Olha, o fim sobre o laço que o tempo ainda vai testar deixou-me de pé atrás. A Charllotte é a que observa tudo, a que vê a irmã dormir e repara nas diferenças entre as filhas, e numa casa com contas por pagar quem observa acaba sempre por saber demais. Aposto que é ela que se afasta primeiro, e que a Mia nem dá por isso.
Capítulo 6 — Mia
Pensamento
Olha, o fim sobre o laço que o tempo ainda vai testar deixou-me de pé atrás. A Charllotte é a que observa tudo, a que vê a irmã dormir e repara nas diferenças entre as filhas, e numa casa com contas por pagar quem observa acaba sempre por saber demais. Ap
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Mia chegou àquela casa como chegam algumas pessoas na vida da gente: sem saber que estavam trazendo luz para lugares que já estavam acostumados com a sombra.
Quando nasceu, era pequena, delicada e tranquila.
Tinha os cabelos cacheados, a pele clara e um olhar sereno que parecia acompanhar tudo ao seu redor. Mesmo bebê, havia alguma coisa nela que chamava atenção.
Quando sorria, a casa inteira parecia ficar diferente.
Margareth se apaixonou pela filha.
Frederic também.
Vitória parecia ter encontrado uma pequena companheira para proteger.
E Charllotte...
Charllotte simplesmente amou Mia.
Desde o primeiro momento.
Depois do nascimento da menina, a rotina da família mudou.
Havia choros durante a madrugada, mamadeiras, roupas pequenas espalhadas pela casa e brinquedos aparecendo aos poucos pelos cantos.
Mas havia também risadas.
Mia trouxe uma alegria que aquela casa conhecia pouco.
Margareth passava bastante tempo com ela.
Frederic gostava de segurá-la no colo.
Vitória ficava perto do berço sempre que podia.
E Charllotte observava tudo.
Ela gostava de ver a irmã dormir.
Às vezes ficava alguns minutos parada, olhando para aquele pequeno rosto.
— Ela parece uma bonequinha — dizia.
Vitória sorria.
— Parece mesmo.
— Você acha que ela vai gostar de mim?
Vitória olhava para Charllotte como se aquela pergunta fosse estranha.
— Claro que vai.
Charllotte sorria.
Talvez, no fundo, precisasse ouvir aquilo.
Conforme Mia crescia, sua personalidade começou a aparecer.
Era uma menina tranquila.
Não gostava muito de chamar atenção.
Quando chegava a algum lugar onde havia muitas pessoas, costumava ficar perto de alguém conhecido.
Se alguém desconhecido falava com ela, Mia ficava tímida.
Baixava os olhos.
Às vezes escondia o rosto.
Mas, quando estava em casa, principalmente perto das irmãs, conseguia se soltar.
E havia uma coisa que todos começaram a perceber:
Mia desenhava muito bem.
No começo, eram apenas rabiscos.
Folhas cheias de riscos coloridos.
Casas tortas.
Bonecas.
Flores.
Animais que às vezes ninguém conseguia identificar.
Mas ela continuava.
Desenhava todos os dias.
Pouco a pouco, os desenhos começaram a ficar mais detalhados.
Ela fazia cabelos.
Rostos.
Olhos.
Roupas.
Cenários.
Parecia enxergar o mundo através do papel.
Certa tarde, Charllotte encontrou Mia sentada no chão.
A menina segurava um lápis.
— O que você está desenhando?
Mia escondeu um pouco o papel.
— Nada.
Charllotte riu.
— Como nada? Você está desenhando.
— É segredo.
Charllotte se sentou ao lado dela.
— Posso ver?
Mia ficou alguns segundos em silêncio.
Depois virou o papel.
Era um desenho da família.
Não estava perfeito.
Mas havia todos eles.
Margareth.
Frederic.
Vitória.
Charllotte.
E Mia.
Charllotte ficou olhando.
— Você desenhou todo mundo.
Mia assentiu.
— Por quê?
A menina respondeu baixinho:
— Porque eu gosto da gente.
Charllotte sentiu algo apertar dentro do peito.
Era uma frase simples.
Mas bonita.
Ela passou a mão nos cabelos cacheados da irmã.
— Você desenha muito bem.
Mia sorriu.
E voltou ao desenho.
Vitória tinha um carinho especial por Mia.
Talvez porque a menina não a pressionasse.
Mia não exigia que Vitória conversasse.
Não fazia perguntas demais.
Não ficava insistindo quando a irmã queria ficar quieta.
As duas podiam simplesmente estar juntas.
Vitória gostava de pentear os cabelos de Mia.
Inventava penteados.
Escolhia roupas.
Sentava perto dela enquanto desenhava.
E, quando Mia fazia alguma coisa nova, Vitória era sempre uma das primeiras a comemorar.
— Olha o que ela fez!
Dizia orgulhosa.
— Ela vai ser uma artista.
Mia ficava vermelha.
— Para...
Vitória ria.
— Mas é verdade.
Mia escondia o rosto.
E Charllotte observava as duas.
Era bonito.
Vitória, que tinha tanta dificuldade em se aproximar das pessoas, parecia completamente diferente quando estava com Mia.
Com a irmã pequena, ela não precisava ter medo.
Charllotte também tinha uma relação muito forte com Mia.
Talvez fosse diferente da relação de Vitória.
Charllotte gostava de brincar.
Inventava histórias.
Transformava caixas velhas em casas.
Pegava bonecas e criava famílias inteiras para elas.
Mia adorava.
— Essa é a mãe.
— E esse?
— O pai.
— E essa?
— Sou eu.
Charllotte apontava para outra boneca.
