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Capítulo 12: Três caminhos

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As portas do salão fecharam-se atrás de Yal.

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Ovid

A dama de companhia arrumando até os pincéis de maquiagem de uma rainha sequestrada. Isso me fez pensar em quem põe a mesa pra alguém que ainda não chegou, por pura teimosia. Aposto que essa mala volta pro palácio com a Aras do lado, e que a dama vai fing

A dama de companhia arrumando até os pincéis de maquiagem de uma rainha sequestrada. Isso me fez pensar em quem põe a mesa pra alguém que ainda não chegou, por pura teimosia. Aposto que essa mala volta pro palácio com a Aras do lado, e que a dama vai fingir que nunca duvidou de nada. Vamos ver!

Conteúdo da publicação

As portas do salão fecharam-se atrás de Yal.

Imediatamente, vozes voltaram a ecoar do outro lado.
Generais discutiam rotas.
Os representantes carinos defendiam o fechamento das fronteiras.
Lysandra insistia em reunir todos os registros preservados sobre Eferin.
Orian exigia respostas.
Arlen recusava-se a aceitar que o filho partisse sozinho.

Yal deixou de ouvir qualquer discussão. Já havia tomado sua decisão.

Continuou caminhando.
Os corredores do palácio ainda carregavam as marcas da invasão.
Algumas tapeçarias haviam sido retiradas.
Pedras quebradas aguardavam reparos.
O cheiro de incenso tentava esconder o sangue que, poucas horas antes, manchara aquele lugar.

Sem perceber, seus passos o conduziram até uma porta já conhecida.

O quarto onde ele e Aras haviam conversado antes da cerimônia.
Ali onde, depois de muitos anos, conversara outra vez pessoalmente com sua noiva.

Yal empurrou a porta devagar.

O aposento permanecia quase intacto.
Apenas uma jovem dama de companhia dobrava cuidadosamente um véu de renda sobre uma grande mala de madeira.
Ao notar sua presença, ela fez uma reverência.

— Vossa Alteza.

Yal observou o vestido cuidadosamente acomodado.
As joias.
Os sapatos.
Os pequenos frascos de perfume.
Até os pincéis de maquiagem estavam sendo organizados.

— O que está fazendo?

A jovem sorriu de maneira serena.

— Preparando as coisas de Sua Majestade.

Yal franziu a testa.

— Ela foi sequestrada.

— Eu sei. — Ela continuou dobrando o tecido com extremo cuidado. — Mas também sei que ela voltará.

A fala fez Yal erguer os olhos surpreso.

— Tem tanta certeza assim?

A dama fechou lentamente a mala.

—— Tenho. Não duvido de minha rainha... e acredito que Vossa Alteza irá buscá-la, não irá?— A jovem sorriu gentil. — Sempre achei que os dois demorariam muito para entender um ao outro... mas nunca duvidei de que se completariam.

Yal soltou uma pequena respiração, quase um riso sem humor.

— E se eu fracassar?

A dama balançou a cabeça.

— Então ninguém mais conseguirá.

Ela caminhou até uma pequena escrivaninha.
Abriu discretamente uma gaveta escondida.
Retirou três folhas dobradas e amareladas pelo tempo.

— Encontrei isto quando organizava o quarto ontem pela noite.

— Cartas?

— Não exatamente.— Ela sorriu. — Aparentemente a princesa escrevia para si mesma.

Yal olhou para as folhas.
A caligrafia era inconfundível.
Aras.

A dama olhou novamente para os papéis. Depois separou apenas um deles.

— As outras pertencem à princesa.— Ela estendeu a folha restante. — Mas esta... acho que pertence aos dois.— Yal franziu a testa. — Ela nunca conseguiu terminá-la.

Yal permaneceu alguns segundos olhando para a folha dobrada entre seus dedos.

— Ela nunca terminou? — perguntou em voz baixa.

A dama negou com delicadeza.

— Foi escrita pouco antes de chamarem Sua Majestade para se preparar para a cerimônia.— Os olhos dela voltaram-se por um instante para um vestido branco qualquer, cuidadosamente acomodado na mala. — Ela pretendia guardá-la junto das outras suponho... mas acabou ficando esquecida na escrivaninha.

Yal passou o polegar pela borda do papel, sem coragem de abri-lo ainda.
A jovem fez mais uma reverência.

