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Capítulo 10 O último beijo

Raiana
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O telefone tocou apenas duas vezes.

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marcao77

Aquela frase. 'Você é feita do mesmo barro que eu.' Sessenta anos guardando uma frase.

Aquela frase. 'Você é feita do mesmo barro que eu.' Sessenta anos guardando uma frase.

Conteúdo da publicação

O telefone tocou apenas duas vezes.

Do outro lado do oceano, alguém atendeu.

— Alô?

A voz era feminina.

Mansa.

Helena permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois encontrou forças para dizer:

— Eu... gostaria de falar com Eduardo Carvalho.

Houve uma pausa.

Como se aquela voz tivesse atravessado décadas antes de chegar àquela casa.

— A senhora é Helena?

O coração dela disparou.

— Sou.

A mulher respirou profundamente.

— Eu sou Beatriz.

Outro silêncio.

Helena imaginou milhares de possibilidades para aquela conversa.

Nenhuma incluía delicadeza.

Mas a voz de Beatriz carregava apenas cansaço e uma serenidade conquistada com os anos.

— Ele esperou por essa ligação todos os dias desde que escreveu a carta.

Helena fechou os olhos.

— Como ele está?

A resposta veio baixa.

— Está indo embora.

As lágrimas desceram antes mesmo que Beatriz continuasse.

— Venha.

Por favor.

Venha vê-lo.

Ainda há tempo.

Dois dias depois, Helena atravessava o jardim da casa onde Eduardo vivera durante tantos anos.

Era primavera.

As árvores estavam cobertas de flores.

O perfume das rosas misturava-se ao cheiro da terra molhada.

Ela parou diante da porta.

As mãos tremiam.

Ali não estava apenas uma casa.

Estavam sessenta anos de ausência.

Sessenta anos de perguntas.

Sessenta anos tentando convencer a si mesma de que havia esquecido.

A porta abriu-se lentamente.

Beatriz sorriu.

Era uma mulher de cabelos completamente brancos.

Os olhos revelavam noites sem dormir.

Mesmo assim, havia uma doçura inesperada em seu rosto.

As duas mulheres permaneceram alguns segundos apenas se olhando.

Depois Beatriz deu um passo à frente.

Segurou as mãos de Helena.

— Obrigada por ter vindo.

Helena tentou responder.

Não conseguiu.

Entrou.

A casa inteira era feita de livros.

Discos.

Fotografias.

Jornais antigos.

Era exatamente o tipo de lugar onde imaginara Eduardo vivendo.

Sobre um piano repousava um vaso com margaridas.

As mesmas flores que ele lhe levava na juventude.

Helena sorriu entre lágrimas.

— Ele nunca esqueceu...

Beatriz acompanhou seu olhar.

— Nunca.

Caminharam lentamente pelo corredor.

Antes de abrir a porta do quarto, Beatriz parou.

Olhou para Helena com uma honestidade que apenas o amor maduro conhece.

— Quero lhe dizer uma coisa antes de entrar.

Helena esperou.

— Eu fui o amor para a vida dele.

Construímos uma casa.

Compartilhamos alegrias, medos, silêncio.

Fomos companheiros.

Ele me amou profundamente.

Helena abaixou a cabeça.

Beatriz ergueu delicadamente seu rosto.

— Mas você...

Você foi o amor da alma dele.

O fogo interior.

A parte que nunca deixou de arder.

E nunca senti ciúme disso.

Porque ninguém escolhe onde a alma encontra sua primeira morada.

Helena começou a chorar.

Beatriz a abraçou.

As duas mulheres permaneceram unidas por alguns instantes.

Não como rivais.

Mas como duas pessoas que haviam amado o mesmo homem em tempos diferentes.

Quando Helena entrou no quarto, Eduardo dormia.

O rosto estava magro.

As mãos, antes firmes, pareciam frágeis sobre o lençol.

Mas bastou ouvir seus passos.

Ele abriu lentamente os olhos.

Por um instante, não havia doença.

Nem velhice.

Nem tempo.

Apenas o espanto de um rapaz de vinte e seis anos revendo a mulher que esperara por toda uma vida.

— Helena...

Ela sorriu.

Era exatamente o mesmo sorriso da faculdade.

