livro (trinta dias para a última lua)
O vórtice negro cuspiu Hadria e se fechou com um estalo seco. Ela rolou pelo chão de mármore polido e ergueu-se de um salto. Estava no centro de uma cúpula gigantesca e deslumbrante. No alto de uma escadaria de cristal, erguia-se um trono majestoso ocupado por um homem de pele alva, vestindo uma armadura reluzente e uma imponente coroa dourada.
Ao lado dele, repousava uma mulher de beleza celestial. Seus longos cabelos caíam como cascatas de luz sobre um vestido cintilante que ofuscava os olhos. Seus traços eram puramente angelicais, mas a aura que emanava era fria e calculista.
Um pouco mais afastada, na base da escadaria, a figura destoava do ambiente de luz: era uma guerreira vestida com as pesadas túnicas de couro das Bruxas Negras. E ela não estava sozinha; logo atrás dela, um esquadrão de elite formado por seis montadoras de dragões mantinha-se em formação tática, com os rostos tensos e ilegíveis.
Quinze generais do Sul, trajando armaduras cintilantes, formavam um círculo intransponível ao redor de Hadria. Sob a túnica da garota, o cordão de pedra branca piscava freneticamente, reagindo à magia opressora do ambiente. Sua mente gritava o alerta óbvio: Ela estava no Reino dos Bruxos do Sul.
Aquele vampiro traiçoeiro a havia enganado. Ela olhou para trás, mas o espelho escuro havia desaparecido na parede de mármore. O que Constantino faria com Luiz?, pensou Hadria, o peito apertando de apreensão pela segurança do amigo.
A mulher de aparência angelical deu dois passos à frente, parecendo flutuar sobre o piso polido.
— Uma criança — disse ela. A voz era aveludada, pingando uma falsa doçura, acompanhada de um sorriso perfeitamente gélido.
O Rei dos Bruxos do Sul levantou-se, hipnotizado, e fez menção de caminhar na direção da garota. Imediatamente, a mulher angelical segurou o braço dele com firmeza.
— Querido, não se aproxime — sussurrou ela. — Deixe-a com os generais.
A bruxa trajada de negro desceu os degraus e se aproximou de Hadria. O esquadrão de guerreiras às suas costas tensionou os músculos. Os olhos da mulher mergulharam na escuridão absoluta e suas garras afiadas irromperam. Com um movimento rápido, ela passou a ponta de uma garra pelo rosto de Hadria, abrindo um pequeno corte na bochecha da menina enquanto a analisava de perto. A respiração da bruxa era pesada, quase trêmula.
Hadria sorriu, ignorando o filete de sangue quente em sua pele. Ela percebeu de imediato: a mulher estava com medo.
— Você tem cheiro de demônio — cuspiu a Bruxa Negra, tentando mascarar o pavor. Ela então virou o rosto para o Rei no trono. — Aqui está a menina que o Sul tanto busca. Se me apoiar e garantir a minha posse no trono, não farei questão da vida dela. A criança é sua. E, em troca, as Bruxas Negras irão servir ao Reino dos Bruxos do Sul.
— Quem é você para escravizar as Bruxas Negras?! — gritou Hadria, a fúria explodindo em suas veias. — As Bruxas Negras são livres! Elas só servem à escuridão que as criou e à sua verdadeira Rainha!
— Eu sou a Rainha das Bruxas Negras! — rebateu a usurpadora, o rosto contorcido de raiva pela audácia daquela menina em afrontá-la diante da corte inimiga.
— Eu sou a verdadeira Rainha! E você vai se curvar a mim! — rugiu Hadria, a voz carregada com o peso e a autoridade de sua linhagem ancestral.
A mulher do vestido cintilante estreitou os olhos. A máscara de pureza angelical derreteu, e uma raiva genuína e cruel transpareceu em suas feições. Como uma mera criaturinha podia ser tão petulante e arrogante a ponto de exigir submissão dentro do salão real do Sul? A Rainha respirou fundo, recuperando a postura, e assentiu friamente para o comandante.
— Amarrem a menina.
— Parem! — gritou o Rei, a voz estrondando na cúpula. Ele olhava atentamente para o rosto de Hadria, os olhos arregalados. — Aylla... — Ele passou a mão pesadamente pelas têmporas, atordoado, como se lutasse para não acreditar que aquela menina era a cópia exata da bruxa que ele um dia conhecera.
— Querido, ela parece estar confusa — interveio a mulher da voz aveludada, aproximando-se rapidamente do Rei e acariciando seu braço com possessividade manipuladora. — É para o próprio bem dela. Ela precisa ser contida e se acalmar. Vamos dar tempo para que ela absorva tudo o que está acontecendo. — Ela virou o rosto para os soldados, os olhos faiscando: — Generais, amarrem a menina. Agora.
Os quinze generais iniciaram uma manobra sincronizada de movimentos mágicos. Eles levitaram a poucos palmos do chão, canalizando energia pura. Nesse exato segundo, as correntes místicas brancas que Hadria carregava sob a pele desde o nascimento reagiram, brilhando com uma intensidade ofuscante.
Dois generais de cada lado estenderam as mãos, usando a magia arcana para puxar as amarras invisíveis, suspendendo e esticando o corpo de Hadria como se ela fosse uma marionete sendo torturada.
A dor de ter os ossos brutalmente esmagados de dentro para fora era agonizante. Hadria cerrou os dentes para não gritar. Os olhos da garota foram engolidos por uma escuridão abissal, e suas garras rasgaram a pele de suas mãos, longas e sombrias.
Eu vou queimar todo o Reino dos Bruxos do Sul e arrancar o coração dessa bruxa traidora que ousa barganhar a nossa liberdade, pensou a herdeira, lutando contra as correntes que a sufocavam. Eu posso morrer aqui. Mas não vou morrer como prisioneira.