CAPÍTULO 3: O PRIMEIRA SINAL DE MUDANÇA
A Dra. Elena Rostova entrou na sala de emergência do Hospital Central de San Valles às 06h00 da manhã do domingo. O cheiro forte de desinfetante e café queimado era o cenário habitual de seus plantões de doze horas, mas o ambiente daquela manhã tinha algo de profundamente errado.
Não havia gritos. Não havia o som agudo dos monitores cardíacos em alarme. Não havia o corre-corre desesperado de enfermeiros.
O saguão da emergência estava lotado com mais de noventa pessoas. Algumas sentadas nas cadeiras de plástico, outras em pé ao longo dos corredores. Todas em absoluto e irrestrito silêncio.
Elena parou na porta de entrada, segurando sua pasta de couro. Ela olhou para a recepção. A enfermeira-chefe, uma mulher linha-dura chamada Marta, estava sentada atrás do balcão de acrílico. Marta não digitava no computador. Ela apenas olhava para a parede oposta, com as mãos repousadas espalmadas sobre a mesa.
— Marta? — chamou Elena, aproximando-se. — O que está acontecendo aqui? Cadê o pessoal da triagem? Por que essas pessoas não foram encaminhadas para os leitos?
Marta lentamente virou o pescoço. O movimento foi fluido, quase mecânico.
— Não há necessidade de triagem, Dra. Rostova, — disse Marta. A voz de Marta, normalmente rouca por causa do cigarro, soava limpa, ritmada, sem qualquer variação de tom. — Todos eles já estão estáveis.
Elena franziu a testa. Ela olhou para um paciente sentado na primeira fileira — um homem de meia-idade, vestindo uniforme de construtor civil, que havia sido trazido de ambulância duas horas antes após uma queda de andaime. As roupas do homem estavam rasgadas e cobertas de poeira, mas ele não demonstrava dor. Suas pupilas estavam completamente dilatadas, engolindo a cor castanha de suas íris.
— Esse homem tem uma suspeita de traumatismo craniano, Marta! — disse Elena, tirando o estetoscópio da bolsa. Ela se ajoelhou ao lado do trabalhador. — Senhor? Pode me ouvir? Qual é o seu nome?
O homem virou os olhos para Elena.
— Não há dor, doutora, — respondeu ele. Sua voz tinha exatamente o mesmo timbre e a mesma cadência pausada que Marta usara segundos atrás. — O ruído parou.
Elena colocou a estetoscópio sobre o peito do homem. O coração batia a impressionantes trinta e oito batimentos por minuto. Um ritmo severamente bradicárdico que deveria ter deixado o paciente inconsciente. Contudo, a saturação de oxigênio no sangue, medida pelo oxímetro de pulso de Elena, marcava cem por cento.
— Isso é impossível... — murmurou Elena.
Ela puxou a pequena lanterna clínica do bolso e apontou o feixe de luz diretamente para a pupila esquerda do homem.
O que ela viu fez sua mão tremer.
A luz da lanterna não fez a pupila se contrair. Em vez disso, através do tecido transparente da córnea, Elena enxergou uma rede microscópica de fios esbranquiçados, finos como teias de aranha, que partiam do fundo da retina e se trançavam ao redor do nervo óptico. Os fios brilhavam com uma bioluminescência fraca, verde-esmeralda, pulsando em sincronia exata com os batimentos cardíacos do paciente.
E com os batimentos de Marta.
E com os batimentos de todas as noventa pessoas presentes naquele saguão.
Elena deu dois passos para trás, quase tropeçando na maca de transporte. Ela olhou ao redor. Todos os noventa pacientes na sala haviam virado as cabeças na mesma direção. Noventa pares de olhos com pupilas dilatadas a observavam em silêncio.
Ninguém se mexeu. Ninguém levantou a voz.
— Eu preciso de um exame de imagem agora, — disse Elena para si mesma, sentindo o suor frio escorrer pelo meio de suas costas. — Agora!
Ela correu pelo corredor em direção ao setor de tomografia computadorizada. O som de seus sapatos de borracha contra o linóleo era o único barulho que ecoava naquele hospital onde ninguém mais precisava reclamar, chorar ou pedir socorro.