A casa parecia respirar.
Lenta. Pesada. Como se não estivesse acostumada com gente viva ali dentro.
A porta ainda ecoava quando Ágata atravessou o corredor e jogou as luvas em qualquer lugar.
— Eu odeio esse lugar.
Anthen encostou na parede, observando.
— Você odeia todos os lugares.
— Esse mais. — ela respondeu, cruzando os braços. — Cheira a gente pobre.
Um silêncio curto.
Perto da janela, Kaÿdran permanecia imóvel.
Olhando a rua.
Como se nada daquilo importasse.
— Você nem disfarça mais, né? — disse Anthen, olhando pra ele.
Nenhuma resposta.
Ágata olhou entre os dois.
— O que foi agora?
Anthen deu um passo à frente.
— Ele quer sair.
Ágata franziu a testa.
— Sair pra quê?
Silêncio.
Kaÿdran finalmente virou o rosto.
Calmo.
Demais.
— Comer.
Ágata não reagiu na hora.
Mas um pequeno sorriso surgiu.
— Já? — ela perguntou, curiosa.
— Não. — Anthen respondeu antes dele. — Ele não vai.
Kaÿdran olhou pra ele.
Sem pressa.
— Eu não lembro de ter perguntado.
— E eu não lembro de você pensar. — rebateu Anthen.
O ar ficou mais pesado.
Ágata observava.
Divertida.
— A gente acabou de chegar. — continuou Anthen. — Primeira noite. Cidade nova. E você quer sair matando alguém?
— Não é “alguém”. — disse Kaÿdran, frio. — É alimento.
— Aqui não. — Anthen respondeu. — Não agora.
Kaÿdran inclinou levemente a cabeça.
— Você quer que eu espere?
— Quero que você não seja idiota.
Um silêncio seco.
Ágata soltou um riso baixo.
— Isso vai ser interessante.
Kaÿdran deu um passo em direção a Anthen.
Lento.
Controlado.
— Eu não preciso da sua autorização.
—
Anthen não recuou.
— Não. Mas precisa de discrição. — respondeu. — Ou esqueceu como funciona?
Os olhos de Kaÿdran ficaram mais frios.
— Eu nunca esqueço.
— Então age como alguém que lembra.
Silêncio.
Pesado.
Ágata sentou no braço de um sofá, balançando as pernas.
— Vocês são dramáticos.
Nenhum dos dois olhou pra ela.
— Ele precisa de sangue. — continuou ela, como se fosse óbvio. — Você também precisa.
— Eu sei me controlar. — disse Anthen.
Kaÿdran soltou um riso curto.
Sem humor.
— Você chama isso de controle?
— Chamo de não chamar atenção.
— Eu não chamo atenção.
Anthen arqueou uma sobrancelha.
— Você literalmente mata.
— E você não?
Silêncio.
Ágata inclinou a cabeça.
— Eu acho que ele devia ir.
Anthen virou pra ela.
— Claro que você acha.
— Ele fica irritante sem sangue.
— Ele já é irritante com sangue.
Ela deu de ombros.
Kaÿdran voltou o olhar pra janela.
Como se tivesse perdido o interesse.
— Eu vou sair. — disse.
Simples.
Decidido.
Anthen fechou a mandíbula.
— Se você fizer isso hoje… — começou.
Kaÿdran virou o rosto de novo.
— Vai fazer o quê?
Silêncio.
Anthen não respondeu de imediato.
Só sustentou o olhar.
Ágata sorriu.
— Eu amo quando vocês ficam assim.
Mais silêncio.
Então Anthen respirou fundo.
Desviou o olhar.
— Faz o que quiser. — disse por fim. — Mas não volta com problema.
Kaÿdran assentiu levemente.
Como se aquilo fosse irrelevante.
— Eu nunca volto com problemas.
Ele passou por eles.
Sem pressa.
Ágata acompanhou com o olhar.
— Ele vai matar alguém.
— Eu sei. — respondeu Anthen.
Silêncio.
Ágata olhou pra ele.
— E você?
Anthen pegou o casaco.
— Eu vou andar.
— Mentira.
Ele olhou pra ela.
Ela sorriu.
— Você vai atrás.
Anthen não respondeu.
Mas também não negou.
E saiu.
As ruas de Londres
O ar estava mais frio.
Mais vivo.
E dessa vez…
Anthen não estava só passeando.