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Compasso Proibido - Capítulo 3

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A quinta-feira tinha um cheiro próprio no estúdio.

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tmoreira93

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Capítulo 3 — O Espaço Entre os Passos

I. Quinta

A quinta-feira tinha um cheiro próprio no estúdio.

Vinha da cera que Ana passava no assoalho nas quartas à noite, quando a última turma ia embora e ela ficava sozinha com o balde e o pano e a certeza de que ninguém mais pisaria ali até a manhã seguinte. Na quinta o cheiro ainda estava lá, mais fraco, misturado ao da madeira e ao do café que Cláudio insistia em fazer forte demais no fim da tarde para aguentar a aula da noite.

Jon chegou às sete e meia. A turma era às oito.

Ele tinha descoberto, sem que ninguém explicasse, que chegar cedo era mais fácil do que chegar na hora. Cedo o estúdio estava quase vazio e ele podia ocupar um canto e deixar o corpo se acostumar com o lugar antes que o lugar se enchesse de gente. Ana sabia disso agora. Não comentava. Só deixava a porta destrancada mais cedo nas quintas, e nenhum dos dois tratava aquilo como um acordo.

"Você cortou o cabelo", ela disse, sem levantar os olhos da caixa de som.

"Minha mãe reclamou por telefone."

"Ela tem razão."

"Foi o que eu disse pra ela. Não adiantou. Ela reclamou mesmo assim."

Ana riu, curto, quase só o ar. Continuou mexendo no cabo que vivia caindo.

A turma foi chegando. Dona Lúcia primeiro, sempre, com o casaquinho que ela tirava no segundo passo e pendurava na mesma cadeira. Depois Renata, depois o Roberto do balanço, depois os outros, e o estúdio foi ficando com aquele volume morno de conversa que precede a música. Cláudio apareceu quando já havia gente suficiente para valer a pena aparecer, cumprimentou pelo nome, contou uma piada que só metade ouviu e a outra metade riu por contágio.

Jon dançou naquela noite melhor do que tinha dançado até então, e sabia disso, e não disse nada. Errava menos o peso. Conseguia, por trechos inteiros, esquecer que estava contando. Renata comentou que ele estava "quase gente" e ele respondeu que estava trabalhando para chegar a gente inteira até o Natal, e ela riu, e a palma soou, e trocaram de par.

No fim, guardando as cadeiras, Cláudio parou ao lado dele.

"Semana que vem você entra na roda desde o começo. Sem aquecimento na lateral."

"Tá."

"Você não vai discutir?"

"Você já decidiu. Igual a Carla."

Cláudio riu, aquele riso dele que vinha de baixo. "A Carla que te mandou pra cá?"

"A mesma."

"Boa aluna, a Carla. Some um mês, volta como se nunca tivesse sumido." Bateu no ombro dele e foi ajudar Ana a enrolar o cabo do som, e os dois ficaram falando de uma coisa qualquer sobre o horário de sábado, e Jon pegou a mochila e foi embora antes que a conversa deles precisasse incluí-lo.


II. A Curva do Rio

Ana corria de manhã, cedo, antes do estúdio abrir.

Não era treino nem disciplina, era uma coisa mais velha do que isso, uma herança do corpo que dançava desde os oito anos e que não sabia começar o dia parado. Ela corria a mesma volta há anos: descia até a marginal do riozinho que cortava o bairro, seguia a ciclovia até a ponte velha, voltava. Quarenta minutos. Conhecia cada raiz que levantava o asfalto, cada cachorro que latia atrás de cada muro, o homem da banca que abria às seis e meia e que já a cumprimentava de longe.

No sábado o rio estava cheio da chuva da véspera, marrom e rápido, e o ar tinha aquele frio limpo que só existe cedo. Ela corria no ritmo de sempre, fones em um ouvido só, quando viu, uns cinquenta metros à frente, alguém parado na mureta olhando a água.

Reconheceu antes de saber que tinha reconhecido. O jeito de ocupar o espaço, os ombros, a maneira de estar parado como quem está medindo alguma coisa.

Ele a viu quando ela já estava perto demais para fingir outra rota.

"Professora não", ele disse, antes que ela dissesse qualquer coisa. "A gente não tá no estúdio."

"Ana, então."

"Ana."

