No verão de 1911, seis homens desapareceram durante uma expedição científica a uma formação rochosa esquecida no extremo norte da Sibéria.
Os documentos oficiais afirmam que morreram soterrados por uma avalanche.
As cartas encontradas décadas depois contam outra história.
O professor Viktor Andreyev acreditava que toda montanha possuía uma memória.
Geólogo respeitado, dizia que as camadas de pedra eram como páginas comprimidas do universo, registrando eventos muito anteriores à humanidade.
Foi essa obsessão que o levou até a Montanha da Beluga.
O nome era estranho.
Não havia baleias ali.
Os povos nativos insistiam que o nome não se referia ao animal, mas à cor de algo que um dia repousara sobre o pico.
Ninguém explicava o quê.
Quando perguntados, apenas desviavam o olhar.
Um velho caçador resumiu:
— A montanha sonha. Não subam quando ela estiver acordada.
Os seis homens riram.
A subida começou em um céu perfeitamente limpo.
No primeiro dia encontraram fósseis impossíveis.
Não eram de plantas.
Nem de peixes.
Nem de qualquer criatura conhecida.
Pareciam nervos fossilizados.
Filamentos de pedra que ainda conservavam uma delicada organização, como se pertencessem ao cérebro de algo grande demais para receber um nome.
Viktor escreveu em seu diário:
"As formações parecem orgânicas.
Não consigo afastar a impressão de que estou observando tecido vivo petrificado."
Na segunda noite...
Nenhum deles conseguiu dormir.
Todos ouviram o mesmo som.
Não vinha do vento.
Nem da neve.
Era semelhante ao de uma baleia cantando.
Mas profundamente grave.
Como se cada nota atravessasse quilômetros de pedra antes de alcançar seus ouvidos.
O médico Pavel concluiu que o eco da montanha estava produzindo ilusões auditivas.
Mesmo assim...
Na manhã seguinte descobriram que todos haviam desenhado exatamente a mesma espiral durante a madrugada.
Nenhum lembrava de tê-la desenhado.
Quanto mais subiam...
Mais difícil se tornava recordar coisas simples.
Um deles esqueceu o próprio nome.
Outro passou horas tentando entender para que serviam as mãos.
O cozinheiro perguntou, seriamente:
— O que significa "fome"?
Viktor registrou tudo.
Jamais cogitou voltar.
A montanha não parecia destruir memórias.
Parecia devolvê-las a algum lugar.
No quarto dia encontraram uma parede lisa de pedra branca.
Perfeitamente polida.
Sem rachaduras.
Sem marcas do tempo.
No centro havia uma depressão semelhante à órbita vazia de um olho.
Quando Viktor aproximou a lanterna...
A pedra piscou.
Muito lentamente.
Como uma criatura despertando após milhões de anos.
Ninguém falou.
Todos sentiram uma pressão esmagadora dentro da cabeça.
Então ouviram uma frase.
Não pelos ouvidos.
Mas diretamente nos pensamentos.
"Ainda existem?"
Era uma voz antiga.
Não havia surpresa.
Apenas uma curiosidade distante.
Como um homem encontrando formigas em uma casa abandonada.
Pavel disparou contra a parede.
A bala nunca atingiu a rocha.
Ela simplesmente desapareceu no ar.
Não ricocheteou.
Não fez barulho.
A realidade pareceu esquecer que a bala existira.
O revólver agora tinha apenas cinco cartuchos.
Como se jamais tivesse sido carregado com seis.
Naquela noite...
As estrelas mudaram.
Não de posição.
De significado.
Os homens passaram horas olhando para o céu.
Depois começaram a chorar.
Viktor escreveu apenas uma frase.
"Sempre pensamos que observávamos o universo.
Descobrimos que éramos observados."
Na manhã seguinte...
O guia havia desaparecido.
Nenhum rastro.
Nenhuma pegada.
Nenhum sinal de luta.
Somente suas roupas dobradas sobre a neve.
Dentro do bolso encontraram um bilhete.
A letra era dele.
Mas a tinta ainda estava molhada.
"Eu nunca nasci."
Todos se lembravam do guia.
Sabiam seu rosto.
Sua voz.
Mas não conseguiam lembrar seu nome.
Era como tentar recordar um sonho esquecido.
Restavam cinco homens.
Ou quatro.
Eles já não tinham certeza.
As mochilas mudavam de quantidade sempre que alguém as contava.
As pegadas na neve ora eram seis.
Ora três.
Ora apenas uma.
O tempo deixara de obedecer à matemática.
No cume havia um lago.
Imóvel.
Negro.
Apesar do frio extremo, sua superfície permanecia líquida.
Não refletia o céu.
Refletia outro lugar.
Viktor aproximou-se.
Na água viu uma cidade impossível.
Torres feitas de ossos de luz.
Oceanos suspensos.
Constelações crescendo como árvores.
E criaturas gigantescas deslizando entre elas.
Não caminhavam.
Pensavam.
E cada pensamento alterava a arquitetura do cosmos.
Uma delas voltou-se para ele.
Não possuía rosto.
Mesmo assim...
Viktor soube que estava sorrindo.
Então compreendeu.
A Montanha da Beluga não era uma montanha.
Era apenas a ponta visível de algo enterrado sob o planeta.
Algo tão antigo que a própria Terra crescera ao seu redor.
Os povos antigos nunca a adoraram.
Nunca lhe ofereceram sacrifícios.
Nunca construíram templos.
Fizeram algo muito mais sensato.
Esqueceram.
Esqueceram deliberadamente.
Transformaram sua localização em lendas.
Mudaram mapas.
Inventaram nomes.
Mataram idiomas inteiros.
Tudo para impedir que alguém voltasse a pensar nela.
Porque pensar...
Era suficiente.
Os últimos registros do diário tornam-se ilegíveis.
As palavras começam a perder coerência.
Frases interrompidas.
Letras invertidas.
Símbolos desconhecidos.
A última página contém apenas isto:
"Ela não está sob a montanha.
A montanha está sobre ela.
Ela sonha.
E nós somos os sonhos pequenos."
Em 1956, uma equipe soviética encontrou o antigo acampamento.
Não havia corpos.
Nem equipamentos.
Apenas o diário.
Os geólogos registraram um detalhe curioso.
No topo da Montanha da Beluga não existia lago algum.
Nunca existira.
As formações descritas por Viktor também não estavam lá.
A expedição foi encerrada.
Os documentos receberam classificação militar.
Até hoje, os habitantes da região evitam olhar para o cume durante as noites de inverno.
Dizem que, às vezes, é possível ouvir o canto de uma baleia vindo das pedras.
E que, se alguém escutar atentamente, perceberá algo pior escondido entre as notas.
Uma voz.
Muito antiga.
Muito paciente.
Perguntando novamente, como se incontáveis eras tivessem passado desde a última tentativa:
"Ainda existem?"