O fundo do poço não é o que dizem, ele não é impacto. É demora.
Não, você não encontra a Samara lá, só a vergonha da existência que você não consegue encarar.
Mas a demora da queda não quebra, ela dilui.
A cada metro que desço, uma versão minha se solta e fica boiando lá em cima, encarando o céu como se tivesse morrido... mas sigo, ainda inteiro de uma forma torta, carregando todos os meus nomes secretos pendurados nas costelas. Em algumas descidas sou incapaz de sentir qualquer coisa, acredito que os antidepressivos têm um papel importante nessas sensações. A apatia é um dos piores sentimentos, porque não pertence a você e nesse momento você não pertence a nada. Como explicar que o vazio dói de uma maneira estranha?
Aqui embaixo, tudo é azul escuro, um azul que pensa, que julga. As paredes respiram. A água me reconhece, cada bolha que escapa da minha boca é um pensamento que não suportou existir.
Não existe som, o silêncio é um animal antigo. Ele rodeia, lento, curioso, sentindo meu cheiro de culpa e memória. E eu deixo, eu sempre deixo. Porque, no fundo, sempre achei que merecia ser devorado por algo maior do que eu, seja o universo, Deus ou qualquer sentimento que eu não saiba explicar.
Mas nem isso acontece.
Não há dentes.
Não há juízo final.
Só permanência.
E isso é mais cruel que qualquer punição.
O corpo aprende a ficar parado, não lutar, economizar vontade, não nomear desejos. O peito aperta não pela falta de ar mas, pela quantidade de lembranças que tentam emergir ao mesmo tempo.
Elas se batem, se atropelam, fazem ruído dentro da água, mesmo sem som.
Eu vejo rostos se dissolvendo, frases se desfazendo como tinta, mãos que já foram abrigo viram sombras alongadas, irreconhecíveis, amor vira ruído branco, incômodo.
E, no meio de tudo, eu.
Suspenso.
Não vivo o bastante para voltar nem morto o suficiente para ir.
Uma existência em modo espera.
Uma coisa patética entre a luz e a sombra, entre um relâmpago e outro.
Se isso é o inferno, ele é decepcionantemente calmo. Porém, talvez seja exatamente por isso que ele funciona.
Então eu fico.
Não porque quero...
Mas porque ainda estou aqui.
Não há batalhas, nem tentativas.
Mas existir, mesmo nesse fundo, mesmo sem nada, ainda é um ato indecente de resistência.
Certo?