Contar essa história toda pra quem nunca vai responder... é tipo aqueles atendimentos que você faz falando sozinha no espelho enquanto passa a tinta.
Carta de uma freira apaixonada (Mariana Alcoforado)
Durante meses, Mariana Alvorada viveu entre os muros do convento carregando no peito um amor que acreditava ser correspondido. Tudo começou com encontros escondidos, olhares trocados pela janela e…
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Pensamento
Contar essa história toda pra quem nunca vai responder... é tipo aqueles atendimentos que você faz falando sozinha no espelho enquanto passa a tinta.
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Durante meses, Mariana Alcoforado viveu entre os muros do convento carregando no peito um amor que acreditava ser correspondido. Tudo começou com encontros escondidos, olhares trocados pela janela e longas conversas em um jardim onde, por alguns instantes, ela esquecia que o mundo existia além daqueles muros.
Ele partiu de Portugal prometendo que voltaria para buscá-la. Mariana acreditou em cada promessa e esperou. Esperou pelos dias que passavam, pelas noites que pareciam nunca terminar e pelo momento em que ouviria novamente seus passos.
Mas o tempo passou e ele não voltou.
Certa noite, uma carta finalmente chegou ao convento. Mariana recebeu o envelope com as mãos trêmulas, acreditando que finalmente encontraria nele a promessa de seu retorno. Talvez ele dissesse que voltaria. Talvez ainda a amasse.
Mas não era uma carta de reencontro.
Era uma despedida.
Nela, ele dizia que não retornaria a Portugal para buscá-la e que Mariana havia se iludido com o amor dos dois. Sozinha em sua cela, com a carta entre as mãos, Mariana leu aquelas palavras até que já não conseguisse distinguir a tinta das lágrimas que caíam sobre o papel.
Foi então que, naquela noite silenciosa, Mariana decidiu responder pela última vez:
Portugal, 15 abril de 1668
Meu amado,
quando recebestes esta carta, imaginei que vós voltaríeis a mim, a amar-me com todo o vosso coração. Mas, ao romper o selo daquela carta, meu coração desfez-se por inteiro. Lia e relia cada verso sem conseguir acreditar que tudo aquilo era realidade. A cada palavra que tu me escrevestes com tua própria letra, minha alma se despedaçava, e minhas esperanças partiam como a chuva que desaparece no início do verão.
Enquanto lia, até mesmo as tuas letras amarguravam meu coração, deixando em mim um profundo pudor. Minha cólera inflamava-se contra ti, mas eu recusava-me a acreditar que tudo aquilo pudesse ser verdade. Reli tua carta inúmeras vezes, negando-me a aceitar que o amor tão profundo que senti tivesse sido em vão.
Vós ainda me dissestes que me iludi com nosso amor, mas eu pensava que, cada vez que tu me olhavas, teu amor por mim aumentava. Meu coração dói ao saber que partiste prometendo voltar, prometendo amar-me, e, ainda assim, abandonaste-me. Com uma condescendente frieza, disseste que meu coração havia se enganado, como se todo o amor que vivi ao teu lado não passasse de um simples devaneio.
Mas não importa tudo o que disseste. Continuarei a amar-te com toda a intensidade do meu coração. Antes de dormir, lembro-me de todas as vezes em que nos encontramos naquele jardim. Lembro-me da primeira vez em que te vi da janela do meu convento e tento convencer-me de que tudo o que me escreveste foi apenas um sonho. Em silenciosa contemplação, volto a cada lembrança, tentando encontrar nelas algum sinal de que ainda existe amor em teu coração.
Eu, que acreditava que vós não seríeis um amor passageiro, pois fostes o único amor verdadeiro que conheci. A redamância que julgava existir entre nós era tão forte dentro de mim que jamais imaginei que pudesse terminar dessa maneira.
Mas tu me abandonaste e deixaste-me sozinha neste convento. Olho para o céu ao anoitecer e pergunto-me se a distância que nos separa é tão grande quanto a distância entre o Sol e a Lua.
Só de pensar que me abandonaste e me deixaste sozinha com minhas esperanças, faz-me pensar que talvez eu tenha amado por nós dois. Talvez meu coração tenha carregado um amor que o teu jamais foi capaz de sustentar. E, ainda assim, meu peito recusa-se a esquecer-te. Meu coração dilacerado continua preso às promessas que fizeste com tanta veemência, enquanto esta dor visceral consome lentamente a minha alma.
Mesmo assim, tento ser complacente com a tua partida, embora dentro de mim nasça uma dolorosa metanoia, pois começo a compreender que o amor nem sempre permanece ao lado daqueles que o sentem mais profundamente.
Se algum dia teus olhos voltarem a contemplar o céu noturno, peço-te que te lembres de mim. Lembra-te da mulher que te esperou, da mulher que chorou por ti e que continuará a amar-te, mesmo sabendo que jamais voltarás.
Porque, ainda que tenhas partido, levaste contigo a melhor parte de mim, e desde a tua partida sinto que apenas meu corpo permaneceu neste convento, pois minha alma partiu contigo naquele mesmo instante. E, quando meus olhos se fecharem pela última vez, tenho medo de que a última lembrança que levarei deste mundo seja o amor que senti por ti e que jamais deixou de viver dentro de mim.
Mariana Alcoforado
Thoughts
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PermalinkSe o cara respondesse agora, depois de tudo, ela ainda queria?
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PermalinkLendo aquela parte da carta dele, qualquer um descobre que tava mentindo desde o começo. Como ela não viu?
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Permalinktrês páginas por noite e ia levar mês pra terminar isto tudo. vinha todos os dias chorar só um pouco, sabe como é.
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PermalinkDepois de tomar um fora daquele jeito, como ela continua chamando ele de 'meu amado'? Nunca fica esse medo da gente tá sendo ignorado de propósito?
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PermalinkEla ficou sozinha no convento esperando. E se ele tivesse voltado? Ou ela tinha aceitado que nunca ia ter resposta?
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PermalinkContar essa história toda pra quem nunca vai responder... é tipo aqueles atendimentos que você faz falando sozinha no espelho enquanto passa a tinta.
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PermalinkParei aqui: 'tentando encontrar nelas algum sinal de que ainda existe amor em teu coração'. Fui dormir e voltei.
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PermalinkNão conhecia essa Mariana Alvorada. É tipo uma história verdadeira que virou romance, ou é tudo ficção mesmo?
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PermalinkAquela parte onde ela diz que talvez tenha amado por nós dois... eu leio isso deitado com as cadeiras viradas pra cima, e ninguém vê nada.
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