— Espero que logo possa devolvê-la à dona.—O príncipe ergueu os olhos.
A dama sorriu com a mesma serenidade de antes. — Que a Luz ilumine seu caminho... e que todos os deuses, antigos ou esquecidos, acompanhem cada passo de Vossa Alteza até nossa rainha.

Yal não encontrou palavras.
Apenas inclinou levemente a cabeça em agradecimento.
Guardou cuidadosamente a carta junto ao peito e então deixou o quarto.

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Muito além das montanhas negras...
Muito além das fronteiras conhecidas...

Os eterianos de Eferin acordavam em completo resplendor e alegria. Naquele dia, sua Segunda Guia celebraria o Luir, uma festividade semelhante ao aniversário humano.

Amme sempre gostara daquela palavra.
Aniversário.
Havia algo caloroso nela.
Sorrindo sozinha, abriu a porta dos aposentos de sua convidada especial.

Aras havia sido movida para aquele lugar desacordada é passou a noite toda dormindo por conta do pó com cheiro de limão e hortelã que Amme lançara sobre seu rosto na noite anterior, outra vez.

Do lado de fora dos aposentos, os corredores enchiam-se de eterianos em suas verdadeiras formas, sem qualquer necessidade de esconder aquilo que eram.

Alguns possuíam quatro braços cobertos por delicadas placas negras que lembravam obsidiana polida. Outros caminhavam apoiados sobre pernas alongadas demais para um corpo humano, enquanto longas caudas deslizavam silenciosamente pelo piso de pedra escura. Chifres retorcidos, asas parcialmente cristalizadas, olhos sem pupilas e pele marcada por veios luminosos não despertavam estranheza alguma.

Ali, ninguém era considerado monstruoso, aquela era apenas a aparência de uma família, de um vizinho, de um amigo.

Os tecidos também pouco lembravam as roupas humanas.

Em vez de armaduras ou vestidos pesados, muitos usavam mantos feitos de fibras prateadas que pareciam mudar de cor conforme a luz do Éter atravessava o tecido. Cristais vivos substituíam joias, pulsando lentamente junto ao corpo de quem os carregava.
Das cozinhas espalhava-se um aroma doce e mineral.

Grandes recipientes de pedra continham frutas translúcidas que brilhavam como pequenas luas, raízes azul-escuras mergulhadas em caldos fumegantes e flores cristalizadas servidas ainda presas aos galhos. Alguns eterianos sequer se dirigiam às mesas; permaneciam próximos aos grandes pilares de Luz, absorvendo lentamente o Éter que irradiava deles, como se aquela energia também os alimentasse.

O Luir era um dos poucos dias em que toda Eferin parecia esquecer a guerra.
Até mesmo os guardas sorriam é deixavam sua parte corrompida amostra.

Amme observou tudo por alguns instantes. Ser eteriano era sentir o sentimento do todo, e quando todos estavam minimamente próximos de quem era de verdade, Amme se sentia mais próxima de seu possível legado.

Aras continuava profundamente adormecida. Então a eteriana aproximou-se devagar.

— Acho que exagerei um pouco no pó... — murmurou, divertida.—Sentou-se na beira da cama e apoiou o rosto nas mãos. — Mas você precisava descansar. Ontem foi um dia muito longo.— Seus olhos percorreram o rosto da princesa por alguns segundos. Depois abriu um sorriso infantil. — E hoje tenho muitas coisas para lhe mostrar.

Do outro lado do continente...

Yal iniciava sua jornada para encontrar Aras.

Naquele mesma manhã, três caminhos começavam a convergir. Nenhum deles imaginava que o destino de dois povos já havia deixado de ser uma questão de guerra para tornar-se uma questão de escolha.

Thoughts

  • Ovid

    A dama de companhia arrumando até os pincéis de maquiagem de uma rainha sequestrada. Isso me fez pensar em quem põe a mesa pra alguém que ainda não chegou, por pura teimosia. Aposto que essa mala volta pro palácio com a Aras do lado, e que a dama vai fingir que nunca duvidou de nada. Vamos ver!

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  • pavor_incluso

    Sete pessoas numa sala discutindo rota, fronteira e arquivo, e o único que decidiu alguma coisa foi o que saiu pela porta. Conselho de reino é isso aí.

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