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Capítulo 25: A Chuva

BELADIA
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livro (Querida, Sorria!)

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AmandaPeixoto

A Maraíra pede desculpa pela bolsa e mais nada. E tudo o que o Fábio sente a gente só sabe porque o texto entra na cabeça dele, ela nem desconfia. Tu vai voltar pra cabeça do Fábio mais vezes?

A Maraíra pede desculpa pela bolsa e mais nada. E tudo o que o Fábio sente a gente só sabe porque o texto entra na cabeça dele, ela nem desconfia. Tu vai voltar pra cabeça do Fábio mais vezes?

Conteúdo da publicação

livro (Querida, Sorria!)

As portas automáticas de vidro do hospital se abriram. O céu do começo da tarde, que antes ostentava um cinza pálido, havia escurecido de forma abrupta, carregado por nuvens densas e pesadas. Maraíra desceu a pequena rampa de acesso e parou na calçada. A poucos metros de distância, o SUV blindado de sua mãe estava estacionado, com o motorista e um dos seguranças escorados na lataria, aguardando ordens.

Maraíra não olhou duas vezes para eles. Virou as costas e começou a caminhar na direção oposta, decidida a se afastar o mais rápido possível daquele raio de alcance.

A cada passo que dava, a calma fingida que a mantivera de pé durante o embate com Marta começava a se dissipar. O corpo cobrava o preço da tensão acumulada, e as escoriações nas mãos repuxavam de leve, uma lembrança incômoda, mas perfeitamente suportável, da violência que a libertara. O verdadeiro cansaço, no entanto, não vinha dos ferimentos que já cicatrizavam, mas do peso monumental de ter rompido definitivamente com o próprio passado.

Foi então que a primeira gota caiu, grossa e gelada, atingindo seu ombro. Depois, outra em seu rosto. Em questão de segundos, as nuvens cederam, e um temporal repentino desabou impiedosamente sobre o asfalto. Num reflexo rápido, ergueu a bolsa grande de tecido artesanal — que havia comprado de uma das amigas artesãs de Vivi — e a colocou por cima da cabeça, usando-a como um escudo improvisado contra o aguaceiro enquanto apressava o passo pela calçada vazia.

De repente, o som agressivo da chuva batendo na bolsa foi abafado. A água simplesmente parou de cair sobre ela, embora o temporal continuasse castigando o chão ao seu redor.

Maraíra parou de supetão, os músculos retesados, e abaixou a bolsa lentamente até o peito.

Um homem estava parado na calçada, a menos de um passo de distância, segurando um grande guarda-chuva escuro sobre a cabeça dos dois. Maraíra tencionou a postura imediatamente, o instinto de defesa em alerta máximo. Seus olhos faiscaram, prontos para enfrentar qualquer capanga que a mãe ou Igor tivessem mandado.

Mas não era um segurança que a encarava. Era um desconhecido. Alto, com ombros largos e uma postura que exalava uma força tranquila. Os cabelos escuros estavam levemente bagunçados pela umidade, e o rosto, de maxilar definido e traços marcantes, emoldurava olhos inteligentes de um castanho profundo e acolhedor. Era Fábio.

Sob a redoma improvisada do guarda-chuva, o espaço era curto, forçando uma proximidade inédita entre os dois. Maraíra o observou de perto, quase prendendo a respiração. Varreu cada detalhe: a postura relaxada, as roupas simples — camisa xadrez, calça jeans e botas —, o olhar firme, porém desprovido de qualquer hostilidade.

Fábio sustentou o olhar dela. Sob a aparente calma analítica que demonstrava, seu coração batia em um ritmo descompassado. Ele sempre a observara de longe, nutrindo um sentimento silencioso e enraizado pela mulher que agora estava a centímetros de distância. Falar com ela pela primeira vez, no entanto, trazia um choque de realidade áspero. Ele a avaliou de perto e notou os fios acobreados úmidos, mas foi a marca avermelhada da bofetada de Igor na bochecha pálida que acendeu um fogo em seu peito.

Um instinto primitivo e protetor gritou; ele quis abraçá-la, quis envolvê-la em segurança e trucidar com as próprias mãos o covarde que ousara deixar aquela marca no rosto da mulher que ele admirava. Mas engoliu a fúria. Sabia que um movimento brusco a faria fugir. Manteve a postura impassível, reprimindo a urgência de seus próprios sentimentos para dar a ela o tempo necessário para decidir se confiaria nele. Por fim, observou as mãos esfoladas que apertavam a alça da bolsa com uma força desnecessária, prontas para usá-la como arma de defesa — uma tensão que, aos poucos, foi cedendo, como se ela estivesse decidindo confiar.

A tensão entre os dois era palpável e silenciosa, mas foi, gradativamente, se transformando em um momento acolhedor. O mundo ao redor parecia ter se resumido ao som da água batendo no tecido do guarda-chuva.

A expressão de Fábio quebrou a seriedade com um vinco divertido no canto dos lábios.

