Uma guerra inteira registrada, com soldado contado e fortaleza anotada, e ninguém escreveu contra quem. Arquivo militar sendo arquivo militar.
Capítulo 10: A guerra esquecida
A noite caiu sobre Hagar sem que ninguém percebesse quando.
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Uma guerra inteira registrada, com soldado contado e fortaleza anotada, e ninguém escreveu contra quem. Arquivo militar sendo arquivo militar.
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A noite caiu sobre Hagar sem que ninguém percebesse quando.
As velas substituíram o sol, mas o castelo permaneceu desperto.
Os corredores ainda carregavam o cheiro metálico da batalha. Servos esfregavam o sangue incrustado entre as pedras, enquanto carpinteiros improvisavam tábuas onde antes existiam portas e vitrais. Em alguns salões, curandeiros dos Permians trabalhavam sem descanso, tratando soldados, criados e civis feridos durante a invasão.
O casamento nunca fora oficialmente encerrado.
Também nunca fora concluído.
O reino inteiro parecia suspenso entre dois acontecimentos: uma guerra que terminara cedo demais e o desaparecimento de sua futura rainha.
No antigo gabinete real, porém, a noite simplesmente deixou de existir.
Livros ocupavam toda a mesa.
Outros permaneciam abertos sobre o chão.
Mapas antigos dividiam espaço com pergaminhos quebradiços, registros militares, relatos religiosos e diários escritos por exploradores que afirmavam ter visto fenômenos impossíveis.
Yal continuava acordado.
As mangas da camisa haviam sido dobradas até os cotovelos havia horas. A espada permanecia apoiada contra a cadeira, esquecida. Desde o ataque, ele mal havia retirado a armadura; limitara-se a remover as peças mais pesadas para conseguir respirar melhor enquanto lia.
Um sacerdote terminava seu relato.
— ...e foi isso, alteza. Meu mestre dizia que os eterianos eram espíritos criados para punir os homens pelos pecados da guerra.
Yal fechou lentamente o livro que consultava.
— Seu mestre chegou a vê-los?
O sacerdote hesitou.
— Não.
— Então essa história veio de quem?
— Não sabemos.
Yal apenas assentiu.
— Obrigado por ter vindo.
O homem curvou-se antes de deixar a sala. Logo outro entrou.
Depois outro.
Um velho historiador.
Uma curandeira.
Dois sobreviventes da fronteira.
Um viajante que jurava ter visto uma fumaça negra desaparecer entre montanhas décadas antes.
Nenhum deles possuía respostas.
Apenas lendas.
Mitos.
Medos.
Conforme as horas avançavam, Yal compreendia uma verdade incômoda.
Os humanos haviam vencido a guerra de Profén.
Mas quase ninguém ainda vivo sabia realmente contra quem haviam lutado.
...
Quando a madrugada começou a desaparecer, uma pilha diferente chamou sua atenção.
Documentos militares.
Registros preservados desde Profén.
Papel antigo.
Quase quebradiço.
Ele abriu o primeiro.
Relatórios de movimentação.
Número de soldados.
Fortalezas conquistadas.
Baixas humanas.
Baixas eterianas.
Nada.
O segundo.
Relatos de generais.
Nada.
O terceiro.
Correspondências entre reinos.
Também nada.
Era como se todos descrevessem uma guerra...
...sem jamais explicar quem era o inimigo.
Yal passou lentamente os dedos pela folha seguinte.
Havia apenas uma frase destacada no centro do documento.
"Jamais permitam que retornem à Luz."
Ele franziu a testa.
Retornem?
Retornem para onde?
Antes que pudesse continuar, três batidas interromperam sua leitura.
— Entre.
A porta abriu-se imediatamente.
Dois soldados entraram e ajoelharam-se.
— Alteza.
Yal levantou os olhos dos documentos.
— O que aconteceu?
Os homens trocaram um breve olhar.
— Suas Majestades, o Imperador e a Imperatriz...
O segundo continuou.
— ...bem como os príncipes renegados, a General Real e os representantes civis do povo sotniano convocaram uma reunião extraordinária dos reinos.
Yal fechou lentamente o documento sobre Profén. Já esperava que aquele momento chegasse.
O desaparecimento de Aras deixara de ser apenas uma tragédia familiar.
Agora era uma crise internacional.
Ele levantou-se da cadeira.
Depois de uma única noite, seus olhos já carregavam o peso de muitos dias sem descanso.
Ainda assim, sua voz permaneceu firme.
— Eles já começaram?
— Estão aguardando apenas o senhor.
Yal caminhou até a espada apoiada contra a parede.
Prendeu-a novamente à cintura.
Em seguida lançou um último olhar para a pilha de livros espalhados pela mesa.
Nenhum deles havia lhe dito onde Aras estava. Mas talvez, os líderes reunidos soubessem por onde começar a procurá-la.
Sem dizer mais nada, deixou o gabinete.
