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Capítulo 11 - A Noite Branca

KazzTeles

Conteúdo da publicação

A noite engoliu as ruínas antes que tivessem tempo para decidir o que fazer com a mensagem de Ezekiel. Montaram um acampamento no interior de uma antiga fortificação militar, as paredes grossas de pedra haviam resistido à guerra, mas não conseguiam barrar o vento gelado que assoviava pelas rachaduras. Ninguém tocou no assunto da figura que os observava lá fora, não por falta de importância, mas porque não havia o que dizer, ainda lhes faltavam peças para entender quem ou o que os espreitava.

Edran insistiu em passar a noite ali.

Viajar às cegas, argumentou, era pedir para ser facilmente emboscado. Marina acabou e logo espalhou as anotações do posto pelo chão, caçando qualquer fio solto que ligasse os diários de Ezekiel às lembranças fragmentadas de Daiquiri. João tentava a todo custo manter a moral da equipe, contando histórias exageradas de viagens antigas e inventando nomes ridículos para monstros que já haviam enfrentado. Mas nem as piadas dele disfarçavam a tensão no ar. Alexander, como de costume, era uma estátua perto da entrada, os ouvidos atentos a qualquer som fora do comum.

No fundo da sala, isolado pelas sombras, estava Daiquiri.

Ele segurava a folha de papel com tanta força que os nós de seus dedos doíam. Já sabia as poucas frases de cor, até mesmo o espaço vazio onde as palavras haviam se apagado.

A frase martelava sua cabeça. Por anos, justificou o silêncio do pai com desculpas fáceis: a guerra o mudou, ele era fechado, as memórias eram ruins demais. Mas agora a verdade se desenhava de forma dolorosamente prática, Ezekiel não tentava apenas guardar um segredo, ele tentou esconder o próprio filho.

E a pior parte, depois de tudo isso, Daiquiri não sabia dizer se aquilo era o ápice da proteção ou a mais pura forma de abandono.

Marina se aproximou em silêncio e sentou-se ao lado dele, ela havia aprendido a ler os silêncios dele, sabendo exatamente quando ele precisava de espaço antes de organizar o caos na própria cabeça. Quando finalmente falou, a voz dela era um murmúrio cauteloso.

— Encontrei outra coisa sobre àquela noite...

— A noite da morte do Polaris? — ele ergueu os olhos para ela.

Marina assentiu, ela lhe estendeu uma página resgatada de uma das caixas, não era a letra de Ezekiel, mas um registro militar, seco e burocrático, escrito por alguém lotado na região naquela época. Faltavam pedaços, rasgados ou apagados, mas a data era nítida. E ao lado dela, um termo se repetia: A Noite Branca.

— Por que esse nome? — Daiquiri franziu a sobrancelha.

— Porque a descarga de energia foi tão brutal que o céu inteiro ficou branco por alguns minutos — disse ela. — Os sobreviventes juraram que não era relâmpago, nem tempestade, parecia que o sol tinha nascido novamente no meio da madrugada.

— Azoth?

— Talvez, o relatório não cita nome algum, fala de invasores usando símbolos de culto, de um fenômeno que ninguém soube explicar e de uma batalha que transformou uma território inteiro em cinzas. — Marina fez uma pausa, engolindo seco. — E fala do seu pai.

Daiquiri encostou a cabeça na parede de pedra, fechando os olhos.

— Então era isso, a floresta em chamas e o Polaris me dizendo que ainda não lembrava...

— E você consegue lembrar de alguma coisa? — Marina notou a mudança na postura dele.

— Não exatamente — sussurrou. — É como se a memória estivesse ali, só esperando eu dar um passo na direção dela.

Edran, que ouvia a conversa de longe, aproximou-se. Parou a poucos passos de distância, os olhos fixos no documento nas mãos de Daiquiri. Quando leu o termo "Noite Branca", o rosto já velho, pareceu envelhecer dez anos mais.

— Onde acharam isso? — perguntou.

— Nos registros militares — Marina apontou para os papéis espalhados no chão.

— Eu conheço essa data — Edran deu mais um passo e sua voz saiu rouca. — Eu estava lá.

O silêncio que engoliu a sala foi ensurdecedor, até João parou de encher a paciência de Alexander, virando-se para eles.

— Você estava lá? — a garganta de Daiquiri secou como areia.

