Não sei explicar a sensação que sinto quando o clima começa a nublar.
Algo se contorce por dentro, como se quisesse sair de mim, como se alguma coisa antiga reconhecesse naquele céu uma espécie de chamado que eu não sei responder.
Me sinto pequeno.
E ser pequeno dói.
Me sinto quase inútil.
E ser quase inútil dói.
O céu me olha como se esperasse que eu finalmente fosse capaz de entender alguma coisa. Como se aquelas nuvens carregadas soubessem de mim mais do que eu mesmo, e estivessem apenas esperando que eu alcançasse alguma conclusão que parece tão óbvia para todo o resto do mundo.
Sinto o julgamento das nuvens densas e cinzentas, como se eu tivesse a obrigação de compreender tudo o que acontece dentro de mim. Como se sentir não fosse suficiente. Como se toda confusão precisasse, necessariamente, transformar-se em resposta.
E eu não tenho respostas.
Tenho apenas essa sensação estranha de estar no lugar errado, olhando para o lugar onde alguma parte de mim gostaria de estar.
Dói.
Dói olhar para o céu e saber que meus pés são fixos no chão.
Dói perceber que existe um espaço inteiro acima de mim que posso observar, imaginar, desejar, mas não posso simplesmente alcançar.
Dói sentir as nuvens passando por minhas mãos, mesmo sem que elas realmente estejam ali, como se em outra vida eu tivesse pertencido àquele lugar.
Como se, por algum erro que não consigo lembrar, eu tivesse caído.
E agora tudo o que me resta é olhar para cima e tentar entender por que o céu ainda parece mais familiar do que o chão.