— E eu?
Mia pensava.
— Você é minha irmã.
Charllotte sorria.
— E vai morar comigo?
— Vou.
— Para sempre?
Mia fazia que sim.
— Para sempre.
Era uma promessa infantil.
Daquelas que parecem simples quando são feitas.
Mas que, para Charllotte, significavam muito.
A família de Frederic também passou a fazer parte da vida de Mia.
Quando visitavam os parentes do pai, a menina recebia carinho.
Todos queriam saber como ela estava.
Queriam ver seus desenhos.
Perguntavam o que ela tinha aprendido.
Pegavam-na no colo quando era menor.
Mia gostava daqueles encontros.
A família de Frederic parecia ter um jeito mais aberto de demonstrar afeto.
E ela se sentia querida.
Charllotte percebia.
Vitória também.
Quando Mia chegava, sempre havia alguém querendo recebê-la.
— Minha menina!
— Olha como cresceu!
— Deixa eu ver esse desenho!
Mia ficava tímida, mas sorria.
Às vezes escondia o rosto atrás de Frederic.
E todos riam.
Era um tipo de carinho que ela parecia entender sem dificuldade.
Com o passar dos anos, Mia continuou desenhando.
Os desenhos começaram a ocupar cada vez mais espaço.
Folhas sobre a mesa.
Cadernos.
Pedaços de papel.
Até mesmo o verso de contas antigas.
Se encontrasse um lápis, desenhava.
Se encontrasse uma caneta, desenhava.
Se tivesse apenas um pedaço de papelão, dava um jeito.
Frederic certa vez olhou para um dos desenhos e perguntou:
— Você quer ser desenhista quando crescer?
Mia deu de ombros.
— Não sei.
— Mas você gosta?
Ela sorriu.
— Gosto.
— Então continue.
Mia assentiu.
Era tímida.
Não gostava de falar sobre seus sonhos.
Mas desenhava aquilo que não conseguia dizer.
Margareth também percebia o talento da filha.
Mostrava os desenhos para outras pessoas.
— Olha o que a Mia fez.
Mia ficava envergonhada.
— Mãe...
— É bonito.
Mia abaixava os olhos.
Frederic sorria.
Vitória ficava orgulhosa.
E Charllotte sentia felicidade por ela.
Nunca teve inveja dos elogios que Mia recebia.
Talvez porque, para Charllotte, Mia fosse mais do que uma irmã.
Era uma criança que ela queria proteger.
Uma menina que não tinha culpa das diferenças existentes dentro daquela casa.
Às vezes, Charllotte observava Mia dormindo.
Lembrava-se de quando ela era bebê.
Do primeiro sorriso.
Das pequenas mãos.
Dos cabelos cacheados.
E pensava em como aquela menina tinha mudado a casa.
Mia não sabia dos problemas dos adultos.
Não sabia das dificuldades financeiras.
Não sabia das feridas que cada pessoa carregava.
Ela apenas existia.
Desenhava.
Brincava.
Sorria.
E amava as irmãs.
Talvez fosse justamente por isso que Charllotte gostasse tanto de estar perto dela.
Com Mia, ela podia esquecer por alguns minutos tudo aquilo que a incomodava.
Podia ser apenas irmã.
Podia brincar.
Podia rir.
Podia cuidar.
Vitória também se apegou profundamente à menina.
Era comum encontrá-las juntas.
Mia desenhando enquanto Vitória lia.
Mia brincando enquanto Vitória arrumava seus cabelos.
As duas sentadas no chão conversando baixinho.
Às vezes, Charllotte se juntava.
E as três ficavam ali.
As três irmãs.
Três meninas diferentes.
Três maneiras diferentes de enxergar o mundo.
Vitória, tão inteligente e tímida.
Charllotte, tão observadora e sensível.
Mia, tão criativa e delicada.
Naqueles momentos, parecia que nada poderia separá-las.
Mia cresceu cercada pelo amor das irmãs.
E, mesmo sendo tímida, aprendeu a confiar nelas.
Quando tinha medo, procurava Vitória.
Quando queria brincar, procurava Charllotte.
Quando queria mostrar um desenho, procurava as duas.
E as duas sempre olhavam.
— Ficou lindo — dizia Charllotte.
— Você melhorou muito — dizia Vitória.
Mia sorria.
Talvez não soubesse naquele momento, mas tinha duas irmãs que a amavam profundamente.
E, por alguns anos, isso parecia ser suficiente.
A casa de madeira continuava pequena.
Os problemas não haviam desaparecido.
As dificuldades financeiras continuavam.
As diferenças entre as filhas ainda existiam.
Mas, quando Mia entrava correndo pela porta com um desenho nas mãos, chamando pelas irmãs, tudo parecia um pouco mais leve.
Ela havia levado alegria para aquela casa.
E, sem perceber, havia criado entre as três irmãs um laço que o tempo ainda tentaria testar.
Porque algumas famílias são unidas pelo sangue.
Outras, pelas dificuldades.
E algumas são mantidas de pé pelo amor silencioso entre irmãos.
Naquela casa, as três meninas ainda não sabiam o que o futuro guardava.
Sabiam apenas que tinham umas às outras.
E, naquele momento, isso parecia ser o bastante.
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PermalinkOlha, o fim sobre o laço que o tempo ainda vai testar deixou-me de pé atrás. A Charllotte é a que observa tudo, a que vê a irmã dormir e repara nas diferenças entre as filhas, e numa casa com contas por pagar quem observa acaba sempre por saber demais. Aposto que é ela que se afasta primeiro, e que a Mia nem dá por isso.
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