Segunda-feira, 03/02/2025
É de manhã, e estou completamente atrasado para o trabalho. Que droga! Por que eu tive que dormir tanto? Se o meu chefe descobrir, ele vai me matar. E não, eu não estou exagerando. O senhor Daniel tem uma péssima reputação - dizem que é extremamente estressado e rigoroso. Sempre que passa pelos corredores, está com aquela expressão séria, quase sombria. Nunca sorri. E, sinceramente, olhando para o rosto dele, talvez seja tudo verdade.
Eu estou na empresa há apenas um mês e meio. Trabalho no setor administrativo de uma fábrica de café. Assim que chego, pego um café rapidamente, tentando disfarçar o atraso, e corro para o meu setor. Foi quando tudo aconteceu.
Me esbarro em alguém no corredor e... o café voa da minha mão. Tudo acontece em câmera lenta. A bebida quente atinge em cheio a camisa branca da pessoa à minha frente.
- D-desculpe! - digo, já virando o rosto para ver quem é. E então meu coração congela.
É ele. O senhor Daniel, o chefe, Molhado De café. Me encarando com uma expressão gélida e inabalável.

Minhas mãos tremem. Sinto meu rosto esquentar. Rapidamente tiro um lenço do bolso e tento, inutilmente, limpar a mancha.
- A-Ai meu Deus, eu sinto muito, senhor! - falo, desesperado.
Ele me encara por aluns segundos, seus olhos penetrantes fixos nos meus, e então diz, com a voz firme e baixa:

- Não precisa, Ariel.
Meu coração para. Ele sabe o meu nome?!
- Eu realmente sinto muito. Deixe-me pagar pela lavagem da sua camisa, por favor! - insisto, tentando consertar o desastre.
- Não precisa. Está tudo bem. Só tenha mais cuidado da próxima vez. - diz ele, com o mesmo tom calmo e assustadoramente controlado, antes de seguir pelo corredor sem olhar para trás.
Fico paralisado por alguns segundos, vendo ele se afastar. Meus pensamentos estão em colapso.
"Ele vai me demitir."
"Será que manchar a camisa do chefe já é motivo para ser mandado embora?"
"Por que logo comigo?"
Quando finalmente entro na sala, ainda visivelmente abalado, meus colegas notam minha expressão.
- O que aconteceu, Ariel? Por que essa cara? - pergunta um deles, franzindo a testa.
- Eu... eu derramei café no chefe. - respondo, com a voz fraca, quase sem ar.
- No senhor Daniel?! - outro colega exclama, arregalando os olhos.
- Sim... - digo, já sentindo a angústia crescer de novo no peito.
Silêncio. Eles se entreolham, com expressões de horror misturado com pena. Alguém até sussurra:
- Boa sorte, meu amigo...
É hora do almoço, e eu passei a manhã inteira atormentado com um único pensamento: o que pode acontecer comigo depois de ter derramado café no senhor Daniel?
Estamos todos no refeitório, mas a comida parece não descer. Meus pensamentos pesam mais do que o prato. E então, como se o destino quisesse me provocar, o senhor Daniel passa por nós. Ele está com a mesma camisa... Ou será que é outra idêntica? Não daria tempo de lavar e secar tão rápido, não daquele jeito. Ele anda com a mesma postura rígida, o rosto impassível. Eu abaixo o olhar e me sento à mesa, tentando parecer invisível.
- Saboreando a última refeição na empresa? - brinca um dos meus colegas, puxando a cadeira ao meu lado com um sorriso malicioso.
- Para com isso... Eu já estou nervoso o suficiente. - respondo, passando a mão pelo rosto em sinal de frustração.
O almoço termina, e para tentar relaxar, decido fazer um café. Um cafezinho sempre ajuda a acalmar os nervos... pelo menos um pouco.
Enquanto mexo na cafeteira, a secretária do senhor Daniel aparece repentinamente.
- Ah, você está fazendo café? - pergunta ela com um tom quase casual.
- Sim... - respondo, desconfiado.
- Pode me ajudar com uma coisa? Você poderia levar uma xícara para o senhor Daniel? Ele sempre toma café depois do almoço. Eu ainda não terminei de comer, mas ele já almoçou.
Meu coração dispara.
- Le-levar lá? - pergunto, com os olhos arregalados.
- Sim. - responde ela, já se afastando pelo corredor.
- Ei! Espera! Você quer que eu entre no escritório do senhor... Daniel? - insisto, mas ela já virou a esquina e desapareceu.
Fico ali parado por um instante, com a xícara quente nas mãos trêmulas, o cheiro do café subindo até meu nariz, e um nó apertando minha garganta.
Respiro fundo, tentando reunir coragem. Caminho em direção à porta do escritório. Quando chego, estico a mão direita até a maçaneta... e ela treme.
Será que ele vai me mandar embora agora? Ou vai simplesmente me ignorar? E se ele estiver bravo e resolver descontar em mim?
Tomo outro fôlego. É agora.
Ou eu entrego esse café... ou deixo o medo me vencer.
Quando giro a maçaneta, me dou conta de algo óbvio - preciso bater antes de entrar.
- O que eu tô fazendo? Se eu entrar assim, só vai piorar as coisas... - sussurro para mim mesmo, nervoso.
Tomo coragem e bato levemente na porta.
- Senhor, o seu café... - digo, tentando manter a voz firme.
- Pode entrar - responde o senhor Daniel, com aquele tom calmo que, para mim, soa como o rugido de um juiz prestes a dar a sentença.
Entro devagar, como quem pisa em solo sagrado. Me aproximo da mesa com passos cuidadosos e coloco a xícara diante dele, evitando ao máximo qualquer contato visual. Meu coração está disparado.
- Aqui está, senhor. - murmuro.
Sem esperar qualquer resposta, me viro rapidamente e saio da sala quase tropeçando nos próprios pés. Ufa! Ele não disse nada. Nada! Talvez isso seja um bom sinal?
Já é quase fim de expediente e estou prestes a respirar aliviado, quando a secretária do senhor Daniel surge na porta da minha sala.
- O senhor Daniel quer vê-lo, Ariel - avisa, séria.
- Ai, meu Deus... - digo, colocando as mãos na cabeça, o estômago revirando. - É agora...
- Boa sorte, amigo - comenta um colega, me dando um tapinha no ombro.
Me levanto sentindo as pernas bambas, atravesso o corredor e bato na porta novamente.
- Entre - diz a voz do chefe, firme e direta.
- O senhor me chamou? - pergunto, tentando disfarçar o nervosismo enquanto me aproximo da mesa.
- Sobre o café...
- Senhor, me perdoe! Eu fui um tremendo pateta, eu juro que não vai acontecer de novo, foi um acidente horrível, e eu-...
- Na verdade, não era sobre o incidente da manhã. - interrompe ele, com um olhar sereno. - Mas já que você está tão arrependido, tive uma ideia.
- Hã? - pergunto confuso, piscando várias vezes.
- Queria dizer que gostei muito do seu café. Me lembrou do café que minha avó fazia. Ela faleceu há alguns anos... - sua voz suaviza por um instante, e vejo um lampejo de saudade em seus olhos. - Mas vamos ao ponto. Já que está tão empenhado em se redimir, quero propor algo.
- Estou ouvindo, senhor. - digo, engolindo seco.
- Quero que prepare o meu café todos os dias, assim que eu chegar pela manhã e logo depois do almoço. Durante um mês.
Por um segundo, fico paralisado. Mas então respiro aliviado. Ele não vai me demitir. Na verdade... quer que eu prepare o café dele? Só isso?
- Está bem, senhor. Pode deixar comigo. - respondo com um pequeno sorriso, aliviado.
- Ótimo. Vamos ver se o café de amanhã mantém o mesmo sabor da vó. - diz ele, e, por um milagre, quase parece que um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
Saio da sala ainda com o coração acelerado, mas agora por outro motivo. Eu sobrevivi... e, quem diria, talvez até tenha causado uma boa impressão.
Sexta-feira, 14/02/2026
Já fazem quase duas semanas que estou levando café para o senhor Daniel. Até agora, ele nunca reclamou de nada. Aliás, ao contrário do que dizem pelos corredores, ele não é tão assustador assim. Parece mais... sozinho. Sempre sério, discreto, quase inacessível. Nunca o vi conversar muito com ninguém além do pai - o presidente da empresa - e do irmão mais velho, que é o diretor geral.
O expediente finalmente acabou. Sexta-feira! Saí para beber com meus amigos, e, bom... acabei exagerando um pouco. Já é bem tarde quando o táxi me deixa na frente de casa. O mundo gira levemente, e minha cabeça está mais leve do que deveria.
Quando vou me aproximando da porta, vejo uma silhueta familiar encostada no muro.

