A Alice entra correndo e pergunta se aconteceu antes de qualquer um explicar nada. Ela e o Azrael estavam esperando esse dia, e pra mim esse combinado sobre a Eriel vem lá de antes da conversa na estufa.
Capítulo 8 — Depois do Sonho
Pensamento
A Alice entra correndo e pergunta se aconteceu antes de qualquer um explicar nada. Ela e o Azrael estavam esperando esse dia, e pra mim esse combinado sobre a Eriel vem lá de antes da conversa na estufa.
Conteúdo da publicação
Eriel acordou antes do despertador.
Por alguns segundos, permaneceu imóvel.
O teto branco estava acima dela.
A luz da manhã atravessava as cortinas, formando faixas claras sobre o chão. O quarto estava silencioso, exatamente como havia estado na noite anterior.
Ela respirou fundo.
Nada.
Nenhum campo de flores.
Nenhuma árvore alcançando o céu.
Nenhum dragão branco.
Apenas seu quarto.
Eriel levou uma das mãos ao rosto.
— Foi um sonho...
Ela tentou acreditar naquilo.
Mas havia uma coisa que não conseguia esquecer.
Os olhos daquele dragão.
Não eram olhos de um animal.
Havia inteligência demais neles.
Era como se aquela criatura estivesse olhando para ela e, ao mesmo tempo, olhando para algo que existia muito além dela.
Eriel sentou-se na cama.
Seu coração acelerou um pouco.
— Que estranho...
Ela passou alguns minutos tentando organizar os pensamentos antes de finalmente levantar.
Vestiu-se, arrumou os cabelos e saiu do quarto.
O corredor estava vazio.
A casa parecia maior pela manhã.
Durante a primeira semana, Eriel havia percebido que existiam partes daquele lugar que praticamente nunca eram utilizadas. Alguns corredores permaneciam fechados, algumas portas não tinham maçanetas visíveis e havia salas que pareciam não possuir função alguma.
Era uma casa antiga.
Mas não antiga de uma maneira decadente.
Tudo estava extremamente bem conservado.
Os móveis eram elegantes, as paredes eram limpas e havia livros em praticamente todos os lugares.
Eriel já começava a suspeitar que Azrael gostava mais de livros do que de pessoas.
Ela desceu as escadas.
Antes mesmo de chegar ao último degrau, ouviu uma voz.
— Você acordou cedo.
Eriel olhou para frente.
Azrael estava sentado próximo à janela.
Um livro aberto descansava sobre uma das mãos.
Ele parecia estar lendo havia bastante tempo.
Seus cabelos brancos estavam levemente bagunçados, como se tivesse passado os dedos por eles várias vezes. Os olhos vermelhos acompanhavam as linhas do livro com atenção.
Ele levantou os olhos.
— Dormiu bem?
Eriel hesitou.
— Sim.
Azrael fechou o livro.
— Só isso?
— Por que você perguntou?
— Porque você está com uma expressão diferente.
Eriel franziu a testa.
— Minha expressão?
— Está preocupada.
Ela desviou o olhar.
Era irritante.
Ele parecia perceber coisas demais.
— Tive um sonho estranho.
Azrael permaneceu em silêncio.
— Sobre um dragão.
Por um instante, os olhos dele ficaram completamente imóveis.
Eriel percebeu.
Mas Azrael voltou a agir normalmente.
— Um dragão?
— Sim.
— Como ele era?
Eriel pensou por alguns segundos.
— Branco.
Azrael não respondeu.
— Muito grande. Estava dormindo em um campo cheio de flores. Havia uma árvore enorme no centro. Parecia que ela não tinha fim.
Azrael ficou olhando para ela.
— E o dragão falou com você?
Eriel arregalou um pouco os olhos.
— Como você sabe?
— Você disse que era um sonho estranho.
— Isso não significa que ele falou comigo.
— Não significa.
Ele se levantou.
— Então falou?
Eriel ficou alguns segundos em silêncio.
— Falou.
Azrael caminhou até a janela.
— O que disse?
Ela começou a responder, mas parou.
— Por que você quer saber?
Azrael olhou para ela por cima do ombro.
— Curiosidade.
— Você não parece curioso.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.
— E como alguém parece quando está curioso?
— Não sei.
— Então talvez eu esteja.
Eriel cruzou os braços.
— Você é estranho.
— Já me disseram isso.
— Muitas vezes?
— O suficiente.
Eriel quase sorriu.
Quase.
Então se lembrou do sonho.
— Ele disse que eu tinha despertado alguma coisa.
Azrael parou.
Dessa vez, não tentou esconder a reação.
Foi apenas um pequeno movimento.
Quase imperceptível.
Mas Eriel viu.
— Azrael.
