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CAPÍTULO XI — OS CINCO E O SILÊNCIO Sensível

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Pensamento

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paginadobrada

Fiquei com o Orkhan, que perdeu três filhos e ainda assim foi quem disse que era demais. O Ninjha respondendo aquilo dos mais fortes me deu raiva. O Subotai chega vivo no próximo?

Fiquei com o Orkhan, que perdeu três filhos e ainda assim foi quem disse que era demais. O Ninjha respondendo aquilo dos mais fortes me deu raiva. O Subotai chega vivo no próximo?

Conteúdo da publicação

“Entre cinco vozes que riam e gritavam, havia um silêncio que já carregava o peso de séculos.”

Ninjha caminhava entre as fileiras mongóis como uma sombra que não precisava de nome. Aos cento e sessenta e dois anos de vida real, seu corpo aparentava pouco mais de trinta e cinco. Ele não procurava amigos, mas, no longo caminho desde as estepes até as margens do Tigre, cinco homens acabaram andando ao seu lado com frequência suficiente para serem chamados de grupo.

Eram eles:

Khorchi, o arqueiro de olhos rápidos, sempre contando piadas sujas para espantar o tédio.

Temur, o gigante de ombros largos, que quebrava crânios com um machado como se partisse papel.

Subotai, o mais jovem, ainda com fogo nos olhos, que sonhava com glória.

Jelme, o batedor quieto, que via perigo onde os outros só viam poeira.

Orkhan, o mais velho do quinteto, que já tinha perdido três filhos em batalhas anteriores e carregava um ódio frio contra qualquer cidade murada.

Ninjha era o sexto. Ele ouvia as conversas deles ao redor da fogueira, mas raramente respondia. Quando falava, era curto, direto, sem emoção:

“Avançar.”

“Eles vão romper os diques.”

“Fiquem vivos.”

Os cinco respeitavam aquele silêncio. Chamavam-no de “o Imortal” pelas costas, ninguém sabia quantos invernos ele já tinha visto, mas todos sentiam que Ninjha não lutava pela mesma razão que eles.

Em janeiro de 1258, o exército de Hulagu Khan fechou o cerco sobre Bagdá como uma armadilha geográfica perfeita.

Os mongóis dividiram-se em pinça. Ninjha e seu grupo foram posicionados na margem oriental, sob o comando direto de Hulagu e do general Kitbuqa. Do outro lado do Tigre, as colunas de Baiju e Su’unchaq desceram pelo oeste, cortando qualquer possibilidade de reforço ou fuga.

Primeiro veio a engenharia. Em poucos dias, os mongóis ergueram uma paliçada completa ao redor da cidade e cavaram um fosso profundo. Centenas de catapultas e trabucos foram montados, especialmente apontados para a Torre Ajami, o ponto mais fraco das muralhas. Ninjha ajudava a carregar pedras sem reclamar. Quando Khorchi tentava brincar: “Ei, Imortal, vai sorrir quando a cidade cair?”, Ninjha apenas respondia:

“Não.”

A emboscada da água foi o golpe mais cruel.

Quando o exército do Califa, cerca de vinte mil cavaleiros, saiu em campo aberto para enfrentar os mongóis, Hulagu ordenou recuo estratégico. Os árabes celebraram como se tivessem vencido. Foi então que os engenheiros mongóis romperam os diques do Tigre e do canal de Anbar. A planície virou um lamaçal mortal. Homens e cavalos afundaram, gritando. A cavalaria mongol voltou e massacrou quem tentava escapar. Ninjha lutava no meio da lama, a espada movia-se com precisão fria. Ele não comemorava. Apenas cortava.

Temur ria alto enquanto esmagava crânios. Subotai gritava de excitação. Ninjha apenas limpava o sangue da lâmina e dizia:

“Próximo.”

Em 4 de fevereiro, os mongóis controlavam a muralha oriental. As catapultas abriram brechas. As tropas foram organizadas em unidades decimais, grupos de mil e dez mil, para invadir bairro por bairro.

O massacre durou uma semana.

Ninjha e os cinco entraram na cidade junto com as ondas de soldados. O cheiro de morte logo se tornou insuportável. Hulagu precisou mover seu acampamento contra o vento porque o fedor dos corpos apodrecendo ameaçava adoecer suas próprias tropas.

Khorchi, que sempre falava demais, ficou em silêncio ao ver pilhas de corpos nas ruas. Temur parou de rir quando entraram na Casa da Sabedoria. Milhares de manuscritos antigos foram jogados no Tigre. O rio ficou negro de tinta por dias, tanto que os cavalos caminhavam sobre camadas de livros afogados.

Ninjha caminhava entre os destroços sem expressão. Quando Orkhan, com a voz rouca, murmurou:

“Isso… isso é demais até para nós.”

Ninjha respondeu apenas:

“Que sobrevivam os mais fortes.”

Os cristãos foram a única exceção. A esposa de Hulagu, Doquz Khatun, intercedeu. Suas igrejas foram poupadas enquanto mesquitas e palácios queimavam.

No final do saque, enquanto os cinco dividiam ouro e joias roubadas ao redor de uma fogueira, Ninjha sentou-se afastado, limpando a espada em silêncio.

Subotai, ainda com sangue seco no rosto, perguntou:

“E você, Imortal? Não pega nada? Nem uma lembrança dessa cidade que era a mais rica do mundo?”

Ninjha olhou para as chamas por um momento. Sua voz saiu baixa, quase inaudível:

“Já vi cidades caírem. Nada resta. Só a força.”

Os cinco se entreolharam. Jelme, o batedor, assentiu devagar. Eles sabiam que Ninjha não lutava por riqueza, nem por glória, nem por vingança.

Ele lutava apenas para continuar existindo.

E Bagdá, a joia do mundo, agora era apenas mais uma pilha de cinzas e ossos no caminho de Ninjha rumo ao que quer que viesse depois.

Thoughts

  • sofadasala

    Os livros no rio 😶

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  • tresPaginas

    Acabei o capítulo de uma vez, o que nunca me acontece. O Imortal com cento e sessenta e dois anos só pode ser o Alp de nome trocado.

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  • Ovid

    Os cavalos andando por cima dos livros afogados no Tigre me fizeram pensar em quanta coisa se perdeu ali que ninguém nunca vai saber que existiu. Aposto que o Ninjha guarda essa cidade muito mais do que admite pro Subotai, mesmo dizendo que nada resta. Dá pra ver que ele já perdeu coisa demais pra querer carregar lembrança.

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  • paginadobrada

    Fiquei com o Orkhan, que perdeu três filhos e ainda assim foi quem disse que era demais. O Ninjha respondendo aquilo dos mais fortes me deu raiva. O Subotai chega vivo no próximo?

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“Entre cinco vozes que riam e gritavam, havia um silêncio que já carregava o peso de séculos.”

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