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Capitulo 3- O Segundo encontro

AllyneMaia

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Capítulo 3 — O segundo encontro

Contado por Clara

Depois daquele turbilhão de emoções em uma única noite — o acidente, a surpresa e, acima de tudo, Pedro — o cansaço caiu sobre mim de uma maneira que eu nem imaginava ser possível.

Assim que cheguei à casa de campo, deixei as coisas de qualquer jeito, tomei um banho demorado e me joguei na cama.

Eu precisava apenas fechar os olhos por alguns minutos.

Mas, quando percebi, já era noite do dia seguinte.

Demorei alguns segundos para entender onde estava.

Olhei para o relógio e arregalei os olhos.

— Meu Deus...

Eu havia dormido praticamente o dia inteiro.

Talvez meu corpo estivesse pedindo aquela pausa há muito mais tempo do que eu queria admitir.

Peguei meu celular particular, aquele que eu mantinha quase exclusivamente para falar com Helena. O outro, o do trabalho, continuava desligado. Era a minha pequena tentativa de me lembrar de que estava de férias.

Assim que desbloqueei a tela, encontrei uma quantidade enorme de mensagens da minha irmã.

“Clara, você chegou?”

“Está tudo bem?”

“Por que você não respondeu?”

“Me liga assim que puder.”

Sorri ao perceber o quanto ela estava preocupada.

Liguei para ela.

— Oi, Helena.

— Finalmente! Eu já estava pensando em pegar o carro e ir atrás de você.

— Desculpa. Eu cheguei bem.

— Então por que sumiu?

Respirei fundo.

— Porque eu dormi.

— Dormiu?

— Sim. Eu estava tão cansada que cheguei, tomei banho e apaguei.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

— Talvez você realmente estivesse precisando dessas férias.

— Talvez.

Contei sobre o acidente, expliquei que ninguém havia se machucado e que eu precisava levar o carro para avaliar os danos.

Não contei sobre Pedro.

Não ainda.

Nem eu sabia explicar por quê.

Talvez porque, no momento em que pronunciasse o nome dele em voz alta para outra pessoa, aquilo tudo pareceria ainda mais real.

Depois da ligação, tomei outro banho e preparei alguma coisa para comer.

Mas, mesmo tentando voltar àquela rotina tranquila que eu havia imaginado para minhas férias, meus pensamentos insistiam em voltar para a noite anterior.

Pedro.

O nome dele surgia na minha cabeça como uma música antiga que eu não escutava havia anos, mas ainda sabia cantar.

Eu me lembrava do rosto dele quando me reconheceu.

Da surpresa.

Da maneira como pronunciou meu nome.

E, principalmente, daquela sensação estranha de que, apesar de tantos anos, havia alguma coisa nele que eu ainda reconhecia.

Era difícil explicar.

Ele havia mudado.

Eu também.

E, ainda assim, quando nossos olhos se encontraram, parecia que uma parte da nossa história simplesmente havia esperado todo aquele tempo para continuar.

Balancei a cabeça.

— Para com isso, Clara.

Não fazia sentido.

Eu tinha uma vida inteira.

Uma empresa.

Uma família.

Planos.

E ele era apenas alguém que havia reaparecido depois de muitos anos.

Um encontro.

Um acidente.

Uma coincidência.

Era isso.

Pelo menos era o que eu tentava acreditar.


Na manhã seguinte, lembrei que precisava levar o carro à oficina.

A batida não havia sido tão forte, mas eu sempre fui extremamente cuidadosa com esse tipo de situação.

Gostava de saber exatamente o que havia acontecido.

Entender o problema.

Conferir tudo.

Talvez fosse uma característica minha.

Eu precisava ter controle das coisas.

Ou pelo menos gostava de pensar que tinha.

Entrei no carro e comecei a dirigir.

A cidade passava diante dos meus olhos enquanto minha cabeça viajava muito mais longe.

Pensei na minha adolescência.

Em como eu era naquela época.

Nas coisas que sentia.

Nos sonhos que tinha.

Em como a vida parecia tão simples quando tudo ainda estava começando.

E, no meio dessas lembranças, ele apareceu outra vez.

Pedro.

Eu me lembrava de como ele conseguia chamar minha atenção sem fazer esforço.

