Ela respirou fundo.
E começou a falar.
Pediu perdão.
Disse que havia sido imatura.
Que estava apaixonada.
Que se envolveu com outra pessoa porque precisava de uma segurança que não sentia em mim.
Eu ouvi tudo.
Sem interromper.
Porque, enquanto ela falava, algumas coisas começaram a fazer sentido.
Eu nunca havia entendido completamente aquela época.
Durante anos, pensei que ela simplesmente tivesse escolhido outra pessoa.
E talvez tivesse sido exatamente isso.
Mas agora eu conseguia perceber que, para ela, havia muito mais acontecendo.
Ela falou sobre os arrependimentos.
Sobre as noites em que chorou.
Sobre o momento em que descobriu que eu estava seguindo em frente.
E então falou do meu casamento.
Eu não sabia que aquilo havia doído tanto.
Ela contou que havia me excluído das redes sociais.
Que tentou se proteger.
E então chegou à parte que me surpreendeu.
Minha filha.
Ela contou como foi segurá-la.
Contou que, naquele momento, imaginou como teria sido se aquela criança fosse nossa.
Eu fiquei em silêncio.
Aquilo me atingiu de uma maneira que eu não esperava.
Não porque eu quisesse mudar o passado.
Mas porque percebi que ela havia carregado muito mais sentimento do que eu imaginava.
Ela então disse que naquele momento finalmente havia desistido de mim.
Desistido da nossa história.
E que havia seguido a vida.
Eu olhei para ela.
Durante tantos anos, achei que apenas eu havia guardado perguntas.
Mas não.
Ela também havia guardado.
Talvez as perguntas fossem diferentes.
Talvez as respostas também.
Quando ela terminou, fiquei alguns segundos sem saber o que dizer.
Eu queria abraçá-la.
Queria dizer que sentia muito.
Queria explicar cada uma das minhas escolhas.
Mas também sabia que não podia simplesmente despejar quinze anos de respostas sobre ela.
Precisávamos fazer isso com calma.
Então respirei fundo.
E finalmente disse:
— Agora é a minha vez.
Ela levantou os olhos.
Eu sabia que aquela seria a parte mais difícil.
Porque contar minha história significava admitir coisas que eu nunca havia contado a ninguém.
Significava falar sobre o medo.
Sobre as vezes em que me afastei mesmo querendo me aproximar.
Sobre as vezes em que também senti ciúmes.
Sobre as escolhas que fiz.
Sobre o casamento.
Sobre a vida que construí.
E sobre aquela pergunta que, de alguma maneira, havia permanecido comigo por quinze anos:
E se eu tivesse feito diferente?
Olhei para ela.
Naquela noite, pela primeira vez, não éramos mais dois jovens tentando descobrir se o outro sentia alguma coisa.
Éramos dois adultos diante das consequências das escolhas que fizemos.
E eu finalmente estava pronto para contar a minha versão.
Não para mudar o passado.
Mas para que ela finalmente conhecesse o homem que existia por trás daquele garoto que um dia conheceu.
E talvez...
Só talvez...
aquele fosse o verdadeiro começo do nosso reencontro.