— Olá, Eduardo.

Ele estendeu a mão.

Ela a segurou.

Fechou os olhos.

Na pequena vitrola ao lado da estante, Beatriz havia deixado um disco preparado.

A agulha encontrou o vinil.

As primeiras notas de "Till There Was You", dos Beatles, encheram o quarto.

Eduardo sorriu.

— Você lembra?

Helena riu entre lágrimas.

— Como eu poderia esquecer?

E, de repente, o quarto desapareceu.

Voltaram ao velho hotel.

Ao inverno de 1964.

À janela embaçada pelo frio.

Ao cobertor curto.

À jovem adormecida enquanto um rapaz apaixonado passava a noite inteira olhando para ela, incapaz de acreditar que aquela mulher existia.

Voltaram ao primeiro beijo.

À primeira dança.

À primeira vez que fizeram amor.

Ao instante em que ele lhe dissera:

— Você é feita do mesmo barro que eu.

Helena acariciou seu rosto.

— Passei a vida inteira guardando essa frase.

Eduardo sorriu com tristeza.

— Passei a vida inteira tentando merecê-la.

O silêncio voltou.

Mas agora era um silêncio cheio de paz.

Eduardo respirava com dificuldade.

Olhou profundamente nos olhos dela.

— Posso lhe pedir uma última coisa?

— Pode.

Sua voz quase desapareceu.

— Me beije...

Como naquela primeira noite.

Helena inclinou-se lentamente.

Seus lábios encontraram os dele com a mesma delicadeza da juventude.

Não havia desejo.

Havia eternidade.

Quando o beijo terminou, Eduardo permaneceu olhando para ela.

Seus olhos brilhavam.

Ele sorriu.

— Agora...

O amor basta.

Foi a última frase que disse.

Sua mão afrouxou dentro da dela.

O peito deixou de subir.

E, ainda olhando para Helena, Eduardo partiu.

Alguns minutos depois, Beatriz entrou no quarto.

Não chorava.

Apenas carregava um velho caderno de capa azul, gasto pelo tempo.

Sentou-se ao lado de Helena.

Colocou o caderno em suas mãos.

— Ele começou a escrevê-lo poucos meses depois que vocês se separaram.

Helena olhou a capa.

Não havia título.

Beatriz sorriu.

— Nunca conseguiu terminá-lo.

Porque dizia que o final dependia de você.

Helena abriu a primeira página.

Na caligrafia firme de Eduardo, leu:

"Este é o romance da única mulher que conseguiu me ensinar que a liberdade sem amor produz apenas sobreviventes.

Se algum dia estas páginas chegarem às suas mãos, Helena, saiba que nunca deixei de escrever para você.

Porque algumas reportagens mudam um país.

Mas foi você quem mudou a minha alma."

Helena abraçou o caderno contra o peito.

Beatriz aproximou-se da janela e deixou que o vento da primavera entrasse no quarto.

Lá fora, as margaridas balançavam suavemente.

E, por um breve instante, pareceu às duas mulheres que, em algum lugar onde o tempo já não existia, um jovem jornalista e uma estudante de Letras voltavam a caminhar pelas ruas de uma cidade antiga, conversando por horas como se já se conhecessem desde sempre.

Thoughts

  • tmoreira93

    Beatriz colocou aquele disco antes deles entrarem. Ela já sabia que era a última. 💜

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  • sofadasala

    Que capítulo. Aquele final com as margaridas balançando lá fora. Ficou tão lindo.

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  • paginadobrada

    A gente vai saber mais sobre aquele romance? Ou como eles se separaram?

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  • oitoemponto

    Tem algo estranho em Eduardo nunca ter terminado aquele romance. Parece que ele sabia que precisava dela pro final.

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  • meioCapitulo

    Ele morreu ali no beijo dela. É como se tivesse só esperado por aquilo pra ir embora.

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  • marcao77

    Aquela frase. 'Você é feita do mesmo barro que eu.' Sessenta anos guardando uma frase.

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  • li_no_busao

    Fico pensando em que momento Helena parou de esperar. Se ela parou mesmo.

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  • folhaSolta

    Beatriz me marcou. Aquele jeito dela receber Helena sem ressentimento. Ela realmente nunca sentiu ciúme?

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