O caminho até a sala do conselho pareceu longo e lento.
Conforme avançava pelos corredores, Yal percebia que o castelo já despertava. Servos caminhavam apressados levando bandejas, escribas carregavam pilhas de pergaminhos e soldados substituíam os companheiros que haviam permanecido de guarda durante toda a noite.
Quando alcançou as grandes portas de carvalho, dois lanceiros anunciaram sua chegada. As folhas pesadas se abriram lentamente.
O salão estava cheio.
No centro, uma enorme mesa circular havia sido preparada às pressas.
Mapas de Hagar ocupavam quase toda sua superfície. Pequenas pedras coloridas marcavam fortalezas, cidades e os locais onde os redemoinhos negros haviam sido vistos.
Mas foi nas pessoas que o olhar de Yal parou.
Na cabeceira da mesa estava o imperador Orian.
Mesmo após uma noite inteira sem dormir, mantinha a postura impecável. Os cabelos claros começavam a ser tomados pelo grisalho, mas seus olhos permaneciam tão severos quanto os de um comandante diante do campo de batalha.
Ao seu lado estava a imperatriz Ena.
A beleza delicada do povo sotniano parecia quase sobrenatural. Sua pele refletia discretamente a luz da manhã que atravessava os vitrais remendados, e os longos cabelos dourados caíam sobre os ombros como fios de luz.
Ela mantinha as mãos entrelaçadas sobre o colo.
Serena por fora.
Destruída por dentro.
À direita dos imperadores encontrava-se Enaira.
A general não vestia roupas nobres.
Ainda usava parte da armadura da batalha do dia anterior. Os cabelos estavam presos de maneira apressada e uma faixa cobria um pequeno corte na testa.
Mesmo assim, permanecia absolutamente ereta.
Como se admitir o cansaço fosse uma derrota.
Mais adiante estavam os três irmãos que um dia haviam sido herdeiros do trono. Elfi permanecia encostado na parede, braços cruzados, vestindo roupas muito mais próximas das usadas por marinheiros do que por príncipes. O sorriso debochado de sempre havia desaparecido.
Odlan caminhava lentamente ao redor da mesa, incapaz de permanecer parado.
Leil observava silenciosamente um dos mapas. Os dedos calejados de ferreiro deslizavam distraídos sobre a madeira da mesa, como se procurassem alguma solução escondida entre as linhas desenhadas.
Do outro lado encontravam-se os representantes civis do povo sotniano.
Homens e mulheres de aparência quase etérea.
Altos.
Magros.
Peles suavemente luminosas.
Olhos dourados, prateados e azulados refletiam a luz ambiente como cristais vivos.
Nenhum deles falava.
Yal então desviou o olhar para a extremidade oposta da mesa.
Ali estava seu próprio pai.
O imperador Arlen.
Representante do povo leriondis.
Ao contrário dos sotnianos, sua presença lembrava a própria terra.
A pele bronzeada pelo sol.
Os ombros largos.
As mãos marcadas por décadas de trabalho antes mesmo de vestir uma coroa.
Os cabelos castanhos, já salpicados de branco, permaneciam presos atrás da cabeça, enquanto os olhos verdes analisavam silenciosamente o filho.
Yal caminhou até a mesa.
Parou diante dos dois imperadores.
Curvou discretamente a cabeça.
— Majestades.
Orian assentiu em resposta.
Ena apenas ofereceu um sorriso quase imperceptível.
Arlen foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Você não dormiu.
Yal respondeu com sinceridade.
— Não senhor.
— Comeu?
— Não tive fome senhor.
O imperador dos leriondis soltou um suspiro pesado.
— Imaginei.
Antes que pudesse continuar, Orian ergueu uma das mãos.
— Depois vocês conversam como pai e filho. — O imperador apoiou ambas as mãos sobre a mesa. Seu olhar percorreu lentamente cada pessoa presente. Quando voltou a falar, o salão inteiro mergulhou em absoluto silêncio. — Minha filha foi levada diante dos olhos de todo este continente.— Ele fez uma pausa. — Isso deixou de ser apenas um problema de Hagar.— Os olhos frios encontraram os de Yal. — Quero saber tudo o que descobriram durante esta noite. E não omitam absolutamente nada.
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PermalinkUma guerra inteira registrada, com soldado contado e fortaleza anotada, e ninguém escreveu contra quem. Arquivo militar sendo arquivo militar.
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PermalinkO Arlen parando tudo pra saber se o filho tinha comido, no meio de uma crise entre reinos, me fez rir e doer ao mesmo tempo. Aposto que essa ternura de pai vai pesar quando descobrirem o que quer dizer retornar à Luz, porque aquela frase nos registros tem cara de segredo que alguém da mesa já conhece. Fico esperando o capítulo 11!
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PermalinkGostei do Leil passando os dedos calejados de ferreiro no mapa. Príncipe que já trabalhou com a mão, esse aí eu entendo, né não.
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