— Não na sua casa, eu fazia parte de uma equipe de resgate posicionada a alguns quilômetros de distância. Quando o ataque aconteceu, fomos acionados para evacuar a área. Mas... chegamos tarde demais.

— E você nunca pensou em nos contar? — Daiquiri murmurou.

— Ezekiel me fez jurar que eu não contaria?

— É claro que fez — a resposta veio no automático, e Daiquiri soltou uma risada amarga.

— Eu devia ter falado antes, mas você era apenas uma criança.

— Eu não sou mais uma criança, Edran! — Daiquiri pisou forte no chão. — Então pare de me tratar como uma.

Edran soltou um suspiro longo, como se esvaziasse os pulmões de um peso antigo, e sentou-se num bloco de pedra.

— Está certo, você merece a verdade...

Alexander, João e Marina formaram um semicírculo ao redor deles. Pela primeira vez na viagem, eles não precisavam deduzir nada de poeira e papéis velhos, a testemunha do começo de tudo estava ali.

Edran então, contou que semanas antes da tragédia, Ezekiel rastreava rumores sobre o culto. Aldeias esvaziadas, símbolos macabros em ruínas, pessoas fazendo perguntas demais sobre descendentes da Grande Guerra. Inicialmente, Ezekiel achou que caçavam uma linhagem. Depois achou um documento que mudou tudo: o culto não queria espalhar sangue, ele apenas queria o receptáculo.

— Polaris... — a marca no braço de Daiquiri deu uma fisgada quente.

— Sim — Edran confirmou com a cabeça. — E eles tinham certeza de que Polaris carregava a essência de Azoth.

— Espera — João olhou para Edran e depois para Daiquiri, e repetiu o processo por cinco vezes antes de continuar. — Mas o Azoth tá no Daiquiri, não tá?

— Sim, mas o culto não sabia disso.

— Alguém mentiu pra eles — Marina pegou o fio da meada num instante.

— Ou ninguém tinha o quebra cabeça inteiro — ponderou Edran. — Ezekiel sabia que a essência estava na família, mas não em qual dos dois. Os livros diziam que o portador manifestaria certos sinais. E Polaris demonstrava instabilidades que fizeram os cultistas marcarem ele como o alvo.

Como um soco no estômago, a memória voltou: uma mão apertando seu ombro e uma porta batendo com força, viu Polaris correndo e ouviu a voz de Ezekiel gritando.

Daiquiri levou as mãos à cabeça, cambaleando um passo para trás.

— Nós estávamos juntos.

O cenário se montou na mente de Daiquiri.


Daiquiri era pequeno, estava encolhido debaixo de uma mesa de carvalho pesado, os joelho apertados contra o peito. O barulho lá fora era aterrorizante: madeira quebrando, explosões e gritos.

Polaris estava na frente dele, o irmão mais velho não chorava. Havia um filete de sangue no canto de sua boca, e na porta, de costas para eles, estava Ezekiel com a espada em punho.

— Quando eu mandar, vocês correm.

O pai não tinha a calma de sempre, a voz dele não era de um herói de guerra, era a de um pai apavorado.


Daiquiri abriu os olhos, arfando.

— Eles invadiram nossa casa, eram muitos... meu pai lutou contra eles, e Polaris... — as palavras morreram, Daiquiri cerrou os punhos com tanta força que as unhas cortaram a palma das mãos. — Ele era só uma criança...

O relato de Edran preencheu o que Daiquiri não conseguia lembrar, Ezekiel havia enfrentado dezenas de assassinos dentro da própria sala. Eles não queriam matá-lo de imediato, mas queriam capturar o filho vivo, mas não sabiam qual dos filhos eram: o de cabelos cinzas como a prata ou de cabelos dourados como o sol. Ezekiel chegou a blefar, tentando atrair a atenção para Daiquiri, mas o culto tinha estudado a família, mas não morderam a isca.

Foi quando Ezekiel caiu, uma lâmina varou seu abdômen, outra rasgou seu ombro, uma rajada de magia negra abriu seu flanco esquerdo, e mesmo jorrando sangue, ele não recuou. Continuou golpeando, virando um escudo de carne e aço para dar tempo aos filhos.

— Ele ficou entre nós e eles — murmurou Daiquiri, a voz embargada. — Mas... e eu?