Ela parou, mais para não passar direto do que por vontade de parar. Estava suada, respirando pela boca, e havia algo estranhamente democrático em ser vista assim por um aluno, sem a compostura que a aula exigia.

"Você corre?" ela perguntou.

"Corro."

"Aqui?"

"Descobri esse lugar semana passada. É perto de casa." Ele apontou o rio com o queixo. "Tava vendo a água. Subiu bastante."

"Choveu ontem."

"Eu sei. Eu vi." Uma pausa. "Quer dizer, eu vi a chuva. Não vi o rio subir. Ia ser esquisito ficar aqui a noite toda vendo o rio subir."

Ana riu antes de decidir rir.

Ela ia seguir. Estava com a perna já virando na direção da ciclovia, o corpo ainda no ritmo interrompido. Mas ele começou a andar na mesma direção, sem pressa, sem convite, apenas porque era para onde ele também ia, e por alguns metros os dois foram lado a lado num passo que não era corrida nem caminhada, e teria sido mais trabalhoso separar-se do que continuar.

Então ela voltou a correr, devagar, e ele acompanhou.

Correram sem falar por um tempo. O rio à esquerda, a ciclovia vazia, o som duplo dos pés no chão fora de sincronia. Ana esperava o desconforto que costumava vir quando alguém invadia a corrida dela, e ele não veio. Jon corria bem, não bonito, mas econômico, sem desperdício, o tipo de corrida de quem faz aquilo há tempo e não para impressionar.

"Você corre há quanto tempo?" ela perguntou, entre respirações.

"Desde os quinze. Mais ou menos."

"Por quê?"

Ele levou tempo para responder. Ela já estava se acostumando com o tempo dele, com o segundo a mais que ele sempre parecia precisar.

"É a única coisa que eu faço em que não penso." Ele disse isso do jeito que dizia tudo, sem dramatizar, como quem informa uma medida. "Na dança eu penso demais. Você viu. Correndo não dá pra pensar muito. Ou você corre ou você pensa. Escolhi correr."

Ana não respondeu na hora. Achou que era uma das coisas mais exatas que já tinham dito para ela sobre correr, e não quis estragar concordando rápido demais.

Chegaram à ponte velha. Ela sempre virava ali. Parou, mãos na cintura, recuperando o fôlego, e ele parou dois passos à frente, olhando a estrutura de ferro enferrujado como se estivesse calculando quando ela ia cair.

"Eu volto por aqui", ela disse. "Faço a volta."

"Eu vou reto. Moro pra lá."

"Então."

"Então."

Ele hesitou meio segundo, como quem procura a forma certa de encerrar alguma coisa que não tinha começado formalmente.

"Tchau, Ana."

"Tchau, Jon."

Ela virou e refez o caminho de sempre, e por uns bons minutos correu mais rápido do que costumava, sem reparar que estava correndo mais rápido.


Na quinta seguinte, na aula, nenhum dos dois mencionou o rio.

Ana explicou a roda para os dois alunos novos daquela semana e Jon entrou desde o começo, como Cláudio tinha determinado, e travou nos primeiros quarenta segundos e destravou nos seguintes. Dona Lúcia disse a ele, em voz baixa e conspiratória enquanto dançavam, que o segredo era não olhar para os pés, e ele respondeu que já tinha ouvido isso da professora, e Dona Lúcia disse que a professora estava certa, e ele disse que a professora costumava estar. Ana ouviu por acaso, passando, e não deu sinal de ter ouvido.


III. Sábado, de manhã

Cláudio fazia panqueca aos sábados.

Era a única coisa que ele cozinhava com vaidade. Durante a semana cozinhava por eficiência, mas no sábado havia ritual: a frigideira certa, a massa que descansava vinte minutos, o primeiro disco sempre malfeito e sempre comido por ele mesmo em pé, na bancada, "controle de qualidade", ele dizia, com a boca cheia.

Ana desceu quando o cheiro já tinha subido.

"O de controle de qualidade tá pronto?"

"Já comi. Reprovou. Tive que comer pra ninguém ver."

"Que dedicação."

"É um trabalho ingrato." Ele virou uma panqueca no ar, com desnecessária confiança, e acertou. Olhou para ela para ter certeza de que tinha visto. Ela tinha visto. "Você correu hoje?"

"Ontem. Hoje dormi."

"Milagre."

"Não enche."

