Fui juntando as peças dele na ordem: o rapaz novo dela, o namoro que acaba, a mensagem antes do casamento, ela segurando a filha, a academia. Pela conta dos quinze anos a menina deve estar com uns oito, nove. E do casamento ele fala tudo no passado. Você já escreveu a resposta dela?
Capitulo 11 - O que eu Nunca disse (versao dele)
Pensamento
Fui juntando as peças dele na ordem: o rapaz novo dela, o namoro que acaba, a mensagem antes do casamento, ela segurando a filha, a academia. Pela conta dos quinze anos a menina deve estar com uns oito, nove. E do casamento ele fala tudo no passado. Você
Conteúdo da publicação
Fiquei alguns segundos em silêncio depois que ela terminou.
Não porque não tivesse o que dizer.
Talvez fosse justamente o contrário.
Eu tinha coisas demais.
Quinze anos de coisas que nunca disse.
Olhei para a água à nossa frente.
A lua continuava refletida nela, mas, naquele momento, eu mal conseguia prestar atenção na paisagem.
Eu precisava voltar para um lugar que havia evitado durante muito tempo.
O passado.
Respirei fundo.
— Eu também preciso te pedir perdão.
Ela me olhou.
— Principalmente por ter feito você acreditar que não significava nada para mim.
Parei.
— Porque significava.
Muito.
Talvez mais do que eu mesmo conseguia entender naquela época.
Quando éramos mais novos, eu não sabia o que fazer com aquilo que sentia por você.
Eu gostava de você.
Mas tinha medo.
Medo de me envolver.
Medo de gostar mais do que deveria.
Medo de descobrir que você não sentia o mesmo.
E, principalmente, medo de parecer vulnerável.
Eu achava que demonstrar o que sentia era entregar para outra pessoa o poder de me machucar.
Então fiz exatamente o que você provavelmente mais interpretou como falta de interesse.
Me afastei.
Quando você mandava mensagens, muitas vezes eu via.
Eu lia.
Pensava em responder.
Às vezes começava uma resposta e apagava.
Não era porque eu não queria falar com você.
Era porque eu não sabia como.
Eu era um garoto tentando entender sentimentos que pareciam grandes demais para mim.
E você estava ali.
Cada vez mais próxima.
Cada vez mais importante.
E eu ficava cada vez mais assustado.
Ela continuava me olhando.
Então continuei.
— Quando você apareceu com outro rapaz, eu senti.
Não vou fingir que não.
Aquilo me machucou.
Eu tentei agir como se não ligasse.
Mas ligava.
Muito.
Talvez naquele momento eu tenha pensado que você tinha escolhido alguém que conseguia te dar aquilo que eu não conseguia.
E, em vez de perguntar, eu simplesmente aceitei.
Ou achei que aceitei.
Porque por dentro fiquei tentando entender onde eu tinha errado.
Se eu deveria ter feito alguma coisa diferente.
Se eu deveria ter falado.
Se deveria ter lutado por você.
Mas eu não fiz.
Meu orgulho falou mais alto.
E talvez o seu também.
Nós dois ficamos esperando que o outro desse o primeiro passo.
E, enquanto esperávamos, a vida continuava acontecendo.
Quando aquela relação terminou, eu soube.
E uma parte de mim teve esperança.
Pensei que talvez agora fosse diferente.
Talvez você finalmente viesse até mim.
Talvez eu finalmente tivesse coragem de ir até você.
Mas alguma coisa já havia mudado.
Nós havíamos criado distância demais.
E eu não sabia mais como atravessá-la.
Então comecei a seguir a minha vida.
Conheci outra pessoa.
No começo, eu não pensava que aquilo se transformaria no que se transformou.
Mas aconteceu.
E eu tomei uma decisão.
Casei.
Não vou mentir dizendo que tudo o que vivi foi uma mentira.
Não foi.
Eu amei.
Construí uma família.
Tive minha filha.
E minha filha foi, e sempre será, uma das maiores bênçãos da minha vida.
Mas existe uma diferença entre reconhecer que uma vida foi real e fingir que outra história nunca existiu.
E você existiu.
Na minha história, você existiu.
Mesmo quando não estava presente.
Ela baixou os olhos.
Eu continuei:
— Quando você me desejou felicidade antes do meu casamento, eu li sua mensagem mais de uma vez.
Ela me olhou surpresa.
— Eu não sabia se deveria responder.
— Por quê?
A pergunta saiu dela quase imediatamente.
Sorri de leve.
— Porque eu sabia que aquela poderia ser a última oportunidade que teríamos de conversar.
Respirei fundo.
— E talvez eu tenha sido covarde.
Fiquei olhando para minhas mãos.
— Eu poderia ter dito tantas coisas.
Poderia ter perguntado se você ainda sentia alguma coisa.
Poderia ter contado o que eu sentia.
Mas eu não fiz.
Talvez porque, naquele momento, eu tivesse escolhido seguir o caminho que estava diante de mim.
E eu não queria destruir uma vida que já estava começando.
Então deixei você ir.
Ou tentei.
Ela permaneceu em silêncio.
Eu também.
Depois de alguns segundos, continuei:
— Quando você me excluiu das redes sociais, eu percebi.
Ela ergueu os olhos.
— Você percebeu?
— Claro que percebi.
Sorri.
— Eu só nunca falei.
A verdade era que eu também procurava você de vez em quando.
Mesmo sem admitir.
Às vezes entrava no seu perfil.
Via alguma coisa.
Saía.
Era como abrir uma porta que eu sabia que não deveria abrir.
Então parei.
A vida exigia que eu continuasse.
E continuei.
Até o dia em que nos encontramos depois do meu casamento.
Eu estava com minha mãe.
