A vida é uma coisa e tal.
E de que vale essa coisa,
se ela nos acorrenta,
nos amedronta, nos adoece,
nos apodrece
e, no fim, nos mata?
A paz é tão abstrata e ilusória quanto a própria vida.
Talvez só os monges budistas merecessem o direito de viver —
eles que, ainda acorrentados,
gastam seus dias sob as montanhas,
meditando,
ano após ano,
até encontrar algum sentido.
E que sentido encontram?
A espera da morte?
Pergunto a Deus quem me deu
esse direito penumbroso de viver —
sequer o pedi,
sequer o desejei.
E por que permanecer neste lugar,
se tudo o que tenho são dores,
lágrimas
e cortes espalhados pelo corpo?
Nesta encarnação, pergunto o que fui na anterior
para merecer tal sofrimento.
O que fiz de tão ruim
para viver acorrentada —
não apenas nas correntes,
mas no pior cerco de espinhos venenosos
que eu poderia encontrar?
Quem fui na vida passada
para, nesta, não merecer um único dia de paz?
Os meus dias passam como flashes,
lampejos dentro da mente,
onde nem uma tarde com amigos
consigo realmente aproveitar.
A vida é uma coisa e tal.
E essa coisa é como um bebê num útero que eu nunca desejei,
sangrando pétalas por entre minhas pernas.
Queria que ela se esvaísse, que fosse embora.
Desejo já ter vivido metade da minha vida.
Desejo que, quando eu for embora,
ao menos não sofra —
pois já sofri o suficiente
nesta coisa chamada vida.
Mas essa coisa me aprisiona
numa jaula mental
onde sequer consigo enxergar
o próximo passo.
Apenas repito tudo o que sou,
tudo o que faço —
um vai e vem infinito,
como um corvo repetindo
a única frase que aprendeu.
E o que aprendi desta vida?
Dormir, acordar,
tomar um copo de leite ou de café,
trabalhar, me exaurir,
e dormir novamente.
A vida é uma coisa e tal,
e dessa coisa eu queria me livrar
o quanto antes.
Mas olho para minha estante e me pergunto:
Quantos livros deixarei de ler?
Quantas músicas deixarei de ouvir?
Quantos filmes deixarei de assistir?
E quantas pessoas deixarei de ser —
aquelas que, ao menos,
não despertam todo dia dentro desse sofrimento,
aquelas mergulhadas em ignorância tão profunda
que não percebem
o quão trágica a vida é.
Sylvia, uma vez, se perguntou
quantas pessoas gostaria de ser
e jamais seria;
quantos livros gostaria de ler
e jamais leria.
E quanto tempo eu teria de passar
dentro dessa coisa
para me sentir completa —
se minha mente, essa mente estúpida e doente,
não consegue lembrar
as palavras do último livro que leu?
Mas fica a saudade.
Saudade de Esther,
saudade da Redoma de Vidro.
Saudade de Lady Lazarus,
de quem não lembro sequer uma frase
e preciso reler
todas as noites
antes de dormir.
Saudade dos meus próprios escritos,
dos quais nem sei o que está no papel.
Pois esta mente — a minha mente doente —
mal consegue se manter de pé.
Que coisa é a vida —
tão desgraçada, tão desgraçável, tão triste —
que sequer pode nos dar
um segundo de paz?