Do jeito como eu procurava por ele mesmo quando fingia não procurar.

Dos sentimentos que, naquela época, pareciam grandes demais para uma garota que ainda estava descobrindo quem era.

Depois a vida aconteceu.

Os caminhos se separaram.

Cada um seguiu sua direção.

E, com o passar dos anos, eu aprendi a guardar aquela história em um lugar seguro da minha memória.

Até aquela noite.

Até aquela batida.

Até aquele olhar.


Cheguei à oficina e desci do carro.

— Bom dia — cumprimentei o mecânico.

— Bom dia. Deixa eu dar uma olhada nele.

Entreguei a chave e fiquei próxima ao balcão enquanto ele começava a analisar a parte traseira.

Eu estava distraída, olhando algumas mensagens, quando ouvi vozes vindo do outro lado da oficina.

Não prestei atenção de imediato.

Até escutar uma risada.

Meu coração reconheceu antes mesmo que meus olhos confirmassem.

Levantei a cabeça.

Olhei na direção do som.

E lá estava ele.

Conversando com outro mecânico.

Por alguns segundos, fiquei completamente imóvel.

Não podia ser.

Depois da estrada.

Depois de tantos anos.

Depois de tudo aquilo.

Agora, de novo.

No mesmo lugar.

No mesmo dia.

No mesmo momento.

Era como se o destino estivesse brincando comigo.

Meu coração começou a acelerar.

Eu não pensei.

Não planejei.

Não tive tempo de decidir se deveria falar ou simplesmente ir embora.

Apenas disse:

— Pedro...

Ele virou o rosto no mesmo instante.

Nossos olhos se encontraram.

E, mais uma vez, o mundo pareceu parar.

Ele também ficou imóvel.

A surpresa estampada no rosto.

Por alguns segundos, nenhum dos dois conseguiu dizer nada.

Eu quase ri de nervoso.

Aquilo já estava ficando absurdo.

Primeiro uma batida de carro.

Agora a mesma oficina.

Depois de anos sem nos encontrarmos.

E ele estava ali.

A poucos metros de mim.

Como se a vida estivesse insistindo em nos colocar frente a frente.

Pedro olhou para mim e deu um pequeno sorriso, ainda tentando acreditar.

— Clara?

Assenti.

— Sou eu.

Ele se aproximou devagar.

— O que você está fazendo aqui?

Olhei para o meu carro.

— Vim consertar o estrago do acidente.

Ele soltou uma risada baixa.

— Claro.

— E você?

— Vim pelo mesmo motivo.

Olhei para o carro dele.

Depois para ele.

E não consegui segurar o sorriso.

— Isso está ficando estranho.

Ele riu.

— Um pouco.

Ficamos em silêncio.

Mas dessa vez o silêncio era diferente.

Na noite anterior, éramos dois desconhecidos tentando entender uma lembrança.

Agora havia uma familiaridade surgindo.

Uma vontade de conversar.

De saber.

De descobrir o que aqueles anos haviam feito conosco.

Pedro passou a mão pelos cabelos, como fazia quando estava sem jeito.

— Parece que nossos carros não querem deixar a gente se afastar.

Meu coração deu um pequeno salto.

Sorri.

— Talvez eles tenham mais vontade de nos reencontrar do que nós.

Ele me encarou por alguns segundos.

E, naquele instante, eu percebi que talvez não fosse apenas eu tentando entender aquele reencontro.

Talvez ele também estivesse sentindo alguma coisa.

Alguma coisa que nenhum dos dois ainda tinha coragem de nomear.

E foi ali, naquele pequeno espaço entre carros danificados, cheiro de óleo e ferramentas espalhadas, que eu comecei a suspeitar que o acidente da noite anterior talvez não tivesse sido apenas um acidente.

Talvez tivesse sido o começo.

Só não sabíamos ainda do quê.

Thoughts

  • malaExtraviada

    Bah, mesma oficina, mesmo dia, e até agora ninguém pediu o telefone de ninguém. Os carros tão se esforçando mais que eles.

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  • conto84

    Ela não falou do Pedro pra Helena, logo a irmã que manda quatro mensagens quando ela some uma noite. Quando a Helena souber por outra pessoa, vai doer mais que a batida.

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