— Você foi arrastado para fora por Polaris — respondeu Edran.

Outro clarão de memória: A mão firme de Polaris puxando a sua, o vento gelado no rosto, as árvores passando como borrões e o clarão de fogo engolindo a casa. Os gritos e a mão do irmão escorregando.

— Eu deixei ele para trás — a respiração de Daiquiri acelerou, ele claramente estava beirando o pânico.

— Não garoto, ele mandou você correr...

— Eu soltei a mão dele! — gritou. — Eu podia ter voltado! — a voz de Daiquiri falhou em um grito quebrado, ele despencou de joelhos no chão de pedra.

Alexander deu um passo para ampará-lo, mas Marina o segurou pelo braço, havia dores que precisavam sangrar antes de curar.

— Eu não lembro do resto... — choramingou, curvado sobre si mesmo.

Edran abaixou-se até ficar na altura dele.

— Isso porque Ezekiel fez de tudo para apagar o resto daquela noite da sua cabeça. Você sobreviveu porque ficou escondido no porão de um celeiro vizinho até ser encontrado por Ezekiel, o herói mal parava em pé. Os curandeiros acharam que ele morreria antes de chegarem à base, mas Ezekiel recusou ser tratado antes de achar o filho caçula. Quando o encontrou, o abraçou ensanguentado e implorou que esquecesse o que tinha visto. Ele olhou ao redor, mas não viu Polaris, então voltou sozinho para as cinzas da casa e encontrou o seu primogênito.

— O Polaris... morreu porque voltou pra casa pra tentar salvar o meu pai?

— Sim — Edran engoliu seco. — Seu pai perdeu o juízo, recusou-se a aceitar... carregou o corpo de Polaris por quilômetros, chamando o nome dele, como se fosse acordá-lo. Quando as pernas falharam e a realidade bateu, ele apenas... sentou na lama. E ficou com o menino nos braços até o amanhecer.

— Mas se achavam que ele era o portador, por que o mataram? — questionou Alexander.

— Porque quando Polaris morreu, a essência não se manifestou nele — disse Marina, matando a charada antes de Edran. — Eles acharam que tinham destruído a coisa toda.

— Exatamente, minha jovem — Edran assentiu. — Algo bizarro aconteceu na morte do Polaris, a energia que o culto rastreava sumiu do mapa, então deram a missão como encerrada.

O frio que subiu pela espinha de Daiquiri não era do vento. — Mas a essência estava em mim... meu pai... ele sabia?

O silêncio de Edran foi a pior resposta possível.

— Ele descobriu depois — disse o velho guerreiro, enfim. — Quando voltou aos destroços, semanas mais tarde. Achou traços de uma magia diferente, rastreou os resíduos e percebeu a verdade: uma parte da essência tinha pulado para você.

Daiquiri ficou paralisado, anos de memórias começaram a se reescreve em sua mente. Ezekiel acordado de madrugada, rondando a casa, a proibição de viagens longas, o interrogatório constante de onde estava e com quem, o pânico irracional do pai perto de artefatos mágicos. Por muito tempo, Daiquiri achou que o pai o considerava um estorvo, alguém indigno de confiança.

Agora, tudo estava claro. Ezekiel não olhava para ele e via apenas um filho, ele via uma bomba-relógio que o culto de Azoth ainda procurava.

— Então era isso — a voz de Daiquiri tremeu. — Ele não era frio, ele estava apenas apavorado... e quando o Polaris morreu... — as lágrimas finalmente transbordaram, Marina completou por ele, a voz doce e triste:

— Ele perdeu um filho tentando protegê-lo de algo que, no fim das contas, estava dentro de você.

— Eu achava que ele não me amava — Daiquiri afundou o rosto nas mãos. — Achava que toda vez que ele olhava para mim, via o Polaris morto, achava que ele me evitava porque minha existência era um lembrete do que ele perdeu.

— O pior de tudo, Daiquiri, é que talvez parte disso fosse verdade — Edran fechou os olhos, pesaroso e tocou a cabeça dele. — Ele amava você, amava com a própria vida. Mas olhar para você doía, você era o filho vivo enquanto Polaris estava morto, era impossível separar as duas coisas. O sentimento de culpa o devorou mais rápido do que a doença no fim da vida. Ele viveu o resto dos seus dias achando que tivesse sido um pouco mais rápido, um pouco mais forte, teria salvado os dois. Cada pessoa que ele salvava na guerra era uma tentativa inútil de tentar salvar o Polaris.