- Senhor Daniel...? - pergunto, franzindo os olhos e cambaleando um pouco.

- Ariel? - diz ele, visivelmente surpreso.
- O que o senhor tá fazendo aqui na frente da minha casa? - questiono, tentando manter o foco.
- É que eu...
- Já sei! - o interrompo, abrindo um sorriso bêbado. - O senhor tá com abstinência e veio aqui pra tomar o meu café, né?
- Você tá bêbado? - pergunta ele, desconfiado ao notar meu estado.
- Só um pouquinho - digo, mostrando com os dedos. - Mas, ó... se quiser beber meu café, vai ter que pedir com carinho.
- Que tipo de carinho? - ele pergunta, confuso.
- Tem que dar um beijo na minha cabeça. - digo, apontando para o topo da cabeça com um sorriso bobo.

- O quê? - diz ele, visivelmente chocado.
- É assim que o meu pai faz quando quer que eu faça alguma coisa pra ele. Ele me dá um beijinho na cabeça e pede - explico, já quase encostando nele, meio sem filtro. - Vai, beija a minha cabeça... e diz assim: "faz café pra mim, por favor."
Há um momento de silêncio. Ele me encara, claramente dividido entre a surpresa e a hesitação. Mas, para minha surpresa, ele se aproxima devagar. O mundo parece desacelerar. Sinto sua respiração e, então, seus lábios tocam suavemente o topo da minha cabeça.

- Você faz café pra mim... por favor? - diz Daniel, com a voz baixa, quase em sussurro.

Meu coração dispara. Ele está tão perto... tão inesperadamente humano. Olho para ele. Nossos olhares se cruzam, longamente, e sinto o mundo girar de um jeito diferente agora - não por causa do álcool, mas por causa dele.