Charllotte nunca conheceu o próprio pai.
Não de verdade.
Sabia que ele existia porque sua mãe havia contado.
Sabia que havia um homem em algum lugar do mundo que carregava seu sobrenome, que um dia conhecera Margareth e que, de alguma maneira, fazia parte da história que havia dado origem à sua vida.
Mas era só isso.
Não havia fotografias na casa.
Não havia cartas.
Não havia telefonemas.
Não havia presentes de aniversário.
Não havia lembranças suficientes para que Charllotte pudesse dizer:
“Meu pai era assim.”
Ela simplesmente não sabia.
Durante muito tempo, aquilo não pareceu estranho.
Crianças costumam acreditar que aquilo que vivem é normal.
Para Charllotte, algumas famílias tinham pai dentro de casa.
Outras não.
A dela simplesmente não tinha.
Mas, conforme foi crescendo, as perguntas começaram.
A primeira surgiu quando tinha aproximadamente seis anos.
— Mãe, como era meu pai?
Margareth estava ocupada com alguma coisa na cozinha.
Não olhou para a filha.
— Não sei por que você quer saber disso.
— Porque ele é meu pai.
Margareth suspirou.
— Ele foi embora.
Charllotte esperou.
Talvez viesse alguma explicação.
Não veio.
— Mas por quê?
Margareth continuou ocupada.
— Porque não prestava.
Foi a primeira resposta.
E, durante anos, foi praticamente a única.
O pouco que Charllotte sabia
Existiam pequenas informações que Charllotte havia juntado ao longo dos anos.
Pequenos pedaços de uma história que ninguém parecia disposto a contar inteira.
Seu pai era de Goiânia.
Essa era uma das poucas certezas.
Margareth dizia que ele havia conhecido pessoas perigosas e que trabalhava para uma organização criminosa que ela chamava simplesmente de máfia.
Charllotte nunca soube exatamente o que aquilo significava.
Quando era criança, imaginava homens de terno, carros pretos e reuniões secretas.
Talvez seu pai fosse um homem importante.
Talvez fosse perigoso.
Talvez fosse apenas alguém que havia feito escolhas erradas.
Ela não sabia.
Também sabia que ele era muito mais velho que Margareth.
Quando os dois se conheceram, ele tinha cinquenta anos.
Margareth era muito mais jovem.
A diferença de idade era uma das coisas que Charllotte nunca conseguiu compreender completamente.
Mas havia outra informação ainda mais estranha.
Seu pai era casado.
O nome da esposa era Cristina.
Cristina era uma mulher ligada à igreja.
Uma missionária da Assembleia.
Charllotte não sabia como alguém podia viver uma vida religiosa e, ao mesmo tempo, estar casada com um homem envolvido com criminosos.
Mas, para uma criança, o mundo dos adultos era cheio de contradições.
Cristina também tinha um filho com ele.
O nome do rapaz era Cristiano.
Cristiano era o filho que Charllotte nunca conheceu.
Seu meio-irmão.
Às vezes, quando pensava nisso, Charllotte imaginava como seria encontrá-lo.
Será que ele sabia que ela existia?
Será que sabia que seu pai tinha outra filha?
Será que alguma vez havia perguntado por ela?
Ela não tinha respostas.
Antes de Charllotte
Margareth nunca contou exatamente como conheceu aquele homem.
Charllotte sabia apenas que os dois haviam se aproximado em algum momento antes de sua gravidez.
Não sabia onde.
Não sabia quem apresentou os dois.
Não sabia se haviam namorado.
Não sabia quanto tempo ficaram juntos.
E não sabia se Margareth realmente acreditava que aquele homem ficaria ao seu lado.
Talvez tivesse acreditado.
Talvez tivesse imaginado uma vida diferente.
Talvez tivesse pensado que, depois de descobrir a gravidez, ele assumiria a criança.
Mas não foi isso que aconteceu.
Quando Margareth descobriu que estava grávida, contou a ele.
E foi naquele momento que tudo mudou.
Ele desapareceu.
Não houve uma despedida bonita.
Não houve promessa de retorno.
Não houve tentativa de construir uma família.
Ele simplesmente foi embora.