E com minha filha.
Lembro daquele momento.
Lembro de você segurando minha filha.
Talvez você não tenha percebido, mas eu fiquei observando você.
Havia alguma coisa no seu olhar.
Uma tristeza que eu não soube interpretar naquela época.
E eu me perguntei:
Será que ela ainda sente alguma coisa?
Mas não tive coragem de perguntar.
Talvez fosse melhor não saber.
Talvez saber tornasse tudo mais complicado.
Então deixei aquela pergunta sem resposta.
Assim como tantas outras.
Os anos passaram.
Minha filha cresceu.
Minha vida mudou.
Eu mudei.
Aprendi que algumas decisões são definitivas, mesmo quando o coração demora para entender.
E achei que aquela história tinha finalmente ficado para trás.
Até aquele dia na academia.
Eu estava treinando quando vi você.
E, por alguns segundos, simplesmente parei.
Não sei explicar exatamente o que aconteceu.
Talvez tenha sido a surpresa.
Talvez a memória.
Talvez a sensação de reconhecer alguém que eu não via daquela maneira havia muito tempo.
Você estava diferente.
Mais madura.
Mais segura.
Mas ainda havia alguma coisa familiar.
Eu fiquei olhando.
E pensei:
É ela.
Depois veio outra pergunta:
Será que ela ainda se lembra de mim?
Eu pensei em ir falar com você.
Não fui.
Tive medo.
De verdade.
Medo de você me rejeitar.
Medo de você olhar para mim e não sentir absolutamente nada.
Medo de descobrir que, para você, eu era apenas uma lembrança antiga.
Então fui embora.
Mas aquela imagem ficou comigo.
E naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, pensei em você de uma maneira diferente.
Não como a menina de dezessete anos.
Mas como a mulher que estava diante de mim.
Foi quando peguei o celular.
E escrevi:
Oi. Tudo bem?
Ela respirou fundo.
— Então por que agora?
A pergunta veio baixa.
Mas eu sabia que chegaria.
Olhei para ela.
— Porque eu não queria passar o resto da vida me perguntando o que teria acontecido se eu tivesse simplesmente falado com você.
Fiquei em silêncio por um instante.
— Eu não sei o que vai acontecer depois dessa noite.
E era verdade.
Eu não sabia.
— Não sei se você vai continuar fazendo parte da minha vida.
— Não sei se nós dois temos alguma coisa para construir.
— E não quero te prometer nada que eu ainda não sei se posso cumprir.
Ela me olhava atentamente.
— Mas eu precisava te encontrar.
Parei.
— Precisava saber quem você se tornou.
Aquela frase ficou suspensa entre nós.
E então completei:
— E talvez precisasse que você conhecesse quem eu me tornei também.
Ela não respondeu.
Apenas ficou olhando para mim.
E, pela primeira vez naquela noite, eu percebi que talvez nós dois estivéssemos fazendo a mesma coisa.
Não tentando voltar no tempo.
Mas tentando entender o que o tempo havia feito conosco.
Eu tinha chegado naquela noite procurando respostas.
Agora percebia que algumas respostas talvez trouxessem ainda mais perguntas.
E havia uma que eu ainda não tinha coragem de fazer.
Uma pergunta que estava presa na minha garganta desde o momento em que a vi na academia.
Olhei para ela.
Respirei fundo.
E finalmente perguntei:
— Posso te fazer uma pergunta?
Ela assentiu.
— Naquela época...
Parei.
Era difícil dizer.
— Você realmente me amava?
O silêncio que veio depois pareceu durar uma eternidade.
E eu soube, naquele instante, que a resposta dela poderia mudar tudo.
Thoughts
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PermalinkFinalmente falou, ó 👏
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PermalinkBah, começar resposta e apagar é praticamente meu esporte, tchê. Só que o cara passou quinze anos apagando e na noite certa despejou tudo de uma vez na beira da água.
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PermalinkFui juntando as peças dele na ordem: o rapaz novo dela, o namoro que acaba, a mensagem antes do casamento, ela segurando a filha, a academia. Pela conta dos quinze anos a menina deve estar com uns oito, nove. E do casamento ele fala tudo no passado. Você já escreveu a resposta dela?
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PermalinkEu desconfio desse homem mais do que o resto aqui. Ele pede perdão, fala da filha, jura que não promete nada, e no fim devolve pra ela a pergunta mais pesada da noite. Aposto que ela responde com outra pergunta.
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PermalinkOs dois espiando o perfil um do outro por anos, cada um jurando que era o único. Excluir das redes foi o recado mais claro da história.
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PermalinkBom dia. Esse homem não renega o casamento pra justificar a volta, e foi isso que me fez acreditar nele. Diz que amou, fala da filha como bênção, e mesmo assim confessa que leu a mensagem dela mais de uma vez antes de casar. Tem gente que carrega uma pergunta assim a vida inteira sem estragar nada.
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PermalinkAfinal enganei-me. No capítulo sete apostei que ao vivo ele se calava, e falou tudo e ainda guardou a pior pergunta para o fim.
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PermalinkQuinze anos de coisas guardadas e, quando ele finalmente pega o celular, manda só duas palavras perguntando se está tudo bem. Eu acho isso muito da vida real, a gente ensaia o discurso inteiro e na hora sai o mínimo. Fico imaginando que nesta noite na beira da água é ela quem vai ter o discurso pronto. Obrigado por seguir com a história!
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PermalinkEle parando no meio do treino quando vê ela e indo embora sem falar nada. Eu já vi essa cena na academia: gente que some dez anos reaparece do lado do supino numa terça qualquer, e ninguém sabe o que fazer com a mão.
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Fiquei alguns segundos em silêncio depois que ela terminou.