aquele momento em que ela diz 'eu sempre fui livre' indo embora - foi escolha ou foi só aceitação do que ia vir? porque parecia dos dois tipos ao mesmo tempo.
Capítulo V — As Últimas Rosas da Lapa
A música fazia o cabaré inteiro respirar no mesmo compasso.
In groups
Pensamento
aquele momento em que ela diz 'eu sempre fui livre' indo embora - foi escolha ou foi só aceitação do que ia vir? porque parecia dos dois tipos ao mesmo tempo.
Conteúdo da publicação
A música fazia o cabaré inteiro respirar no mesmo compasso.
Os musicos tocavam um maxixe vibrante, enquanto o salão girava entre risos, fumaça de cigarros e o brilho dourado do champanhe. As cortinas de veludo balançavam com o calor da multidão, e as velas espalhavam sombras que pareciam dançar nas paredes.
Mimi surgiu no centro do salão.
Vestia um longo vestido vermelho que acompanhava cada movimento de seu corpo como uma chama viva. Nos cabelos, uma única rosa escarlate.
Todos silenciaram.
Então um capoeira aproximou-se. Era conhecido na Lapa pela elegância dos movimentos e pelo sorriso fácil.
Ele fez uma reverência.
Mimi aceitou a dança.
Os dois começaram a girar pelo salão.
Não havia vulgaridade em seus gestos.
Havia liberdade.
Ela dançava como quem nunca pertencera a ninguém.
Ria.
Rodopiava.
Os pés pareciam não tocar o chão.
Era a própria alma da Lapa transformada em mulher.
Num canto do salão, Pessanha observava.
No início sorriu.
Depois o sorriso desapareceu.
Cada volta daquela dança fazia crescer dentro dele a mesma sombra anunciada pela Pombagira.
Os aplausos da multidão soavam como insultos.
Quando o capoeira segurou delicadamente a mão de Mimi para conduzi-la ao último giro, Pessanha avançou.
O salão mergulhou no silêncio.
— Solte-a.
A voz era baixa, mas carregava a fúria de um homem que já perdera a razão.
O capoeira recuou um passo.
— Ela não pertence a mim... nem a você.
As palavras incendiaram Pessanha.
Num instante, os dois sacaram os punhais.
As mesas foram empurradas.
As mulheres correram.
Os músicos abandonaram os instrumentos.
Madame Satã levantou-se de um salto.
— Basta!
Mas já era tarde.
As lâminas reluziam sob a luz das velas.
Os dois homens se enfrentavam como se toda a Lapa dependesse daquele duelo.
Mimi correu em direção a eles.
— Parem!
Nenhum dos dois ouviu.
Num movimento rápido, o capoeira tentou aparar um golpe de Pessanha. O punhal escapou de sua mão e avançou na direção do peito de Pessanha.
Mimi viu.
Num único impulso, colocou-se entre os dois.
O aço encontrou seu corpo.
O tempo parou.
O vestido vermelho tornou-se ainda mais escarlate.
Pessanha deixou o punhal cair.
Segurou Mimi antes que ela tocasse o chão.
Ela sorriu com enorme serenidade.
Como se finalmente tivesse encontrado o descanso que procurava.
Com a mão já enfraquecida, acariciou o rosto dele.
— Miguel...
Fazia muitos meses que ninguém pronunciava aquele nome.
Lágrimas escorreram pelo rosto do homem que a Lapa conhecia como Pessanha.
— Me perdoe...
Ela respirou com dificuldade.
— Eu... sempre fui livre...
E quero... que você também seja...
Seus dedos afrouxaram lentamente.
A rosa presa aos cabelos caiu sobre o peito.
E Mimi partiu.
O cabaré inteiro permaneceu em absoluto silêncio.
Nem mesmo a música ousou voltar.
Sem dizer uma palavra, Pessanha tomou o corpo de Mimi nos braços.
Saiu caminhando pela Lapa.
Ninguém tentou impedi-lo.
As pedras antigas pareciam reverenciar aquela última procissão de amor e tristeza.
Chegou ao quarto onde tudo havia começado.
As velas ainda estavam acesas.
As rosas continuavam perfumando o ambiente.
A renda negra dançava suavemente ao vento da madrugada.
Deitou Mimi sobre a cama de pétalas.
Beijou-lhe a testa.
Sentou-se ao seu lado.
Permaneceu ali por longo tempo, ouvindo apenas o mar ao longe.
Então compreendeu que não existia mais mundo sem ela.
Pegou o pequeno punhal que tantas vezes carregara à cintura.
Olhou uma última vez para o rosto sereno de Mimi.
Sorriu entre as lágrimas.
— Espere por mim.
Quando o sol nasceu sobre o Rio de Janeiro, o quarto permanecia silencioso.
Entre velas consumidas, rosas espalhadas e a luz da manhã, dois amantes repousavam lado a lado.
Muitos anos depois, a Lapa já era outra.
Os antigos cabarés fechavam suas portas.
As canções mudavam.
As pessoas também.
Numa tarde de inverno, Madame Satã caminhava sozinho pelas ruas onde vivera tantas histórias.
Ao passar diante do velho casarão abandonado, parou por um instante.
A janela do antigo quarto de Mimi estava aberta.
Lá dentro, por um breve momento, viu uma jovem sorrindo.
Vestia vermelho.
Trazia rosas nos cabelos.
Ao seu lado estava um rapaz de camisa aberta, chapéu inclinado sobre os olhos e um sorriso tranquilo que já não carregava dor.
Os dois olharam em sua direção.
Deram as mãos.
E desapareceram lentamente, como pétalas levadas pelo vento.
Madame Satã permaneceu imóvel.
Depois sorriu.
Tocou a aba do chapéu em sinal de despedida.
— Vai em paz, Miguel...
Vai em paz, Mimi...
Naquela tarde, a brisa espalhou pela velha Lapa um perfume delicado de rosas.
E alguns juram que, desde então, nas madrugadas em que a lua ilumina os Arcos da Lapa, ainda é possível ouvir um tango distante vindo do quarto onde dois amantes, enfim, encontraram a eternidade.
Thoughts
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Permalinkaquele quarto cheio de vela, rosa e renda negra - eu imaginava mais do que lia. tipo aqueles imóvel que a gente mostra vazio mas já vê cheio de coisa.
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Permalinkadorei o quanto disso foi só escuridão mesmo. não teve volta, não teve jeito, só tinha morte aqui. muito bom.
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Permalinkduas linhas: ela dançava bem, ele ficou chato demais. fim de história.
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Permalinktava muito com pena de Mimi, aí ele saiu e fez a coisa mais romântica e mais triste junto. qualquer personagem que eu tava acompanhando foi salvo ali.
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Permalinkaquele capoeira tava certo. ela não é de ninguém e o Miguel quer colocar faca em gente. tá perdido mesmo, esse cara.
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Permalinkem que página você descobriu que era tudo indo dar em morte? porque eu passei achando que ia ter jeito e de repente não tinha mais.
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Permalinkentrei em terror quando ela se meteu na faca. aquele silêncio depois é igual aquele silêncio quando a gente faz algo errado.
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Permalinkaquele momento em que ela diz 'eu sempre fui livre' indo embora - foi escolha ou foi só aceitação do que ia vir? porque parecia dos dois tipos ao mesmo tempo.
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