Charllotte cresceu ouvindo que o pai havia escolhido desaparecer antes mesmo de ela nascer.
E essa informação sempre deixou uma ferida difícil de explicar.
Porque significava que ele não havia abandonado apenas uma família.
Havia abandonado uma criança que ainda nem conhecia.
A pergunta que não tinha resposta
Certa noite, muitos anos depois, Charllotte perguntou novamente:
— Mãe... ele sabia que eu era menina?
Margareth estava sentada na cama.
— Sabia que você existia.
— E ele nunca quis me ver?
Margareth ficou em silêncio.
Charllotte percebeu.
— Nunca?
— Não.
A menina abaixou a cabeça.
— Ele tinha outro filho?
Margareth olhou para ela.
— Tinha.
— Cristiano.
— É.
Charllotte ficou alguns segundos em silêncio.
— Ele cuidava dele?
Margareth não respondeu imediatamente.
— Era diferente.
— Diferente como?
— Não importa.
Charllotte sentiu uma coisa apertar dentro do peito.
— Pra mim importa.
Margareth se levantou.
— Charllotte, você precisa parar de procurar alguém que nunca quis procurar você.
A menina ficou olhando para a mãe.
Não respondeu.
Mas aquela frase ficou guardada.
“Nunca quis procurar você.”
Por muito tempo, Charllotte acreditou que aquilo significava que havia alguma coisa errada com ela.
Talvez fosse sua aparência.
Talvez fosse seu jeito.
Talvez o pai tivesse ido embora porque ela não era uma filha que ele queria.
Uma criança não entende que o abandono de um adulto não define o valor dela.
Ela apenas sente o abandono.
E Charllotte sentiu.
Um homem sem rosto
Na imaginação de Charllotte, seu pai não tinha um rosto.
Era apenas uma silhueta.
Um homem vindo de Goiânia.
Cinquenta anos.
Casado com Cristina.
Pai de Cristiano.
Envolvido com pessoas perigosas.
Um homem que conheceu sua mãe.
Um homem que soube que ela existia.
E um homem que foi embora.
Às vezes, Charllotte tentava imaginar como seria encontrá-lo.
Imaginava que ele bateria à porta.
Que Margareth ficaria surpresa.
Que ele olharia para ela e imediatamente saberia que era sua filha.
Talvez dissesse:
— Eu sinto muito.
Talvez explicasse tudo.
Talvez contasse por que desapareceu.
Talvez dissesse que tinha medo.
Talvez dissesse que havia cometido um erro.
Mas esses pensamentos terminavam sempre do mesmo jeito.
Charllotte acordava da imaginação e lembrava que ele nunca tinha aparecido.
Nunca.
O segredo de Margareth
Havia algo, porém, que Charllotte ainda não sabia.
Margareth nunca contou toda a história.
Sempre que o assunto chegava perto demais do passado, ela mudava de assunto.
Algumas vezes ficava irritada.
Outras vezes simplesmente dizia:
— Isso ficou para trás.
Mas não havia ficado.
Porque algumas histórias não desaparecem quando deixamos de falar sobre elas.
Elas continuam existindo dentro das pessoas.
E o passado de Margareth ainda guardava perguntas.
Como ela conheceu aquele homem?
Por que se envolveu com alguém que já era casado?
O que ele realmente fazia?
Por que desapareceu tão rapidamente?
E, principalmente:
o que realmente aconteceu entre os dois antes de Charllotte nascer?
A menina ainda não sabia.
Naquele momento, tudo o que conhecia era a versão fragmentada que sua mãe havia permitido que ela conhecesse.
Um homem de Goiânia.
Um homem de cinquenta anos.
Um homem casado.
Um homem que tinha um filho chamado Cristiano.
Um homem envolvido com a máfia.
Um homem que soube que Margareth estava grávida.
E então...
foi embora.
Sem olhar para trás.
Sem conhecer a filha.
Sem imaginar que aquela menina cresceria carregando perguntas sobre ele.
Charllotte ainda não sabia, mas o passado daquele homem voltaria para sua vida muitos anos depois.
E, quando isso acontecesse, ela descobriria que algumas verdades são muito mais complicadas do que as histórias que ouvimos na infância.