Sentaram na bancada mesmo, sem pôr a mesa, o que só faziam aos sábados. Ele contou de um cliente novo, uma empresa de tecnologia que queria um evento de integração e que, pelo que ele tinha entendido da reunião, na verdade queria que os funcionários se odiassem menos, o que era uma meta mais honesta do que a maioria admitia. Ana riu. Ele imitou o gerente de recursos humanos, uma imitação péssima que ele sabia ser péssima e fazia mesmo assim, e ela riu mais.

"Você faz isso há vinte anos e ainda acha graça", ela disse.

"Se eu não achasse graça eu não fazia. A graça é o salário. O dinheiro é só o dinheiro."

Ela olhou para ele por cima da xícara. Havia manhãs em que ela o via como se fosse a primeira vez e outras em que o via como se fosse a última, e a maioria em que o via como o que ele era, o homem com quem ela tinha construído aquilo tudo, parede por parede. Naquela manhã era do terceiro tipo, a mais tranquila, a que não tinha nome porque não precisava.

"Sobrou massa", ele disse. "Faço mais dois. Um pra você, um de controle de qualidade."

"Você já reprovou um."

"Controle de qualidade é contínuo, Ana. Não é um evento isolado."

Ela jogou o guardanapo nele. Ele desviou. A panqueca queimou porque ele estava rindo e não olhando para a frigideira, e ficou combinado, sem que nenhum dos dois combinasse, que aquela seria a dele.


IV. A Segunda Vez Não Foi Combinada

Foi no sábado seguinte, e foi mais cedo, porque Ana tinha saído mais cedo, porque tinha dormido mal e o corpo pediu movimento antes do horário de sempre.

Ele já estava na ciclovia quando ela chegou.

Não na mureta desta vez. Correndo, no sentido contrário, e os dois se viram de longe, o tempo suficiente para que fingir não ver deixasse de ser uma opção civilizada. Ela ergueu a mão. Ele ergueu a mão. E então, porque estavam indo em sentidos opostos e isso era absurdo, ele fez a volta e passou a correr ao lado dela sem que precisassem dizer nada sobre isso.

"Você tá cedo", ele disse.

"Dormi mal."

"Por quê?"

Ela olhou para ele, meio de lado. Ninguém perguntava por quê. As pessoas diziam "ah, que chato" e seguiam. Ele perguntava por quê porque queria a informação, não a cortesia.

"Sei lá. Cabeça cheia. Acontece."

"Cheia de quê?"

"Jon."

"Tá. Desculpa."

"Não precisa desculpar. Você só pergunta muito."

"Eu sei. A Carla fala isso. Diz que eu interrogo em vez de conversar."

"A Carla tá certa."

"A Carla costuma estar." Uma pausa, e então, porque ele parecia genuinamente estar considerando: "Você e a Carla se conhecem faz tempo, né?"

"Uns três anos. Ela entrou pra turma da noite, some quando aperta na faculdade, volta quando afrouxa. Foi ela que marcou de eu te esperar naquela primeira terça."

"Foi ela que marca tudo. É um talento."

Ana riu tão de repente que perdeu o passo, e teve que dar dois passos rápidos para recuperar o ritmo, e xingou baixinho, e ele não sorriu mas alguma coisa no rosto dele fez o serviço de um sorriso.

Correram até a ponte. Desta vez, quando chegaram, ela não virou logo.

Ficaram os dois na mureta, olhando o rio, que tinha voltado a ser verde e lento. Ele contou, sem que ela pedisse, que tinha crescido perto de um rio maior, num lugar pequeno, e que o rio era a coisa de que ele mais sentia falta, mais do que das pessoas, o que ele reconhecia ser uma coisa esquisita de se admitir. Ana disse que não era esquisito. Ele perguntou se ela sentia falta de algum lugar. Ela pensou e disse que não, que sempre tinha morado ali, que o lugar dela era ali, e que às vezes achava que isso era uma sorte e às vezes achava que era uma falta de imaginação.

"Deve ser sorte", ele disse. "Ter um lugar."

Ela olhou para ele. Ia dizer alguma coisa e não disse.

"Preciso abrir o estúdio", disse em vez disso. "Turma de infantil às nove no sábado."

"Vai lá."

Ela correu de volta. Ele foi reto, para o lado dele.