— Como escudo, essa sua bolsa parece ser de excelente qualidade — a voz grave dele soou tranquila, competindo com o barulho da chuva —, mas como guarda-chuva, devo admitir que ela deixa um pouco a desejar.

Maraíra continuou em silêncio. Baixou os olhos para a bolsa, notando a forma rígida como a mantinha erguida entre os dois, como uma barricada física. Ela sorriu de leve e sussurrou:

— Desculpe.

Ela avaliou o nível de perigo daquela aproximação inesperada, mas algo na postura dele emanava uma confiança inegável.

— Tem uma cafeteria virando a esquina. Um lugar público, bem iluminado e, o mais importante, com teto — continuou Fábio, apontando levemente com a cabeça para o fim da rua, percebendo a desconfiança absoluta estampada no rosto dela. — Posso te acompanhar até lá. Você entra, senta e pode esperar essa chuva passar em segurança.

Maraíra hesitou. O instinto de sobrevivência ainda estava em alerta total, mas sua mente avaliou as circunstâncias e decidiu confiar por alguns instantes naquele estranho. O cansaço psicológico estava cobrando o seu preço, e a chuva engrossava a cada segundo. O que a fez ceder, porém, não foi o clima, mas a postura dele: era uma oferta estritamente prática.

— Obrigada — ela assentiu, com um leve movimento de cabeça.

Eles caminharam em silêncio até a cafeteria. Fábio abriu a porta para que ela entrasse primeiro. Ela agradeceu com um aceno curto e se afastou. O aroma quente e encorpado de grãos torrados preenchia o ar, misturando-se ao calor confortável do ambiente, um contraste brutal com o frio úmido lá fora. Ele deu espaço para que ela se acomodasse em uma mesa e ficou ali perto do balcão, observando-a de longe.

Ela pediu um expresso puro. Quando a pequena xícara de porcelana chegou, o vapor ralo dançou no ar. O calor irradiou para a palma de suas mãos doloridas, trazendo um alívio sedativo. Ficou alguns minutos ali, rodando a colherinha amargamente, o olhar perdido através da janela ampla da cafeteria, como se os pensamentos estivessem a quilômetros de distância.

De repente, o celular de Maraíra vibrou em sua bolsa. Era uma mensagem curta, de um remetente não identificado, mas que ela sabia muito bem ser de Luiza, a secretária de Marta: "Homens do Igor estão te procurando. Saia de vista."

Ao erguer os olhos em direção à janela para checar os arredores, avistou dois homens de terno escuro sob a chuva, vasculhando o outro lado da calçada. O coração saltou. Em um reflexo imediato, ela esbarrou na própria bolsa de propósito, fazendo com que o fecho se abrisse e os pertences caíssem no chão. Mergulhou para debaixo da mesa, fingindo recolhê-los vagarosamente.

Eles devem estar atrás de mim por ordem de Igor, inconformado por não ter conseguido me internar, deduziu, a mente afiada trabalhando a mil por hora. Se Igor continuar me perseguindo, terei que dar um jeito nele eu mesma, pensou Maraíra, os dentes trincados de raiva.

O sino da porta tocou. Os dois seguranças entraram na cafeteria, os olhos varrendo o salão.

 

Thoughts

  • ArnaldoBessa

    Desde que o Igor tentou internar ela eu esperava a Maraíra fugindo sozinha, e ela derrubar a bolsa pra se esconder debaixo da mesa foi bem o jeito dela. Por isso o Fábio me incomoda: eu vi o capítulo inteiro virar romance no meio da fuga. Pra mim ele vai se meter com os seguranças e estragar o esconderijo.

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  • AlmaTavares

    O expresso puro a aquecer as mãos esfoladas foi onde parei. Um alívio pequeno, quase envergonhado, depois do hospital inteiro, e durou só até o telemóvel vibrar.

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  • AmandaPeixoto

    A Maraíra pede desculpa pela bolsa e mais nada. E tudo o que o Fábio sente a gente só sabe porque o texto entra na cabeça dele, ela nem desconfia. Tu vai voltar pra cabeça do Fábio mais vezes?

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  • GasparRibeiro

    Os homens do Igor chegam à cafeteria minutos depois dela. Ou alguém os avisou ou seguiram o SUV da mãe, que estava parado à porta do hospital. Aposto na segunda, e a Luiza sabia.

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  • Ovid

    A bolsa de tecido que a Maraíra comprou de uma amiga da Vivi virando escudo contra a chuva me fez pensar em como as coisas pequenas dela vão carregando a história: o celular, a xícara, agora a bolsa. Aposto que essa bolsa ainda vai ter papel nisso tudo, ela já serviu duas vezes só neste capítulo!

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  • EsquinaDaLeitura

    Esse Fábio que observava ela de longe há tempo me deixa com a pulga atrás da orelha. Homem que aparece na saída do hospital, na hora certa, com guarda-chuva pronto, não caiu ali por acaso. Aposto que ele trabalha pra alguém dessa família, talvez até pra Marta sem a Maraíra saber, e que o primeiro susto dela debaixo daquele guarda-chuva estava certo.

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