João chutou uma pedra solta no chão, a voz grossa de frustração. — Quer dizer que o cara virou uma lenda salvando o mundo porque não aguentava o fato de não ter salvado a própria casa? Isso é uma merda — resmungou João.

Ninguém ousou discordar.

Lá fora, a ventania urrou. Nuvens densas engoliram a lua, mergulhando a sala numa escuridão quase total. Daiquiri olhou para o buraco da janela e, como se a escuridão fosse uma tela, a última peça da memória se encaixou.


Ele não estava mais correndo, o céu da lembrança explodiu em um clarão ofuscante - a noite branca - Ezekiel estava de joelhos, berrando. Polaris estava caído no chão, imóvel, os mantos escuros do culto ao redor.

E então... ele mesmo, Daiquiri.

Não havia medo, havia uma luz irrompendo de seu próprio peito, uma luz fria. Ele caiu de costas na terra úmida.


A memória se desfez, Daiquiri levou a mão ao coração, o peito subindo e descendo rápido.

— Eu vi...

Marina deu um sobressalto. — O quê?

— A essência de Azoth, naquela noite quando o Polaris caiu, ela... ela saiu de mim.

Edran ficou pálido. — O que exatamente você viu, garoto?

— Uma luz que não era luz, era alguma coisa viva! Os cultistas olharam para mim, mas de repente a luz estourou e eles foram cegados, foi aí que meu pai me pegou.

Marina uniu os pontos rapidamente. — A essência se partiu ali, naquele exato momento.

Daiquiri olhou para as próprias palmas, trêmulas. — E para onde foi a outra metade? — ninguém ali soube responder, mas a resposta não precisava vir de fora.

— Inda aqui permanece. — a voz não ecoou nas paredes, ecoou no centro do seu próprio crânio, fazendo Daiquiri arregalar os olhos, era Azoth.

Daiquiri trincou os dentes, agarrando a própria cabeça. — Sai de mim!

— Mas o meu labor foi vão... — a voz de Azoth zombou.

Daiquiri soltou um grito rasgado, uma onda de impacto invisível varreu a sala. A fogueira foi extinta num sopro violento, e uma geada negra e crepitante cobriu o chão de pedra. Alexander sacou a espada num reflexo, mas Marina entrou na frente da lâmina. — Não! Não o ataque!

Daiquiri desabou no chão contorcendo-se, Azoth não se calava.

— Anseias pela verdade sobre Polaris? O peso em seu intelecto era maciço, abafador. Ele tombou porque todos, até o bastião de seu pai, foram tolos. Verteram o sangue do garoto errado, enquanto a verdadeira morada se agachava a dois passos dali, a tremer de espanto.

Tão rápido quanto começou, o frio recuou. O silêncio retornou com força.

Daiquiri ficou no chão, de quatro, puxando o ar como se estivesse se afogando. Edran deu um passo receoso, sem tentar tocá-lo dessa vez. — Você está bem, garoto?

Ele ergueu a cabeça, o rosto suado e os olhos vermelhos. E pela primeira vez na vida, não tentou parecer forte. — Não.

Marina ajoelhou-se na terra fria, bem de frente para ele, sem medo.

Daiquiri olhou para seus companheiros, e depois para o chão. A vida inteira achou que o peso que carregava era o nome de Ezekiel, agora entendia que a tragédia havia começado muito antes de ele ter idade para compreendê-la. Começara com um irmão mais velho dando a vida para protegê-lo, com um pai destruído pela culpa, tentando consertar o impossível, e com uma entidade ancestral, enraizada em sua alma, apenas aguardando a hora de despertar.

A Noite Branca não fora apenas a morte de Polaris, fora a noite em que Daiquiri deixou de ser humano para se tornar uma "gaiola", Azoth estava dentro dele, lutando para tomar o controle.

Thoughts

  • Lubs

    Epá, o João a resumir aquilo tudo numa palavra foi a coisa mais sensata dita naquela sala. E o Edran calado isto tudo durante onze capítulos, desconfio que ainda guarda mais.

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  • gastoInvisivel

    O Polaris voltou 😔

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