Na altura do homem da banca, que já a cumprimentava de longe, ela percebeu que estava com fome de um jeito bom, o corpo funcionando, a cabeça mais leve do que quando saíra, e não fez a conta do porquê.


V. Carla

Carla voltou numa quinta, e voltou dançando, do jeito que ela fazia tudo, como se nunca tivesse parado.

Chegou atrasada, cumprimentou Ana com um abraço de quem tem intimidade de anos, reclamou que a faculdade tinha roubado dela um mês inteiro de vida e que só a volta ao estúdio conseguiria devolver, e entrou na roda já no meio, sem aquecimento, com a desenvoltura de quem dançava aquilo antes de Jon saber que forró existia.

Jon a viu e algo nele relaxou de um jeito que Ana notou sem procurar notar.

Na primeira palma que os aproximou, Carla assumiu a condução por brincadeira, o que era proibido pela lógica do forró e permitido pela lógica dela, e conduziu Jon por trinta segundos de puro deboche antes que a palma os separasse.

"Melhorou", ela disse, ofegante, no fim. "Antes você dançava que nem tábua. Agora é uma tábua com dúvidas."

"É evolução."

"É. A Ana faz milagre." Carla olhou para Ana do outro lado da roda, o olhar de aluna antiga que gosta da professora, e gritou por cima da música: "Ana, o que você fez com esse menino? Ele quase serve pra alguma coisa."

Ana, dançando com o Roberto, respondeu sem parar o passo: "O mérito é dele. Eu só apareci."

"Modéstia. Odeio isso em você."

Cláudio, que passava com a caixa de água, riu e disse que a Carla tinha razão, que a Ana era insuportavelmente modesta, e Carla disse que finalmente alguém naquela casa concordava com ela, e a coisa toda se dissolveu na música sem que ninguém precisasse levar adiante.

No fim da aula Carla sentou ao lado de Jon para amarrar o tênis e falou, mais baixo, do jeito que ela sabia falar baixo quando queria: "Você tá diferente."

"Cortei o cabelo."

"Não é o cabelo." Ela terminou o laço, olhou para ele, e por um segundo pareceu que ia dizer alguma coisa que estava vendo. Depois decidiu não dizer, ou decidiu não saber ainda, e o que saiu foi: "Sei lá. Você tá quase simpático. Deve ser o forró. Faz bem pra alma."

"Foi você que me obrigou."

"Eu sei. Cê tá me devendo. Me paga com um lanche depois da minha prova de segunda, que eu vou passar mal do mesmo jeito e vou precisar de companhia ruim."

"A pior que tem."

"Perfeito." Ela se levantou, gritou tchau para Ana e para Cláudio e para três pessoas que não sabiam o nome dela, e foi embora falando ao telefone com alguém antes mesmo de cruzar a porta.

Ana, que tinha ouvido metade da conversa enquanto ajustava a postura de uma aluna, guardou o essencial sem se perguntar por que guardava.


VI. O que Jon disse

Virou hábito da forma como as coisas viram hábito: sem ninguém decidir.

Não era todo sábado. Era quando calhava, e calhava com uma frequência que teria sido suspeita se algum dos dois tivesse feito a conta, e nenhum dos dois fazia a conta. Às vezes ele estava na mureta. Às vezes ela chegava e ele já estava na ciclovia. Uma vez ela foi e ele não estava, e ela correu a volta de sempre e reparou que a volta de sempre tinha ficado mais silenciosa, e não gostou de ter reparado, e correu mais rápido para não reparar mais.

Descobriram coisas pequenas.

Que ele não tomava café, o que para ela era quase uma falha de caráter. Que ela odiava a subida antes da ponte e xingava toda vez, sempre a mesma palavra, e que ele passou a esperar a palavra e a acionar um cronômetro mental do quanto ela demorava para dizê-la. Que ele sabia o nome científico de meia dúzia de pássaros do rio e nenhum nome popular, o que ela achou a coisa mais Jon que uma pessoa podia fazer. Que ela corria pior nos dias em que estava irritada e melhor nos dias em que estava triste, e que ele reparou nisso antes dela e teve o bom senso de não dizer.

Uma manhã ele chegou com uma bituca de conversa já pela metade, do jeito de quem continua em voz alta um pensamento que vinha tendo sozinho.

"Setenta e dois", ele disse.

"Setenta e dois o quê."

