sorriu.
— Isso parece quase um pedido de namoro.
— Talvez seja.
— Talvez?
— Estou tentando não assustar você.
Ela apertou a mão dele.
— Não está funcionando.
— Então posso tentar de novo.
Leo se inclinou um pouco.
— Ana, quer namorar comigo?
Ela ficou olhando para ele.
Um sorriso surgiu lentamente.
— Quero.
O sorriso dele foi imediato.
— Sério?
— Não. Mudei de ideia.
— Ana!
Ela riu.
— Claro que é sério.
Leo apertou a mão dela.
— Então agora é oficial.
— Oficial.
---
Os dias seguintes foram diferentes.
Não completamente.
Ainda tinham aulas.
Trabalhos.
Provas.
Discussões sobre quem tinha esquecido determinado material.
Mas havia pequenas mudanças.
Leo esperava Ana na saída.
Ana guardava lugar para ele no intervalo.
Eles trocavam mensagens durante a noite.
E, sempre que estavam sozinhos, havia aquele olhar.
Aquele silêncio.
Aquela sensação de que um beijo poderia acontecer a qualquer momento.
Às vezes acontecia.
Às vezes não.
E a expectativa era quase tão intensa quanto o próprio beijo.
---
Uma sexta-feira, depois da aula, Ana estava guardando os livros no armário quando ouviu uma voz atrás dela.
— Posso falar com você?
Era Júlia.
Uma colega de turma.
Ana fechou o armário.
— Claro.
Júlia hesitou.
— É sobre o Leo.
Ana sentiu um pequeno aperto no peito.
— O que tem ele?
— Nada.
— Então?
— Só queria saber se vocês estão juntos.
— Estamos.
Júlia assentiu.
— Entendi.
— Por quê?
— Curiosidade.
Antes que Ana pudesse perguntar mais alguma coisa, Júlia foi embora.
Ana ficou parada.
Não sabia exatamente por que aquilo a incomodava.
Mas incomodava.
Quando encontrou Leo alguns minutos depois, ele percebeu imediatamente.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Ana.
— Sério.
— Você está diferente.
Ela respirou fundo.
— A Júlia perguntou sobre nós.
Leo arqueou uma sobrancelha.
— E?
— E nada.
— Você ficou com ciúmes?
— Não.
— Ficou.
— Não fiquei.
Ele sorriu.
— Ficou muito.
Ana cruzou os braços.
— Talvez um pouco.
Leo se aproximou.
— Então deixa eu esclarecer.
— O quê?
— Eu estou com você.
Ela olhou para ele.
— Só comigo?
— Só com você.
Ana sorriu.
— Isso foi convincente.
— Posso melhorar.
— Como?
Ele segurou a mão dela.
— Assim.
E a beijou.
Foi um beijo rápido.
Mas suficiente para fazê-la esquecer completamente a conversa.
Quando se afastaram, Ana sorriu.
— Você fez isso de propósito.
— Fiz.
— Manipulador.
— Funcionou.
— Funcionou.
---
Naquela noite, Ana estava sentada na varanda quando recebeu outra mensagem.
Leo:
Olha para a rua.
Ela franziu a testa.
Levantou-se.
Olhou.
Leo estava do outro lado da calçada.
Ana abriu a porta e foi até ele.
— O que você está fazendo aqui?
— Queria te ver.
— Você me viu hoje.
— Não foi suficiente.
Ela sorriu.
— Você fala isso sempre.
— Porque é verdade.
Ele se aproximou.
— Posso?
Ana respondeu apenas segurando a mão dele.
Leo sorriu.
O beijo aconteceu naturalmente.
Sem pressa.
Sem necessidade de provar nada.
Quando se afastaram, Ana encostou a cabeça no peito dele.
— Eu gosto disso.
— De quê?
— De nós.
Leo passou o braço ao redor dela.
— Eu também.
Ficaram em silêncio.
Pela primeira vez, não havia dúvida.
Não havia jogo.
Não havia medo.
Só os dois.
E a sensação de que aquilo estava apenas começando.
---
— Ana?
— Hm?
— Posso te fazer uma promessa?
Ela levantou a cabeça.
— Qual?
— Eu não sei quanto tempo isso vai durar.
Ela ficou séria.
— Leo...
— Mas enquanto durar, eu quero fazer valer a pena.
Ana sorriu.
— Essa foi a coisa mais romântica que você já disse.
— Eu estava tentando.
— Funcionou.
Ele riu.
Ela o abraçou.
E, naquele momento, Ana percebeu que talvez amar alguém não fosse descobrir exatamente onde aquela história terminaria.
Talvez fosse simplesmente ter coragem de continuar escrevendo.
E ela queria escrever aquela história com Leo.
Uma página de cada vez.
Capítulo 4
Perto Demais
A semana seguinte começou com uma certeza que Ana ainda estava tentando entender.
Ela estava apaixonada.
Não era mais apenas aquela curiosidade inicial.
Não era apenas a vontade de receber uma mensagem de Leo.
Era algo maior.
Mais assustador.