Ele permaneceu de costas.
— O quê?
— Você sabe alguma coisa.
Silêncio.
— Eu sei muitas coisas.
— Sobre mim.
Ele virou o rosto.
Os olhos vermelhos encontraram os dela.
— Talvez.
Eriel ficou irritada.
— Você poderia simplesmente responder uma pergunta sem transformar tudo em um mistério?
— Poderia.
— Então responda.
Azrael caminhou até uma pequena mesa.
Pegou uma xícara que estava ali e tomou um gole.
— Ainda não.
— Por quê?
— Porque você ainda não está pronta.
A resposta fez Eriel perder o sorriso.
— Pronta para quê?
Azrael não respondeu.
Ela deu um passo em sua direção.
— Eu tenho o direito de saber o que está acontecendo comigo.
— Tem.
— Então me conte.
— Ainda não.
Eriel respirou fundo.
— Você é impossível.
— Eu sei.
Ela virou-se para sair.
— Eriel.
Ela parou.
— O quê?
Azrael apontou para a janela.
— Olhe.
Ela voltou.
Do lado de fora, algumas folhas caíam lentamente de uma árvore.
Uma delas estava descendo em direção ao chão.
Então...
Parou.
Eriel franziu a testa.
A folha ficou suspensa no ar.
Completamente imóvel.
Ela piscou.
A folha voltou a cair.
— Você viu?
Azrael continuou olhando para ela.
— Vi.
— O vento parou?
— Não.
Eriel olhou ao redor.
As outras folhas continuavam se movendo.
Somente aquela havia parado.
— Como...
Ela se aproximou da janela.
— Isso foi estranho.
Azrael não respondeu.
Eriel olhou para ele.
— Você fez isso?
— Não.
— Então quem fez?
Azrael ficou em silêncio.
Eriel olhou novamente para a árvore.
Uma sensação estranha percorreu seu corpo.
Por uma fração de segundo, teve a impressão de que conseguia ouvir algo.
Um som distante.
Como um relógio.
Tic.
Eriel levou a mão ao peito.
Tic.
Seu coração bateu no mesmo ritmo.
Tic.
Então parou.
Ela arregalou os olhos.
O mundo ficou imóvel.
Não por muito tempo.
Talvez um segundo.
Talvez menos.
Mas naquele instante, Eriel percebeu uma coisa impossível.
Azrael ainda estava se movendo.
Muito lentamente.
Ele caminhou até ela.
— Eriel.
Ela não conseguia responder.
O som desapareceu.
Tudo voltou ao normal.
Eriel respirou de maneira brusca.
Azrael estava diante dela.
— Você sentiu?
Ela assentiu lentamente.
— O que foi isso?
Ele a observou por alguns segundos.
Dessa vez, não havia brincadeira em seu rosto.
— Seu primeiro sinal.
— Sinal de quê?
Azrael olhou para os olhos dela.
— Do Tempo.
Eriel ficou imóvel.
A palavra pareceu ecoar dentro de sua cabeça.
Tempo.
Ela pensou no sonho.
No dragão.
Naquela sensação estranha.
Na folha suspensa.
Tudo parecia estar conectado.
— Eu...
Antes que pudesse terminar, uma voz surgiu no corredor.
— Azrael!
Alice apareceu correndo.
Ela parou ao ver os dois.
— Ah.
Olhou para Eriel.
Depois para Azrael.
Seu sorriso desapareceu por um instante.
— Aconteceu?
Azrael assentiu.
Alice ficou séria.
Por apenas alguns segundos.
Então voltou a sorrir.
— Então finalmente começou.
Eriel virou-se para ela.
— Começou o quê?
Alice colocou as mãos atrás das costas.
— Nada.
— Alice.
— Eu preciso ir.
Ela saiu correndo pelo corredor.
— Alice!
A garota não respondeu.
Eriel voltou-se lentamente para Azrael.
— Eu quero respostas.
Azrael suspirou.
— Eu sei.
— E você vai me contar?
Ele olhou para o corredor onde Alice havia desaparecido.
Depois para Eriel.
— Aos poucos.
— Por quê?
Azrael caminhou até a estante.
Pegou outro livro.
— Porque algumas verdades são perigosas quando descobertas cedo demais.
Eriel ficou olhando para ele.
— E quem decide quando é cedo demais?
Azrael abriu o livro.
— O tempo.
Eriel permaneceu em silêncio.
Não sabia se aquilo era uma resposta.
Ou apenas outra maneira de fugir da pergunta.
Mas, pela primeira vez, ela teve certeza de uma coisa.
O sonho não havia sido apenas um sonho.
E alguma coisa dentro dela finalmente havia começado a despertar.
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Eriel acordou antes do despertador.