"Segundos. A subida. Ontem você fez em oitenta e um. Você tá melhorando ou tava com menos raiva."

"Você cronometra a minha subida?"

"Cronometro tudo. É um defeito."

Ela quis ficar irritada e não conseguiu. "Você é uma pessoa muito estranha, Jon."

"Eu sei." Ele disse isso sem peso nenhum, como quem confirma o horário. "Você é a terceira pessoa que fala isso essa semana."

"Quem foram as outras duas?"

"A Carla e a minha mãe."

"Boa companhia."

"A melhor que eu tenho." E correu na frente antes que a frase pousasse, e ela deixou que ele corresse na frente, e não pensou mais nisso naquele dia, embora a frase tivesse pousado assim mesmo.


Foi Cláudio quem trouxe o assunto para dentro, sem querer, do jeito mais banal possível.

Era um sábado à tarde, depois da corrida da manhã. Jon tinha vindo buscar uma apostila de passos que Cláudio andava montando para os alunos, coisa que ele agora fazia sem o mesmo peso de antes, entrar no estúdio fora de horário. Cláudio estava no computador da recepção, mexendo numa planilha de horários, e puxou conversa do jeito dele, largo, sem destino.

"Você mora pra que lado mesmo?"

"Pro lado do rio. Perto da ponte velha."

"Ah, então você conhece a marginal. Boa pra caminhar."

"Pra correr. Eu corro ali."

"A Ana corre ali."

"Eu sei." Jon disse isso pegando a apostila, sem levantar os olhos dela, com a naturalidade de quem menciona o clima. "A gente cruza às vezes. Corre junto um pedaço, até a ponte. Ela vira ali, eu sigo reto."

Ana estava na porta da salinha lateral, com uma pilha de colchonetes do infantil nos braços, e o comentário a alcançou no meio do caminho entre uma coisa e outra.

"Umas vezes", ela disse. "É o mesmo horário, sabe como é."

Cláudio olhou para ela.

"O rio é de todo mundo", ela acrescentou, e largou os colchonetes na pilha com um pouco mais de força do que a pilha pedia, e já estava dizendo, "Jon, a apostila tá completa? Faltava a página dos giros", numa frase que chegou rápido demais e ocupou o espaço todo que havia.

"Tá completa", disse Jon.

"Ótimo."

Cláudio ficou um instante com os olhos nela. Meio segundo, talvez, o tempo de uma tecla não apertada. Depois voltou-se para a planilha.

"Marginal é boa mesmo", disse, para ninguém em particular, ajustando uma coluna de horários. "Eu devia voltar a caminhar. O joelho não deixa correr mais." Rolou a tela. "Jon, semana que vem a turma muda pra sete e meia, tá vendo aqui? Anota aí pra não vir no escuro."

E a conversa seguiu para o horário, e para o joelho de Cláudio, e para a apostila, e Jon foi embora com ela debaixo do braço, e Ana levou os colchonetes para dentro.

Cláudio ficou na planilha mais um tempo do que a planilha exigia.

Thoughts

  • DILMAR

    Gostei demais disso. Do jeito que você tira todo o drama fora e deixa só o verdadeiro.

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  • Anisio

    Quando a gente escolhe o caminho, escolhe junto com ele a hora certa de falar. Eles já sabem que sabem, agora é só questão de tempo.

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  • AlineTeixeira

    Sou assim também, cronometrando as coisas que não importa ninguém cronometrar. E quando reconheço que alguém reparou o mesmo detalhe que eu, é tipo achar a pessoa errada no lugar certo.

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  • vqueiroz90

    Tem coisa de ritmo nisso que você escreve. Eles correndo fora de sincronia mas conseguindo seguir um ao outro. É tipo aquilo que a gente lê mas não consegue descrever.

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  • tresPaginas

    Aquele silêncio deles na mureta é ouro puro. A hora em que não precisa fingir.

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  • Ovid

    Esse capítulo pega aquela coisa: quando duas pessoas percebem que estão no mesmo ritmo, fazendo a mesma coisa, e aquela hora exata em que deixa de ser coincidência pra virar escolha. A corrida, a conversa, Cláudio vendo tudo sem dizer nada. Você entrega bem o momento em que a gente perde a capacidade de fingir. Tem mais capítulos vindo?

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  • tmoreira93

    Sim, isso 💯

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