livro (trinta dias para a última lua)
Hadria e Luiz embrenharam-se pela fenda na rocha vermelha e desceram por um túnel íngreme, que os conduziu a uma vasta caverna subterrânea. O ar ali era denso, impregnado por um forte cheiro de enxofre. As paredes de pedra avermelhada pareciam pulsar na penumbra, enquanto os estrondos abafados da guerra e os rugidos furiosos dos dragões ainda reverberavam pelo teto da montanha, um lembrete do caos que rugia sobre suas cabeças.
No centro da caverna nua, erguia-se um único e imponente objeto: o portal.
Era uma estrutura monumental, esculpida diretamente na rocha carmesim. O espelho opaco no meio era envolvido por uma obra de arte assombrosa e intimidadora. Dezenas de dragões haviam sido talhados em alto-relevo na moldura de pedra; alguns repousavam adormecidos nas bases laterais, enquanto outros, no topo do arco, mantinham as mandíbulas escancaradas, esculpidos com tanta perfeição que pareciam expelir labaredas petrificadas.
Desde antes de cruzarem a fenda da rocha, Luiz começou a passar mal. Um calor intenso e doentio passou a queimá-lo de dentro para fora. Ele olhou para o antebraço livre e viu, sob a pele, suas veias adquirirem um tom vermelho intenso e febril. A sensação era dilacerante; sentia como se suas mãos estivessem derretendo e seus ossos fossem estilhaçados em milhares de pedaços. O pior de tudo foi o som surdo em seus ouvidos: seu coração, silencioso há tanto tempo, começou a bater pesadamente. Ele engoliu um gemido de agonia, agradecendo por a escuridão da caverna esconder seu estado.
Hadria havia soltado sua mão e corrido para conferir a estrutura, não percebendo que o vampiro estava à beira de um colapso.
— Olha, Luiz, o portal!
— Tente abrir... tente abrir o portal com o sangue de suas garras — Luiz conseguiu articular, forçando a voz a soar normal, escorando-se em uma parede para não cair. — Geralmente, apenas o sangue do dono consegue ativá-lo. Se o portal é das Bruxas Negras, só uma poderá abri-lo.
Hadria assentiu com a cabeça. A pele de seu braço escureceu de imediato e suas garras letais se projetaram. Sem hesitar, ela fez um rasgo na própria palma. O sangue que brotou era uma mistura espessa de negro e vermelho. Ela pressionou a mão ensanguentada sobre a superfície fria do espelho, pegou o pergaminho que guardava na mochila e começou a traçar os símbolos arcanos sobre o vidro, ditando em voz alta o destino para onde queria ir.
O espelho reagiu de imediato. A superfície contorceu-se de forma sobrenatural, derretendo-se em uma espiral espessa e totalmente negra.
— Abriu! — exclamou a garota, com um sorriso vitorioso. Porém, ao olhar para trás, notou o estado de Luiz. Ele estava visivelmente fraco e suado. — Você não está bem? Foi atingido?
— Eu estou bem, só... fiquei nervoso — mentiu ele. Luiz tentava respirar fundo. Seu coração já começava a bater mais devagar e a dor aguda finalmente recuava para um limite suportável. — Como você não fica nem um pouco preocupada com o que acabou de acontecer lá fora?
Ele se ergueu com esforço, encheu os pulmões de ar e caminhou em direção a ela. Parou diante do vórtex rodopiante, olhando para a escuridão com desconfiança.
— Você tem certeza de que configurou o destino certo? — perguntou ele, genuinamente preocupado com a capacidade da garota de operar magia antiga.
— Lógico que eu fiz! — rebateu Hadria. — E, também, se não fiz, não importa. Já estaremos lá do mesmo jeito.
Com um solavanco repentino, ela agarrou a mão de Luiz e, sem lhe dar chance de recuar, puxou-o consigo em um salto direto para dentro do portal.