E muito mais difícil de esconder.
Na segunda-feira, ela chegou à escola alguns minutos atrasada.
Assim que entrou no corredor, encontrou Leo encostado na parede.
Ele estava esperando por ela.
— Você demorou.
Ana sorriu.
— Sentiu minha falta?
— Muito.
— Faz vinte minutos que a aula começou.
— Exatamente.
Ela riu.
Leo se aproximou e segurou sua mão.
— Vem.
— Para onde?
— Quero mostrar uma coisa.
— Leo, estamos atrasados.
— Então vamos ficar atrasados juntos.
Ele a puxou pelo corredor.
Ana tentou não rir.
— Você é uma péssima influência.
— E você continua vindo comigo.
— Talvez esse seja o meu problema.
Leo parou.
— Eu sou o seu problema?
Ana ficou diante dele.
— Um dos maiores.
— Então vou tentar ser um problema inesquecível.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Convencido.
Ele se aproximou.
Por um instante, os dois ficaram em silêncio.
Ana sentiu a respiração dele perto da sua.
— Você está fazendo aquilo de novo — ela sussurrou.
— O quê?
— Me deixando nervosa.
Leo sorriu.
— Talvez eu goste de ver você nervosa.
— Percebi.
Ele segurou delicadamente o rosto dela.
Ana não recuou.
O beijo foi lento.
Mais intenso do que os anteriores.
Quando se afastaram, ambos sorriram.
— Agora podemos ir para a aula — Leo disse.
Ana ficou olhando para ele.
— Você me fez perder completamente a concentração.
— Era exatamente o plano.
---
No intervalo, Ana percebeu que alguma coisa estava diferente.
Leo parecia mais quieto.
— Está tudo bem?
— Está.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ela segurou o braço dele.
— Você sabe que pode falar comigo, não sabe?
Leo olhou para ela.
— Sei.
— Então fala.
Ele respirou fundo.
— Tenho medo de estragar isso.
Ana franziu a testa.
— Estragar o quê?
— Nós.
Ela ficou em silêncio.
— Por que acha que vai estragar?
— Porque eu gosto muito de você.
Ana sentiu o coração apertar.
— Isso não é exatamente um problema.
— Para mim é.
— Por quê?
— Porque agora eu tenho alguma coisa que posso perder.
Ana aproximou-se.
— Então não perde.
Ele olhou para ela.
— É tão simples assim?
— Não.
Ela segurou a mão dele.
— Mas você não precisa enfrentar isso sozinho.
Leo sorriu.
— Você sempre sabe o que dizer?
— Não.
— Parece.
— É porque você ainda não viu quando eu fico completamente sem saber o que fazer.
— Estou curioso.
Ana sorriu.
— Não se empolgue.
---
Naquela tarde, os dois ficaram na biblioteca depois da aula.
Havia poucos estudantes.
O silêncio era confortável.
Ana estudava enquanto Leo fingia estudar.
Ela percebeu depois de alguns minutos.
— Você não está lendo.
— Estou.
— Você está olhando para mim.
— Também.
— Leo.
— O quê?
— Para.
— Não consigo.
Ela fechou o livro.
— Por quê?
Ele se aproximou.
— Porque você fica bonita quando está concentrada.
Ana sentiu o rosto esquentar.
— Você está tentando me distrair.
— Talvez.
— Está funcionando.
Leo sorriu.
— Ótimo.
Ele se aproximou mais.
Ana colocou a mão sobre o peito dele.
— Estamos em uma biblioteca.
— Eu sei.
— Então se comporte.
— Estou tentando.
— Não parece.
— Porque você está muito perto.
Ana percebeu que, sem notar, tinha se aproximado dele também.
Ela sorriu.
— Talvez eu não queira me afastar.
Leo ficou sério.
— Tem certeza?
Ana assentiu.
Ele a beijou.
Dessa vez, o beijo demorou.
Ana esqueceu completamente os livros, as provas e o lugar onde estavam.
Quando se afastaram, ela encostou a testa na dele.
— Isso está ficando perigoso.
— Por quê?
— Porque eu estou começando a querer você perto o tempo todo.
Leo sorriu.
— Eu também.
---
Na sexta-feira, houve uma festa na escola.
Ana passou boa parte da noite conversando com os amigos.
Até que percebeu Leo observando-a do outro lado do salão.
Ele não dizia nada.
Apenas olhava.
Quando os olhos dos dois se encontraram, Leo sorriu.
Ana caminhou até ele.
— O que foi?
Thoughts
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PermalinkO primeiro capítulo conta a feira duas vezes, com o beijo em sítios diferentes. Aposto que eram duas versões e acabaste por deixar as duas lá dentro.
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PermalinkO Léo respondendo claro para tudo até a Ana pedir pra ele parar me lembra aquele amigo que todo grupo tem, que concorda só pra provocar. Aposto que a Júlia ainda vai bagunçar essa história, ela foi embora do corredor rápido demais. Que bom ter você aqui logo com quatro capítulos, @gjlindao!
-
PermalinkCoitada da prancheta.
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